Sofia Valente
A manhã estava clara demais para o caos na minha cabeça.
Desci para o café tentando parecer inteira. Os olhos ainda ardiam, não por choro, mas por noites demais maldormidas, sonhos demais despedaçados. A mesa já estava posta. Frutas arrumadas como joias, pães fumegando sob as cúpulas de prata. Mas o cheiro não me dizia nada.
Giorgio lia o jornal, como sempre. A gravata impecável, o rosto sério, impenetrável como mármore. Luca devorava um croissant com desleixo e Pietro não estava ali. Melhor assim.
— Posso usar o motorista hoje? — perguntei, cortando o silêncio. — Preciso resolver uma coisa para a faculdade no centro.
Giorgio ergueu os olhos por cima da borda do jornal. Aqueles olhos cinzentos sempre pareciam ver mais do que eu queria mostrar.
— Claro. Qualquer coisa que precise, apenas avise.
Luca arqueou uma sobrancelha com desconfiança, mas não disse nada. Apenas limpou os dedos no guardanapo de linho.
Antes que eu pudesse agradecer, ouvi a cadeira de madeira deslizar com o atrito do piso. Pietro apareceu. Terno preto, gravata solta, e aquele olhar que dizia mais do que qualquer palavra.
— Eu levo você. — Afirmou. — Tenho que resolver algumas coisas para resolver fora. Te dou uma carona.
Virei o rosto, fingindo surpresa. A tensão entre nós ainda estava crua demais desde a última discussão. Mas ele falava com calma. Contido. Como se quisesse remediar sem se desculpar.
— Não precisa, posso ir com o motorista.
— Vai ser mais rápido comigo.
— Pietro te leva. Se ele já vai sair é mais pratico e o motorista fica disponível para alguma eventualidade.
...
O carro cortava as ruas de Turim com precisão. Pietro dirigia com uma mão no volante e os olhos atentos à estrada. Eu mantinha o olhar fixo pela janela, vendo a cidade passar em borrões de prédios antigos e placas.
Não falamos. Não houve música. Até as respirações eram controladas.
— Faculdade ou cartório primeiro? — ele perguntou, rompendo o silêncio.
Meu coração deu um pulo.
— Cartório — respondi rápido demais. — É só pegar uma segunda via da certidão de nascimento, a universidade está exigindo.
Meio verdade. Meio mentira. Como tudo o que me cercava ultimamente.
O prédio era antigo, mas bem conservado. Um brasão da cidade enfeitava a entrada, ladeado por duas bandeiras e um jardim malcuidado. Pietro estacionou e desligou o carro sem dizer nada. Esperei ele abrir a porta para mim, por educação ou por controle, nunca sabia distinguir.
— Vai querer que eu suba?
— Pode esperar aqui. Não deve demorar.
Ele assentiu. Mas os olhos dele me seguiram até o saguão como se soubessem que eu estava mentindo.
Subi os dois andares de escada de mármore com os joelhos fracos. O coração batia alto, como se me lembrasse de que havia risco ali. Não era só uma certidão. Era a chance de ter um nome. Um dado. Uma pista real.
A atendente me recebeu com um sorriso burocrático. Expliquei que precisava de uma segunda via da certidão de nascimento. Dei o nome da minha mãe, Clara Valente, e o meu. Ela digitou algumas coisas no sistema, franziu o cenho, e depois se levantou.
— Só um minuto. Vou buscar o documento no arquivo físico. Ele é antigo.
Esperei. Cada segundo era uma tortura disfarçada de formalidade. O relógio da parede marcava 10h27 quando ela voltou com uma pasta fina e uma expressão neutra.
O ambiente do cartório era estéril e monótono, com móveis de décadas atrás e o aroma vago de papel antigo. Tudo ali parecia feito para conter emoções, abafar urgências. Mas dentro de mim, nada estava contido.
A mulher do balcão me atendeu com a paciência de quem já havia repetido o mesmo procedimento cem vezes só naquela manhã.
— Nome completo, por favor? — ela perguntou.
— Na verdade, eu... — respirei fundo. — Estou aqui por outra pessoa. Minha irmã. Ela perdeu a certidão de nascimento e está impossibilitada de vir hoje.
— Entendo. — Ela digitava algo com lentidão. — Estou vendo aqui... Bianca Moretti, correto?
Engoli seco. Era aquele o nome da minha irmã...
— Isso, Bianca Moretti.
A mulher franziu o cenho e voltou ao teclado.
— Documentos dela?
— Ela não pôde enviar. Mas nos meus você pode ver que temos a mesma mãe, tenho como comprovar que sou irmã dela. — Tirei a identidade da bolsa, coloquei no balcão com o melhor sorriso que consegui fingir.
A atendente voltou com uma expressão neutra, segurando uma pequena pasta.
— Encontrei o registro. Mas, infelizmente, não posso entregar cópia sem autorização legal da titular ou de um responsável legal.
Forcei um sorriso leve, tentando parecer convincente.
— Eu entendo. É que... minha irmã perdeu os documentos, e como ela está doente e sem poder sair de casa, ela me pediu para buscar. Só precisamos da certidão de nascimento. Prometo que não vou levar, só quero olhar, verificar uma informação.
A mulher hesitou por um instante. Olhou para os lados, depois de volta para mim. Os segundos pareceram se estender em horas até que ela finalmente parou. Leu a tela por alguns instantes.
— Bianca Moretti, nascida em Turim, filha de Clara Moretti — disse, confirmando os dados. — O nome do pai consta como ausente.
Meu coração disparou.
— É essa. Pode me mostrar?
Ela virou o monitor levemente, apenas o suficiente para que eu lesse com os próprios olhos.
Nome da criança: Bianca Moretti.
Mãe: Clara Moretti Valente
Pai: Não declarado.
— Posso tirar uma foto? — pedi, quase sussurrando.
— Senhora, isso não é permitido.
Mas eu já estava segurando o celular.
— É só um instante. Por favor. É para ela verificar uma informação.
A atendente me encarou com olhos duros por mais um segundo, então fez algo inesperado: suspirou e se afastou do balcão, virando de costas sob o pretexto de organizar papéis.
Registrei a imagem com rapidez. Salvei, fechei a câmera, respirei.
— Obrigada. Sério. Isso... isso significa muito.
— Espero que encontre o que está procurando — disse ela, ainda de costas.
Saí do cartório com os dedos trêmulos, o celular apertado na palma da mão como se carregasse uma bomba-relógio. Agora eu tinha um nome. Um registro.
E, pela primeira vez... eu tinha algo real.
Bianca Moretti.
Minha irmã.
A pergunta agora era: onde ela estava?
E... será que ainda estava viva?
Do lado de fora, Pietro encostava no carro com os braços cruzados, a expressão fechada, o olhar fixo no céu como se ele pudesse lhe devolver o controle que há dias parecia escapar pelos dedos.
Aproximar-me dele foi quase como pisar num campo minado. Eu ainda estava com o coração disparado e a mente fervendo.
— Conseguiu o que queria? — ele perguntou, sem me olhar.
A pergunta veio seca, sem rodeios. Típica de Pietro.
— Sim — respondi, tentando parecer neutra. — Era só uma segunda via.
Ele assentiu com a cabeça, ainda sem desviar os olhos do horizonte. Só depois de alguns segundos é que se moveu, abriu a porta e entrou no carro. Fiz o mesmo, mas senti o peso do olhar dele cair sobre mim antes mesmo que o motor roncasse.
— Você está pálida — disse.
Fitei a frente, mantendo a respiração estável.
— É só o calor — menti.
Mas não era. Era o frio. O frio da constatação. O frio de ter uma irmã. Uma que minha mãe havia escondido com tanto zelo que sequer ousou escrever seu nome em um diário.
Pietro manteve uma das mãos no volante, mas a outra tamborilava com impaciência no apoio de braço.
— Você ficou muito tempo lá dentro — comentou.
— O cartório é lento. Você sabe como essas coisas funcionam.
— Sofia...
Seu tom agora era mais baixo, mas mais incisivo. Não era uma provocação. Era um aviso disfarçado de preocupação.
— Você não está bem. E está mentindo pra mim.
Virei o rosto devagar. Os olhos dele estavam nos meus. Um contraste entre o gelo e o fogo. Pietro sempre foi uma colisão entre extremos. Racional até demais. Mas ali, naquele instante, havia algo mais em seu olhar. Algo que eu não sabia se queria ver.
— Eu não estou mentindo — respondi. — Só não quero falar sobre isso agora.
— É algo sobre o Giovanni?
Bufei, cruzando os braços.
— Não é sempre sobre ele, Pietro.
— Com você, tudo tem sido — rebateu, ríspido. — Desde que aquele merda apareceu, você não é mais a mesma.
— Talvez eu só esteja cansada de ser o brinquedo de vocês dois — disparei. — Talvez, por um segundo, eu tenha achado que poderia ter algo meu.
Ele apertou o volante, os músculos do braço retesando.
— Você acha que o Giovanni é seu?
— Eu não acho nada — sussurrei. — Porque até agora, nada nunca foi meu. Nem meu passado. Nem minha história. Nem as escolhas.
O silêncio entre nós se estendeu por alguns segundos, grosso, espesso, sufocante.
— Pietro… — voltei a falar, mais baixa. — Se... se você soubesse de algo que pode mudar tudo, mas que ainda não tem certeza, você contaria?
Ele franziu o cenho, estudando meu rosto como se pudesse decifrar tudo o que eu não dizia.
— Depende.
— De quê?
— De quem eu poderia machucar com isso.
A resposta ficou presa no ar. Nós dois sabíamos que ela doía.
A verdade sobre a minha mãe já estava ali, clara como o sol do meio-dia. Ela teve outra filha. Uma que escondeu do mundo, de mim, de tudo.
Será que Giorgio é pai de nós duas? Será que Bianca é filha dele?
Se fosse... então eu e Pietro...
Afastei o pensamento antes que ele me engolisse por completo.
Ele me olhava ainda. Os olhos sérios, as sobrancelhas unidas.
— Tem alguma coisa que eu precise saber, Sofia?
— Não — menti de novo.
O restante do caminho até a faculdade foi em silêncio, exceto pelo som do motor e pelas batidas descompassadas do meu coração.
Eu segurava o celular como quem segura uma granada.
E sabia que em breve... tudo iria explodir.