REBECA
O tempo passou. Não sei exatamente como. Só sei que os dias iam e voltavam, e eu seguia contando as semanas da gravidez no calendário da parede, feito riscando uma cela. Cada dia sem notícia, era um soco no estômago. Cada noite sem ligação, era um nó novo no peito. Mas mesmo assim, eu seguia. Por ele. Pelo bebê. Por mim.
Já era o segundo mês de gestação. Eu sentia meu corpo mudando. A barriga, que antes era só um inchaço discreto, agora começava a desenhar um volume sutil, delicado. Eu acariciava ela sempre que sentia medo – e isso acontecia o tempo inteiro. Só que agora, junto com o medo, existia também uma esperança que crescia ali dentro. Um amor novo, puro, que me fazia levantar todos os dias mesmo sem forças.
A guerra no morro parecia ter virado parte da rotina. Helicópteros sumiram do céu, e os tiros foram ficando mais raros. Mas ainda assim, nada dele. Nenhuma ligação, nenhuma mensagem. Eu não sabia se ele tava vivo, ferido, escondido ou... nem queria terminar esse pensamento.
Até que um dia, do nada, a rua ficou estranha. O clima mudou. Era como se todo mundo estivesse esperando algo – ou alguém.
Fui pra janela e vi gente descendo do morro, batendo palma, gritando, rindo. Vi fogos de artifício estourando lá do alto. Era como se o morro respirasse de novo depois de muito tempo. A vizinhança sussurrava o mesmo nome: Veneno voltou.
Meu coração travou. Minha respiração também. As pernas ficaram bambas, e eu precisei me sentar. Tentei não criar expectativa – já tinha feito isso antes e me machucado. Mas dessa vez... dessa vez parecia diferente.
A campainha tocou.
Fiquei congelada. Ninguém aqui tocava campainha. Ou gritava ou mandava mensagem. O som dela ecoou pela casa como um grito silencioso.
Levantei devagar, coração disparado. Quando abri a porta... era ele. Felipe.
Meu Veneno.
Ali. Vivo. Inteiro. Cansado. Machucado no rosto, com barba por fazer, o moletom sujo de barro e sangue. Mas vivo.
A gente se encarou por alguns segundos. Nenhum dos dois conseguiu dizer nada. Os olhos dele brilharam quando ele me olhou inteira, e os dele pararam... na minha barriga. Uma barriguinha discreta, mas visível.
Ele arregalou os olhos e deu um passo à frente, como se o chão tivesse sumido.
- Rebeca..?
Minha garganta travou. As lágrimas vieram sem controle.
- Eu... eu tentei te ligar, tentei te contar tantas vezes... mas nunca dava... você... você tava sempre no corre, na guerra, no inferno... e eu... - minha voz falhou.
Ele não respondeu com palavras. Só me abraçou. Forte. Como se me colasse de novo em pedaços.
Ficamos ali. Em silêncio. Só o som do coração dele batendo contra o meu. Só o calor daquele abraço que eu esperei por mais de trinta dias.
Depois de um tempo, ele soltou devagar, colocou a mão na minha barriga com cuidado, como se tivesse medo de quebrar.
- É... é meu? - ele perguntou, quase sem voz.
Eu ri, mesmo com os olhos marejados.
- Claro que é seu, i****a.
Ele riu também, baixinho. Depois se ajoelhou na minha frente, encostou o rosto na barriga, e ficou ali. Só ficou. Respiração acelerada, as mãos tremendo.
- Eu venci a guerra, Rebeca – ele sussurrou. - Mas nada disso vale nada se eu não tiver você. E agora... vocês dois.
Minhas pernas quase cederam.
Ele se levantou de novo e me olhou fundo nos olhos.
- Me perdoa por ter sumido. Eu lutei, morri e voltei por você. Te amo desde o primeiro dia que te vi naquela viela com a mochila nas costas e cara de quem não devia estar ali.
Eu sorri, chorando. Aquele choro que limpa, que lava.
- E eu te amo desde o primeiro beijo com gosto de cerveja quente e coração acelerado.
A gente se beijou. Um beijo longo, quente, desesperado e calmo ao mesmo tempo. Um beijo de quem voltou da guerra. Um beijo de quem sobreviveu. Um beijo de quem vai ser pai e mãe, mesmo sem saber como fazer isso ainda.
E ali, naquele beijo, eu soube: a guerra passou.
Agora a gente começa outra luta – a de construir uma vida juntos. E dessa, eu sei que a gente vai vencer.