Pietro Mancini
Quando Luca entrou no meu quarto sem bater, com o rosto tenso e as mãos fechadas, eu soube que vinha merda.
Não era o Luca debochado de sempre. Aquele que jogava charme como quem respira e fazia piadas até nos piores momentos. O homem à minha frente parecia mais velho. Mais sério. E isso, vindo dele, era um alerta vermelho.
— A gente precisa conversar.
Fechei o livro com força, o estalo seco ecoando no quarto silencioso. Inclinei o corpo no encosto da cadeira, já esperando o pior.
— E não podia esperar?
— É sobre a Sofia.
Só o nome já foi o suficiente para o sangue começar a ferver nas minhas veias. O nome dela me desestabilizava mais do que eu gostaria de admitir. Era como um gatilho. Como se toda a raiva, o desejo, a frustração e aquela maldita culpa se acendessem ao mesmo tempo. Sentei-me direito, os olhos firmes nos dele. Luca estava sério. Sem nenhum vestígio de sarcasmo no rosto. Isso nunca era bom sinal.
— Fala — exigi.
Ele hesitou. Passou a mão pelos cabelos, como se aquilo o estivesse corroendo por dentro.
— Ela acha que pode ser nossa irmã.
Por um instante, achei que não tinha ouvido direito. O silêncio me engoliu. Cada palavra dele martelava como um tiro m*l dado.
— O quê?
— Ela leu uma carta da mãe dela. Fala de Giorgio, fala de uma filha... ela está confusa, Pietro. E com razão.
Me levantei num pulo, a cadeira arrastando no chão com um rangido amargo. Um peso afundou no meu estômago, como se algo tivesse virado do avesso lá dentro. Comecei a andar de um lado para o outro, tentando conter a pressão crescente no peito.
— Isso é absurdo. — Minhas palavras saíram afiadas. — Giorgio nunca disse nada. E Clara… Clara morreu não pode desfazer esse m*l entendido.
Mas era mentira. Talvez sempre tivesse sido.
— E se não for? — Luca rebateu. — E se estamos lutando por algo que nunca poderíamos ter?
A pergunta dele foi como uma facada seca.
Minha mente voou. Imagens dela surgiram como flashs doentios. A forma como ela me olhava, mesmo com raiva. A maneira como tremia quando eu a tocava. O gosto da boca dela. O som do nome que ela gemeu quando perdeu o controle.
O que eu fiz com ela...
— A gente precisa ter certeza — Luca disse, a voz mais calma agora, mas com a mesma urgência cravada nas palavras. — Precisamos de um exame. E precisamos convencer ela a ir com a gente à clínica. Juntos.
Engoli em seco. O nó na garganta era real. A dor no peito, também.
— E se for verdade? — perguntei, sem encará-lo. Mais para mim do que para ele. — E se ela for nossa irmã?
A simples ideia me fazia querer destruir tudo. Cada lembrança. Cada toque. Cada suspiro que saiu da boca dela por minha causa. Porque eu sabia o que tinha sentido. E sabia o que ainda sentia. E se aquilo fosse proibido... se fosse doentio...
— Então, vamos descobrir — Luca disse, finalmente. — E depois lidamos com o inferno que vier.
Inferno. Sim.
Porque nada menos do que isso nos esperava.
Fiquei em silêncio por longos segundos. O ar parecia mais pesado. A luz que entrava pela janela parecia mais fria. A voz da consciência, mais c***l.
Eu não era inocente. Nunca fui. Mas aquilo... aquilo era algo que podia me destruir por dentro.
— Amanhã — decidi, finalmente, sem conseguir olhar nos olhos dele. — Amanhã falamos com ela.
Mas a verdade é que... amanhã parecia longe demais.
Longe o bastante para enlouquecer.
Longe o bastante para perder o que eu ainda não podia chamar de meu.
...
A faculdade era uma merda de lugar.
A liberdade escorria pelos corredores. Risadas soltas, conversas que pareciam não carregar o peso de nada, nem da consciência. Música alta nos alto-falantes, passos apressados, olhares ansiosos. Eles viviam como se o mundo estivesse inteiro à disposição. E eu… eu só queria que tudo aquilo explodisse.
Mas nada, absolutamente nada, se comparava ao que senti quando a vi.
Ela estava no centro do ginásio. O cabelo preso em um r**o de cavalo solto, os fios escapando de propósito para emoldurar o rosto. Short justo. Camiseta presa na cintura, marcando as curvas que, por direito, eram minhas. Dançava com um tipo de confiança que me tirava do sério.
Ela era luz. E eu... eu era a p***a da sombra que ameaçava tudo à sua volta.
O ar se tornou irrespirável quando notei o cara ao lado dela.
Alto. Moreno. Corpo de atleta. Braços largos, sorriso fácil demais. Um daqueles bastardos uniformizados do time de rúgbi, que se acham os donos do mundo só porque conseguem correr e derrubar os outros num campo de grama. Ele disse algo. E ela riu.
Ela riu.
Aquela risada que deveria ser minha.
E o pior é que ela estava linda. Ela estava viva. Tão viva que doía olhar. Vi os olhos dele deslizarem pelo corpo dela com uma lentidão que me deu náuseas. Os colegas ao redor murmuravam. Comentavam. Um até assobiou quando ela terminou a coreografia. Aplaudiram.
Cada som era como um chicote estalando na minha pele.
Não importava se éramos irmãos de criação. Se existia um passado confuso entre nós. Se havia um milhão de malditos obstáculos. Ela era minha.
Minha.
Eles não sabiam disso ainda. Mas iam aprender. Um por um.
Senti o cheiro do Luca antes mesmo de ouvir a voz dele.
— Você está prestes a matar alguém, não está?
— Sai daqui. — Minha voz saiu baixa, mas cortante.
— Pietro...
— Eu disse. Sai. Daqui.
Luca deu dois passos para trás, erguendo as mãos como quem lida com um animal selvagem. Mas ainda teve o desplante de abrir a boca antes de sair:
— Você precisa de controle. Precisa de foco.
— Preciso quebrar os dentes de alguém — sussurrei, mais para mim do que para ele.
...
Esperei. O sol já começava a se esconder quando o desgraçado saiu pelos fundos do prédio, mochila nas costas, fones de ouvido nos ouvidos. Achando que o mundo era seguro. Achando que podia tocar o que era meu.
Segui com calma. Não havia câmeras ali. Um beco lateral, sujo e silencioso. Os deuses tinham me dado o lugar perfeito.
— Ei — chamei.
Ele virou com a sobrancelha erguida, puxando um dos fones.
— Oi? O que quer cara?
O primeiro soco foi seco, direto no maxilar. Rápido o bastante para que ele nem entendesse de onde veio, mas dei tempo o bastante para que ele pudesse revidar, queria que ele lutasse.
O segundo foi no estômago, dobrando-o como uma folha de papel. A mochila caiu. Ele tentou reagir, mas já estava no chão quando meu joelho acertou as costelas dele com toda minha força.
Ele tentou falar. Eu não deixei.
Golpe após golpe. Cada soco era a lembrança do sorriso dela. Da gargalhada. Do olhar orgulhoso quando a girava no centro da quadra.
Ela não podia sorrir daquele jeito pra outro homem.
Ela não podia sorrir daquele jeito pra ninguém.
Minha respiração era um rugido. Meus punhos, armas. Meus pensamentos... ruídos e caos. A boca dele sangrava, o olho começava a inchar, o nariz parecia fraturado. Mas ele ainda respirava. Ainda estava vivo.
Ajoelhei ao lado dele. Meus dedos escorriam sangue. O dele. E a adrenalina ainda dançava no meu peito.
— Você vai viver. — murmurei. — Mas vai lembrar disso. Vai avisar aos seus amigos. Ninguém toca em Sofia. Ninguém olha pra ela. Ninguém respira o mesmo ar que ela.
Ele gemeu algo que não me importei em entender.
— Se alguém ousar... — continuei, quase entre dentes — eu volto. E da próxima vez, não deixo nenhum osso inteiro.
Levantei com um rangido nos joelhos. O céu estava mais escuro. E eu... mais vazio.
Não era só ciúmes. Era outra coisa. Era um buraco n***o crescendo dentro de mim. Uma loucura silenciosa.
Ela não era minha. Talvez nunca tivesse sido.
Mas eu estava disposto a destruir qualquer um que tentasse ser mais do que eu para ela.
Mesmo que isso me destruísse também.