cap 19 como ele está

897 Words
REBECA Eu tava com o celular na mão fazia horas. Só apertando a tela, bloqueando e desbloqueando. A foto de fundo era uma nossa, tirada em Angra, bem no dia em que ele me pediu em casamento. Ele sorria torto, aquele olhar de quem carrega o mundo, mas que me fazia esquecer de tudo. E eu? Eu sorria igual boba. Só que agora, olhando pra tela, parecia que aquele momento tinha sido de outra vida. Uma vida onde não existia guerra, não existia medo, e muito menos essa distância que tá me matando por dentro. Eu respirava fundo. Já digitei umas quatro vezes "preciso te contar uma coisa", mas apaguei tudo antes de enviar. Eu queria falar com ele ouvindo sua voz, sentindo o peso da resposta dele no tom do "alô". Só que... eu nunca conseguia. Liguei. Chamou duas vezes e caiu. De novo. Liguei mais uma. Dessa vez ele atendeu, mas tava um barulho de fundo absurdo. Parecia helicóptero, gritaria, e o som de tiro ecoando como se fosse normal. O coração na hora apertou. Quis gritar: "pelo amor de Deus, sai daí!" Ligação on - Alô? - ele disse, com a voz apressada. - Veneno? Eu... eu... - e antes de eu conseguir completar, ouvi ele xingar alguém do lado. - Agora não, amor. Tô no corre, depois eu ligo, tá? - e desligou. Ligação off Fiquei com o celular na mão, com a boca ainda aberta. O "tá?" dele ficou preso na minha garganta. Senti os olhos enchendo de novo. Nem chorei, não sei por quê. Só fiquei ali parada, ouvindo o silêncio do quarto. Eu precisava contar. Não dava pra esperar. Não dava pra esconder dele uma coisa dessas. Eu tava grávida. GRAVIDA. Do homem que eu amava, no meio de uma guerra, com o peito explodindo de medo e esperança ao mesmo tempo. Mais tarde, tentei de novo. Liguei umas três vezes seguidas. Na última, ele atendeu respirando forte, tipo ofegante mesmo. O barulho de passos correndo do lado. Ligação on - Amor? Tá tudo bem? - Mais ou menos... depois te explico, tá? Me espera, só isso que te peço - e desligou de novo. Ligação off A raiva me tomou um pouco também. Não dele. Da situação. De tudo. Como é que a vida virou esse caos tão rápido? Um mês atrás a gente tava rindo, com os pés na areia. Agora eu tava contando semanas de gravidez enquanto ouvia tiro pela ligação. Me joguei no sofá com a mão na barriga. Ainda nem tava grande, mas eu já sentia. Não era físico. Era emocional. Já amava essa criança com uma força que nem sei explicar. E doía saber que o pai dela podia não voltar. Que ele podia nunca saber o que tá crescendo aqui dentro. As meninas aqui de casa me olhavam preocupadas. A Bia até tentou fazer eu comer algo, mas a comida parecia pesar mais do que alimentar. Não tinha fome. Só medo. Peguei o celular de novo e gravei um áudio. "Felipe, eu sei que tá tudo um caos, mas por favor, me escuta. Eu preciso te contar uma coisa. Você... você vai ser pai." Respirei fundo. Quase chorei, mas segurei. Fiquei olhando o botão de enviar. Tremia. O dedo no botão azul, mas não consegui apertar. Apaguei. E se ele ouvisse no meio do confronto? E se isso desconcentrasse ele? E se ele morresse ouvindo isso? A cabeça virou um furacão. Me tranquei no quarto. Deitei com o celular encostado no peito, ouvindo as notificações que não eram dele. Vi que ele tinha ficado online por alguns segundos, mas não mandou nada. Fiquei pensando mil coisas. Talvez ele tivesse ferido. Talvez estivesse com medo. Ou... talvez estivesse tentando me proteger e achasse melhor o silêncio. Eu só queria ele aqui. Nem que fosse por cinco minutos. Pra encostar minha cabeça no ombro dele, sentir o cheiro da nuca, ouvir ele dizendo que tudo ia ficar bem. Que íamos sair dessa. Que ele ia tá do meu lado quando o bebê nascesse. Porque esse bebê vai nascer. Mesmo se o mundo estiver em guerra. Mesmo se tudo desmoronar. Mesmo que eu tenha que criar sozinha. Vai nascer, e vai saber que foi feito de amor. Num mundo bagunçado, num momento errado, mas com o amor mais certo que eu já senti. De madrugada, tentei de novo. Ligação. Chamou cinco vezes. Na sexta, caiu. Tentei mais uma. Caixa postal. Liguei de novo, deu sinal, e alguém atendeu, mas não era ele. Era voz masculina, séria. Ligação on - Quem fala? - perguntei, já com a respiração travada. - Ele tá ocupado. Não pode falar. Desliga - e fim. Ligação off O desespero me tomou de vez. Levantei da cama, andava de um lado pro outro. Meu coração parecia que ia sair pela boca. Peguei o telefone da Bia e tentei de outro número. Nada. No escuro do quarto, deitei abraçada com o travesseiro. Fiquei acariciando a barriga como se já pudesse sentir o bebê me ouvindo. Murmurei baixinho: - Ele vai saber. Eu juro que ele vai saber... só aguenta firme aí fora, Felipe. Por favor... Fechei os olhos e deixei as lágrimas escorrerem em silêncio. Tinha tanto pra dizer, mas o mundo parece que resolveu me deixar no mudo. E mesmo assim... mesmo com tudo isso... eu não vou desistir de contar pra ele.
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