Episode: Under the Black Ink
Seus passos faziam eco no corredor vazio e completamente escuro, pouquíssimas velas permitindo que enxergasse ao menos o caminho para a tão polêmica porta com o lenço vermelho amarrado na maçaneta.
Assim que a alcançou, teve que conter um suspiro de ansiedade.
Adentro do aposento, no compartimento da área da sala de estar, a mesa de centro estava cercada de velas aromáticas. Cheiro de ipês.
Louis piscou um pouco atordoado devido ao silêncio e avançou para a área principal do quarto em si, onde o dormitório abrigava a king size em dossel, cômodas e closet.
Estava vazio também.
E cheio de velas.... nos aparadores, entre as garrafas de whisky; nos cantos das paredes - longe das cortinas, pelo amor, não precisavam atear fogo naquilo -; sobre os criados mudos, cômodas e, principalmente, em volta do divã vermelho.
Velas de diferentes tamanhos. Cores (embora fossem vermelhas em sua maioria) e odores.
Uma mistura inebriante em que canela e lavanda se sobressaíam dependendo da região que você estivesse.
Tomlinson caminhou calmo e avaliativo pelo espaço, piscando lento para toda a ambientação calorosa e intensa que aquilo era, um pouco sufocante honestamente.
Até mesmo sobre a imensa cama havia uma bandeja com velas.
E, ainda com tantas delas, o aposento continuava escurecido, luxuoso e lascivo. Os detalhes em dourado cintilando quando refletidos pela luminosidade dos candelabros de ouro, você não poderia esquecer de que pertencia à corte ao estar em um lugar assim, onde a extravagância estava diluída no oxigênio.
- Sente-se na cadeira, Príncipe William. - sua voz cantarolada entrecortou a quietude, apesar da imagem de Harry não estar visível naquele cômodo.
Louis supôs, no entanto, que ele estava no closet, visto que o som hostil de sua fala originara-se daquela direção.
Observando ao redor Tomlinson notou uma cadeira posta no meio do nada, próximo da entrada. O que o espantou, na verdade, era que ao lado dela havia uma grande folha branca e um pote de tinta ao lado.
Soube que não haveria outra saída senão seguir suas ordens.
Com passos desconfortáveis Príncipe William finalmente se ajeitou no estofado, de frente para a cama e o divã, coçando os pulsos porque de repente uma agonia instaurara-se em seu interior, e Harry era um bom jogador por ter removido-o da pose austera para um príncipe visivelmente incomodado.
- Muito bem, darling. Estupendo. - sua voz debochada voltou a ricotear o ar.
- Saia logo do armário, vossa alteza. - Louis pediu perdendo sua paciência, aquele atrevido o tirava dos limites como nada nem ninguém.
Então a porta de madeira foi aberta em um baque seco.
- Eu já saí há muito tempo do armário, querido.
Foi a primeira frase de um Harry inacreditavelmente ousado surgindo em seu campo de visão.
De um Harry que vestia um robe. Sim, um robe branco de seda.
Um robe branco de seda que parecia ser fino e reluzente, com uma cauda longa ao ponto de arrastar-se no chão - igual a p***a de um vestido de noiva - enquanto Styles andava.
Os cachos - antes presos em um r**o ordinário - estavam soltos e mais volumosos do que nunca, concedendo-o uma aparência descabidamente selvagem porque aquilo era um absurdo.
Um absurdo.
Louis tem certeza que seus lábios estavam muito vermelhos pois ele provavelmente enterrara-os no gloss, e que Harry não vestia absolutamente nada sob aquele roupão.
Ninguém deveria supostamente aparecer em público seminu. A menos que você fosse prostituto... E não um príncipe. (Ou a menos que ambos estivessem desejando uma lua de mel, o que definitivamente não era o caso).
Talvez a felicidade estampada no rosto de Harry tenha vacilado uma pitada ao reparar que o olhar de Louis sobre si não era propriamente desejo, e sim espanto.
Ele vivia se sentindo diminuído diante a nítida rejeição do herdeiro de Riverland - o que em suma não deveria importar, mas importava por ferir seu orgulho.
Louis, aliás, estava surpreendentemente belo com aquele conjunto de camisa de manga comprida branca, com suspensórios prendendo de suas calças pretas sociais aos ombros - seguindo o código românico exigido para o Baile das Velas - tendo seu smoking pendurado na ponta da cadeira devido ao calor das velas.
O cabelo sedoso estava moldado em um topete perfeito à base de gel, e seus olhos - oh, aquelas lagoas azuis - pareciam mais profundas que o usual. Eram um convite para se afogar nelas.
Ele estava ali, sentado com uma postura tensa, uma perna dobrada sobre a outra e os braços descansando no colo. Louis jamais demonstrava o nervosismo, embora estivesse inspirando em descompasso e engolindo saliva mais do que o normal. Isso tudo porque simplesmente compreendia que estava nas mãos de Harry, impotente naquela situação.
Uma barco à deriva esperando que o vento o soprasse.
Talvez Styles quisesse naufraga-lo.
- Temo que as normas da decência não tenham falado tão alto quanto suas vontades primitivas, certo? - Harry sibilou, um sorriso perigoso sendo exibido à medida que caminhava saltitante no perímetro do cômodo, circundando a cadeira onde Louis estava acomodado. - Criado sob normas e normas como todos nós, quem diria que o impecável Louis William Tomlinson cometeria tal delito.
- Vá direto ao ponto, por fa-
- Em uma sociedade tão regrada qualquer precaução é pouca, eu sentia que havia algo acontecendo com você, milorde - Styles interrompeu-o, ignorando sua súplica. - Foi quando decidi investir nesse meu sexto sentido infalível, e chegar nestes... Exemplares.
Harry apanhou uma pilha de papéis de debaixo de sua cama, chacoalhando-as insolentemente de modo provocativo.
Suor frio se formou na palma da mão de Tomlinson.
- Eu finalmente descobri o que você tanto fazia com aquela quantidade de tinta preta excessiva. Aprenda, vossa alteza, essas paredes têm ouvido e você deveria agradecer por ter sido eu quem juntou os pontos e chegou a isso. - suspirou preguiçoso. - Encontrei escondido atrás da estante da biblioteca a evidência do que realmente acontece quando traz damas para seu aposento..
Harry virou as folhas para frente, revelando retratos de princesas esboçados com tinta preta em traços finos e minuciosos, delineando os corpos curvilíneos, completamente nus.
Cada página apresentava uma dama em uma nova pose, a maioria delas deitadas na cama de Louis com seus cabelos soltos e seus s***s fartos, até mesmo os pelos pubianos foram registrados nos desenhos.
- Você certamente sabe que é proibido retratar pessoas nuas. O que piora considerando que elas não são só moças da alta sociedade, como são princesas. E pior, você é um príncipe. - Harry proferiu encenando uma expressão de repreensão desdenhosa enquanto girava sozinho pelo quarto.
- Do que lhe chamariam? Pervertido, talvez? Príncipe com a moral arruinada, poderia ser preso por desrespeito ao pudor alheio com a simples comprovação de que estes esboços vos pertence. E o que se diria então das princesas que aqui foram expostas? Elas seriam açoitadas pelos pais, apedrejadas por concordarem com tal indecência.
Louis inspirou fundo, desarmado. Ele tinha de confessar que Harry estava certo. Ele tinha de arcar com as consequências, sejam quais fossem.
Sempre possuiu essa inclinação à arte, e descobriu no retrato íntimo uma maneira de se libertar um pouco do peso da coroa, de fazer algo que destoasse do 'politicamente correto'. Louis era jovem ainda, e parecia que qualquer pequena ação gerava penalidades inexoravelmente graves.
- Você venceu, vossa alteza. O que deseja de mim? Riquezas? Eu posso pagar pelo seu silêncio. - Tomlinson se viu dizendo, de repente se sentindo um infrator, fora das leis. Isso o entristecia. Seus olhos estavam profundamente perdidos, como piscinas de águas claras.
Harry negou veemente com a cabeça, suprimindo um sorrisinho petulante - que talvez indicasse ironia ou vitória. Ele se aproximou de Louis e o entregou calmamente suas folhas grafitadas.
(Coloquem a música do capítulo)*
Então retrocedeu os passos e se sentou quase deitado no divã, apoiando o cotovelo direito no encostamento do móvel, o robe escondendo parte de seu corpo, as pernas esticadas sobre o sofá.
A figura pecaminosa sendo engolida luxuosamente no veludo vermelho, enquanto seus olhos mantinham uma conexão intensa com as lagoas azuis.
Harry virou sua cabeça para o lado, na direção do menor, olhando por cima do ombro e apoiando seu queixo no mesmo, proferindo lenta e suavemente enquanto a manga de seu robe escorregava pelo seu antebraço, deixando a clavícula desnuda.
- Eu quero que você me desenhe como uma de suas garotas francesas.
Tomlinson piscou desconcertado, assentindo vagarosamente ainda avoado. Pensou que era uma brincadeira de m*l gosto, no entanto Harry proferiu aquilo com tanta suavidade e firmeza que ...
Okay.
Okay.
- O material está ao lado da cadeira. - Styles informou, sinalizando para a página branca e o pote de tinta repousados no chão.
Louis apanhou-os trêmulo, buscando retomar a soberania.
- Posso buscar o cavalete em meu quarto?
***
Duas horas transcorridas e eles ainda estavam ali.
Louis, sentado com a coluna ereta e o braço esquerdo se articulando meticulosamente - ele era canhoto, com a caneta preta em seus dedos se movendo habilidosamente pela folha, criando traços e traços, dando vida às formas reconhecíveis.
Ele ora ou outra desviava a atenção do trabalho e olhava por trás do cavalete de madeira - o qual buscara em seu horas atrás - para a figura imóvel de Harry Edward Styles.
O Príncipe de Malta estava apoiado no divã em uma pose sensual e insinuante, seus ombros expostos onde o robe de seda não alcançava, assim como suas pernas, nuas a partir dos joelhos de modo provocativo.
O tecido abraçava bem e delineava seu corpo voluptuoso, tão pálida quanto o tom de sua pele, dando um grande destaque aos seus lábios artificialmente rosados.
Oh, e havia Coralina também. Harry insistiu para deixar a bengala aparecer no retrato, tendo sua mão esquerda sustentada na cabeça da cascavel, o par de esmeraldas nada modesto se sobressaindo.
Ele mantinha a mesma feição excitante e intensa, seus grandes olhos verdes não abandonaram os de Tomlinson um segundo sequer - m*l piscavam, permanecia com o queixo erguido e a boca um pouco entreaberta. Seus cachos o caíam da melhor maneira.
Ele era a figuração da beleza.
Da imensuravelmente beleza carnal, evocando a lascívia tentação hedonística e pecaminosa.
A personificação do lobo em pele de cordeiro. Do d***o com auréolas e asas de anjo.
Ele era o príncipe desvergonhado, desvirtuado, petulante que com suas duas covinhas graciosas e um olhar quase ingênuo parecia representar a inocência.
A inocência em contato com uma iminente malícia mundana.
Haviam aberto os portais do céu, mas era no inferno que se festejava.
Harry era o convite perfeito.
E Louis queria expressar isso. Expressar tudo isso no retrato.
Com suas obras, procurava atribuir o máximo de expressividade encontrada no cenários. As princesas representavam geralmente a graciosa fragilidade jovial, traduzida em delicadeza e suavidade. E mesmo que Louis não pintasse com tintas coloridas, ele conseguia sombrear os traços e conferir ao desenho toda a manifestação desejada.
Em Harry, no entanto, encontrou um potencial incrível. Ele tinha muito a oferecer com sua postura superior e personalidade intragável.
Era uma batalha entre harmonia e exagero.
Sua aparência desafiadora poderia ganhar contrastes estupendos sobre um papel branco.
Príncipe William contornava agora suas ancas, mordendo o lábio em concentração pois estava próximo do final.
Traçar o olhar inebriante de Harry foi um verdadeiro desafio, havia tanto a ser transmitido que uma caneta de tinta preta não parecia bastar.
Ele era uma figura fascinante de ser representada, emanava lubricidade e poderio. Exalava nobreza e luxo.
Mordia os lábios continuamente para deixá-los mais inchados, informara ao artista que os queria bem carnudos - e fizera uma observação para seus pés, pois não gostava deles, e queria-os desenhados sem deformidade.
O jogo de luzes causado pela iluminação escassa e determinante das velas ao redor do divã fora decisivo para a produção dos sombreados, e de repente aquela reprodução artística aparentava dizer muito, transmitir muito, significar muito.
Era tanta atribuição em uma só imagem.
Era tanta desenvoltura, turbulência, despudor, libertinagem.
Era a quebra definitiva de Louis para a boa conduta, e sua irreverência com relação a dogmas e crenças oficialmente aceitos.
Não que ele fosse cometer outros delitos, mas a execução oficial do primeiro deles (e o reconhecimento de tal) já era uma enorme ruptura aos antigos preceitos "louisianos" de existência, em que elevar o tom de voz soava inaceitável e termos como "não sei' eram considerados porcos e preguiçosos.
Mas quem diria que este mesmo príncipe de cera e normas estaria desenhando outro príncipe seminu.
Não qualquer um, embora.
Príncipe Edward.
O arrogante herdeiro de Malta. Aquele que, estatizado ali, naquela pose, parecia honestamente irresistível, cheio de tons pecaminosos e razões do porquê ser odiado.
Do porquê ser intolerado.
Do porquê ser incompreendido.
E se havia alguma boa descrição para o resultado de sua tela, agora preenchida com linhas grossas, finas, escuras, clareadas.... Era "moderadamente lasciva, ilimitadamente provocante; odiável e amável; intensa, instável e radiante; fascinante; mas, sobretudo, incompreendida. Inescrutável"
De fato, o título que dera para seu trabalho estava escrito no canto esquerdo superior, com letras deitadas e corridas.
"Inescrutável".
- Está pronto. - anunciou ao Príncipe Edward, o qual imediatamente se pôs de pé, esticando seus membros dormentes e se aproximando finalmente do cavalete, genuinamente curioso para uma conclusão daquilo tudo.
E ao circular o corpo um pouco curvado e exausto de William, ele chegara instantaneamente ao seu veredito:
Ficara magnífico.
Louis havia absorvido cada detalhe de Harry e traduzido em tracejares minuciosos.
Nem se o orgulho de Styles fosse maior que este palácio ele seria capaz de negar a si mesmo ou verbalmente o quanto Louis era talentoso e transformara sua foto em uma imagem tão expressiva e marcante.
Ele quase se sentia vivo no desenho.
Talvez estivesse até mais vivo no desenho do que pessoalmente.
Era uma obra tão íntima e gloriosa, merecedora de reconhecimento, digna de ser enquadrada e pendurada na sala principal de seu próprio palácio (claro, isso se retratos seminus não fossem vistos com tanta indecência perante a sociedade).
Seu rosto magro, seu nariz afilado, seus olhos inebriantes e energéticos, suas clavículas desnudas, a forma que o robe moldava suas curvas corporais, o detalhe dos músculos de suas finas canelas, seus pés (melhorados), seus cabelos reproduzidos como cascatas indomáveis, seus lábios cheios entreabertos, sua fiel bengala, Carolina.
Absolutamente tudo gritava Harry Styles naquilo.
E Harry, sendo o narcisista que é, não poderia estar mais satisfeito - e até lisonjeado.
- Você faz uma bela arte. - Styles segredou em um elogio relutante, se sentindo patético por proferir um julgamento sóbrio a Louis, dando-lhe o braço a torcer e admitindo sua admiração pelo resultado.
- Arte não é o que faço, arte é o que vejo. - Tomlinson rebateu, virando o rosto para cima, encarando firmemente Harry. - Meu trabalho é só transcrever para o papel. Você foi um bom modelo, vossa alteza.
Príncipe Edward assentiu em concordância, um pouco atordoado pela conexão visual que os dois estabeleciam, nadando nas lagoas azuis imperceptivelmente.
- Posso guarda-la para mim? - indagou, apontando para o papel.
- Claro. - Louis aceitou, levantando-se da cadeira e apanhando a obra.
Styles franziu levemente o cenho naquele segundo em que estavam um de frente para o outro, Louis logo esticando o papel para si.
Apanhou-o com cuidado, quase idolatrando o retrato.
Tomlinson se abaixou novamente dessa vez para pegar as suas próprias obras com imagens das princesas, segurando-as embaixo do braço.
- Eu estou impressionado, honestamente. - Harry proferiu, e não havia o típico sarcasmo em sua voz, soava genuíno e sincero.
- Espero que não me persiga mais para ameaças.
Styles não foi capaz de soltar um risinho.
Um risinho divertido.
- Temo avisa-lo que sou eloquente, muito persuasivo, quando desejo algo a meu favor, Príncipe William.
- Eu já percebi, Príncipe Edward.
Ambos trocaram uma expressão de cumplicidade cordial.
Que não significava nem um pouco o fim daquela batalha silenciosa por orgulho e soberania.
Mas que era um ponto final ao menos para aquela noite de baile a qual eles passaram o tempo inteiro no aposento de Harry.
Louis estava prestes a se virar e ir embora quando os longos dedos de Styles prenderam-o pelo cotovelo.
- Espere. - Harry proferiu, ganhando novamente a atenção do menor. - Poderia me explicar o porquê de ter nomeado a obra como 'Inescrutável'? - pediu, visivelmente curioso, enquanto observava todos os detalhes de sua representação.
- Pelo significado.
- E o que significa?
- Impossível de ser escutado, investigado, compreendido; impenetrável, incompreensível, insondável. - recitou sem hesitar.
- Está querendo dizer alguma coisa?! - Harry questionou, próximo de entrar na defensiva enquanto arqueava uma das sobrancelhas.
- Um artista sempre tenta dizer muito.
- E isso é sobre mim ou o meu desenho?
- Pensei que fossem a mesma coisa. - Tomlinson deu de ombros, virando-se em seu eixo e seguindo para a saída do aposento.
Assim que estava no limite do compartimento da sala de estar, na porta que levaria ao corredor dos quartos do palácio, acabou trombando com Zayn Malik, o qual olhou-o surpreso porque - wow - Louis William Tomlinson estava sendo flagrado deixando o quarto de Harry.
- Príncipe William?
Louis apenas apertou protetoramente sua pilha de desenhos embaixo do braço agradecendo pelo escuro que estava o lugar.
- Boa noite, Príncipe Malik. - se limitou a reverberar educadamente antes de seguir às pressas para seu quarto.