Luca Mancini
A noite havia caído sobre a mansão com a mesma intensidade com que minha mente girava desde a discussão no escritório. As palavras do meu pai ainda ardiam como ácido sob a pele há dias. “Se vocês não conseguem conquistar uma mulher, não merecem a máfia.” Ele sabia exatamente onde mirar... e acertava.
Sofia andava diferente, e não para menos, ela já sabe que é a chave para o poder, sabe que ela é quem determina quem será o herdeiro de tudo isso.
Ela evitava olhares longos, conversas demoradas. Sofia havia mudado. Talvez tivesse finalmente percebido que é ela quem detém o poder. E, por algum motivo, isso me incomodava mais do que deveria.
Subi até meu quarto, larguei o paletó sobre a poltrona e me aproximei da janela. A luz do terraço estava acesa. A luz do terraço que ninguém mais usava exceto eu.
Eu sabia que ela estaria lá, foi por isso que mostrei. Era onde eu me refugiava quando não queria que Pietro me encontrasse. Onde minha mãe me contava histórias antes de sumir de vez da minha vida. Aquele canto escondido do mundo sempre me trouxe uma falsa sensação de paz.
Respirei fundo e saí.
Mas não fui de mãos vazias. Antes, passei na cozinha, onde peguei duas taças, um pequeno cesto com frutas e uma garrafa de vinho branco o preferido dela. Ainda pedi discretamente para um dos empregados ir até a estufa da casa e me trazer algumas flores. Lavandas. As favoritas de Sofia. Eu lembrava. Era impossível esquecer.
Quando passei pelo corredor que dava acesso ao terraço, o vento soprou contra mim trazendo um cheiro agradável. E lá estava ela.
Sentada sobre o parapeito, os joelhos contra o peito, o olhar perdido em alguma estrela que talvez já tivesse morrido há anos.
— Achei que você estivesse dormindo — comentei, tentando suavizar a presença.
Ela virou o rosto devagar. Havia algo no olhar dela que me cortou. Uma tristeza contida, um cansaço visível.
— Não consegui — respondeu apenas.
Aproximei-me com cuidado, como quem tenta não espantar um animal ferido. Coloquei as coisas sobre a mesinha de madeira e lhe entreguei o pequeno ramalhete.
— Lavandas — sussurrei. — Como aquelas que você disse que sua mãe plantava na casa antiga. Lembra?
Sofia pegou as flores como se fossem relíquias. Aspirou o aroma por um segundo, os olhos marejando sem cair.
— Lembro, sim. Obrigada.
— Eu trouxe vinho e frutas também. Achei que talvez quisesse conversar. Ou pelo menos fingir que o mundo lá embaixo não existe por uma hora.
Ela assentiu. Sentou-se mais ereta e se acomodou em uma das cadeiras, sem dizer mais nada. Servi o vinho, distribuí algumas uvas entre nós dois e sentei ao lado dela.
O silêncio não era incômodo. Não entre nós. Mas eu precisava entender o que a estava machucando. E, se não pudesse curar... que pelo menos doesse menos com minha presença.
— Você anda distante — comentei, encarando o céu escuro. — Até mais do que o normal para alguém que vive cercada de inimigos.
Ela sorriu de lado. Um sorriso breve, irônico.
— E você é o quê? Amigo?
Pensei antes de responder.
— Eu não sei o que sou pra você. Mas sei que... quando você está m*l, eu percebo. E isso já deve significar alguma coisa.
— Você anda distante — comentei, encarando o céu escuro. — Até mais do que o normal para alguém que vive cercada de inimigos.
Ela soltou um riso breve, um som sem alegria, apenas ironia contida.
— E você é o quê? Amigo?
Demorei um segundo para responder. Não porque não soubesse o que queria dizer… mas porque, com ela, tudo parecia mais complicado.
— Eu não sei o que sou pra você — murmurei. — Mas sei que… quando você está m*l, eu percebo. E isso já deve significar alguma coisa.
Nossos olhares se encontraram. Por um instante, o mundo pareceu suspenso entre aquele silêncio e o som distante do vento. Os olhos dela eram uma tempestade prestes a desabar, e os meus… estavam prontos para se afogar.
Engoli em seco e me aproximei um pouco.
Ela não recuou.
Ergui uma das mãos e toquei seu rosto com a ponta dos dedos, lentamente, como se pedisse permissão. Sofia fechou os olhos, como quem se rende, e eu soube que era ali. Aquele momento era nosso. E eu não conseguiria segurar mais.
Inclinei-me. O toque dos nossos lábios foi leve no início, quase uma dúvida em forma de beijo. Mas o segundo... o segundo veio como um rompante. Um desejo contido por tempo demais.
Ela correspondeu.
Com fome, com necessidade, com algo entre raiva e entrega. Minhas mãos se afundaram nos cabelos dela, e as dela se fecharam contra minha camisa, puxando-me para mais perto, como se quisesse me sentir inteiro, como se quisesse apagar a dor que a consumia.
Era diferente de tudo.
Aquilo era... nós.
Eu a sentia derreter nos meus braços, as mãos trêmulas deslizando pelos meus ombros, a respiração presa entre um beijo e outro, os lábios dela entreabertos soltando um gemido que quase me destruiu.
— Luca... — ela sussurrou contra minha boca, num fio de voz quebrado.
Mas, de repente, ela parou.
Como se tivesse acordado de um sonho. Como se algo gritasse dentro dela.
Recuou de súbito, os olhos arregalados.
— Não... não podemos. Meu Deus...
— Sofia? — tentei alcançá-la, confuso. — O que foi?
— E se... — ela começou, mas a voz falhou. — E se você for meu irmão de verdade?
O impacto foi como um tapa.
— O quê?
— Eu li uma carta, Luca. Da minha mãe. Ela falava do Giorgio. Falava de uma filha. E agora eu... eu não sei. Não sei de nada. Não sei quem sou, nem o que sou pra vocês.
Ela tremia. De medo, de confusão, de tudo ao mesmo tempo. E eu... fiquei paralisado.
Ela passou a mão pelos lábios, como se quisesse apagar o beijo. Como se quisesse apagar nós.
Ela tremia. De medo, de confusão, de tudo ao mesmo tempo.
E eu… fiquei paralisado.
— Isso é ridículo. — As palavras escaparam da minha boca com uma mistura de incredulidade e fúria. — Você não é minha irmã, Sofia. Isso é uma suposição, uma interpretação de uma carta antiga, de uma mulher que... que estava ferida, sozinha. Você não pode levar isso como verdade.
— Me desculpa — sussurrou. — Isso foi um erro. Eu... preciso ir.
Dei um passo à frente, não deixei.
— Não. Você não vai fugir assim. — A voz saiu mais baixa, mas carregada. — Você sente o que eu sinto. Eu vi nos seus olhos, Sofia. Eu senti na sua boca. Isso não foi um erro.
— E se for? — Ela se virou com força. — E se for o pior de todos?
— Não é. — Rebati com firmeza. — Não somos irmãos, e isso aqui... isso é real. Isso aqui é mais verdadeiro do que tudo que já aconteceu naquela casa.
— Real? — Ela riu, um som amargo. — Você me disse que eu era o caminho para o trono. Vocês brigam por mim como se eu fosse um prêmio. Como posso acreditar que agora é diferente?
Engoli em seco. O que dizer? Como provar que, em algum ponto no meio da mentira, eu tinha me perdido nela?
— Porque você não é — murmurei. — Você é... o que ninguém esperava. Você é a única coisa que me faz duvidar do que me ensinaram. Isso não tem nada a ver com o a máfia. Não mais.
Ela abaixou os olhos, mas seus punhos estavam cerrados.
— Eu só queria que nada disso tivesse acontecido. Queria não ter beijado você. Queria não estar sentindo isso.
— Então olha nos meus olhos e diz que você não quer mais — pedi, baixo, rouco. — Diz que não sentiu nada quando eu te beijei.
Ela abriu a boca. Mas nenhuma palavra saiu.
O silêncio dela foi tudo o que eu precisava... e tudo o que me destruiu.
— Boa noite, Luca — sussurrou por fim, e me deixou sozinho no terraço.
Fiquei ali, com os dedos ainda queimando do toque dela, com o gosto da boca dela nos meus, e com o coração sangrando uma verdade simples e brutal:
Eu não sabia se podia tê-la.
Mas já era tarde demais para não querer.
Teria que tirar isso a limpo.