Isabela Vescari
Sofia sempre teve um ar misterioso. Até nos dias de sol. Era como se guardasse tempestades dentro do peito, mesmo quando sorria. E hoje… hoje tinha algo ainda mais estranho nela. Um cansaço no olhar. Uma tensão presa nos ombros.
— Você vai me contar o que está acontecendo ou pretende me deixar implorar? — perguntei, ajeitando a alça da bolsa no ombro enquanto andávamos pelo pátio da faculdade.
— Está tudo bem — respondeu, sem me olhar.
Mentira.
Mas eu já tinha aprendido que a Sofia só falava quando estava pronta. Nunca sob pressão. Então, respirei fundo e deixei o assunto morrer por ora.
Na saída, ela me surpreendeu:
— Quer ir lá em casa? Podemos ficar um tempo mais juntas. Nunca levei ninguém lá. Pietro e Luca não estão lá.
Os nome me eram familiares. Eram os “irmãos” ou, pelo menos, era assim que ela havia me descrito antes. Só que Sofia nunca falava sobre a família com leveza. Sempre com um certo cuidado nas palavras. Como se tivesse medo de revelar demais.
Mas claro que aceitei. Eu era curiosa. E… Pietro era um nome bonito.
…
A mansão parecia saída de um filme. Colunas imponentes, janelas altas, jardins perfeitamente podados. Tudo tão elegante que me senti m*l por estar com a maquiagem borrada e os cabelos desobedientes.
Assim que entramos, ele apareceu.
Pietro.
E o mundo parou por um segundo.
— Droga… pensei que não estariam aqui. — Sofia sussurrou. — Pietro é insuportável.
Ele era alto, moreno, olhar tempestuoso. Um homem que parecia ter sido esculpido pela fúria dos deuses. Tinha a expressão de quem carrega o peso do mundo nas costas e não se permite descansar. O tipo de beleza que incomoda. Porque não é só estética, é presença.
— Pietro — Sofia disse, com um tom que me pareceu mais… tenso que o necessário. — Essa é minha amiga, Isabela Vescari. Estuda comigo desde o colégio.
Ele assentiu com um movimento mínimo, mas os olhos pousaram nos meus com uma atenção que me fez perder o fôlego por um instante.
— Prazer — disse, voz grave, ríspida. E então olhou de volta pra Sofia. — Você demorou.
— Tive coisas pra resolver.
— O prazer é meu — falei, tentando manter o tom leve. — Finalmente conhecendo o famoso irmão da Sofia.
Foi aí que eu senti.
O clima.
A troca de olhares.
A rigidez do corpo dela. O modo como ele a observava. Como se guardasse segredos no peito que ninguém tinha permissão para tocar.
E então ela respondeu:
— Ele não é meu irmão. — Sofia disse com a voz seca.
O olhar de Pietro continuou em mim por mais um segundo antes de ele se afastar pelo corredor, sem dizer mais nada.
Fiquei parada, tentando processar.
— Sofia…
— É complicado — ela respondeu, já tentando mudar de assunto. — Vamos para o jardim. Trouxeram bolos e café.
Mas algo me dizia que não era só complicado. Era profundo. Escuro. E perigoso.
Enquanto atravessávamos o corredor, eu ainda sentia os olhos dele. Como se Pietro Mancini marcasse presença mesmo quando já não estava ali. E, de algum modo, a ideia de Sofia e ele não serem irmãos… me deixou com um frio na espinha.
Porque algo ali não estava certo.
O jardim da mansão era absurdamente lindo. Árvores milimetricamente podadas, caminhos de pedra que pareciam ter saído de uma pintura e o aroma doce das roseiras preenchendo o ar. Mas Sofia não parecia notar nada disso. Estava sentada no banco de pedra, o corpo curvado para frente, os dedos entrelaçados como se segurassem algo que prestes a escorregar.
Sentei ao lado dela, tentando não parecer invasiva. Eu já conhecia aquele silêncio. Era o tipo que grita por dentro.
— Você está bem? — perguntei, mesmo sabendo que a resposta seria uma mentira.
Ela demorou a responder. Quando falou, a voz veio baixa, quase perdida.
— Já estive melhor.
Esperei. Às vezes, era só isso que a gente precisava fazer por alguém: estar ali.
— Achei que uma mansão como essa significaria segurança, respostas, sabe? Mas tudo aqui parece construído em cima de segredos.
— Você quer conversar sobre isso? — incentivei, virando um pouco o corpo pra ela.
Sofia hesitou, mordeu o lábio e então soltou de uma vez, como se precisasse tirar aquilo do peito.
— Minha mãe teve outra filha. Antes de mim.
Fiquei surpresa, mas me mantive calma. Ela precisava de acolhimento, não de choque.
— Você descobriu isso agora?
— Recentemente. As cartas, depois o diário… ela escreveu que teve que abrir mão dessa filha. Que não conseguia nem escrever o nome dela porque doía demais.
— E você sabe quem é?
Ela balançou a cabeça.
— Não. Não faço ideia. Só sei que existe. Que em algum lugar, talvez… essa irmã esteja viva.
Houve uma pausa. O canto do jardim onde estávamos era silencioso, rodeado por arbustos altos. Uma espécie de redoma natural.
— E o pai dela? — perguntei, com cuidado.
Sofia hesitou mais uma vez.
— Eu não sei. Parte de mim teme que seja o Giorgio. E isso muda tudo, Isa. Porque… se ele é o pai da minha irmã, talvez também seja o meu. E isso… significaria que tudo que tenho sentido por aqui é… errado.
A dor nos olhos dela era nítida. Não era só confusão, era medo de se perder em meio a tantas camadas de mentiras.
— Eu entendo — murmurei. — Deve parecer que o chão tá desmoronando.
— Está. E eu… não sei como seguir sem saber quem eu sou de verdade.
Toquei o braço dela.
— Vamos descobrir juntas.
Ela virou o rosto lentamente, surpresa.
— Você faria isso?
— Eu faria isso por você. E porque também acho que a verdade precisa vir à tona. Mesmo que doa. Mesmo que abale tudo.
— Eu nem sei por onde começar…
— Podemos tentar buscar registros antigos. Médicos, talvez. Ou descobrir onde sua mãe vivia antes. Sempre há alguém que lembra. Um vizinho, um funcionário antigo… alguém que possa dar uma pista.
Sofia pareceu considerar.
— É uma boa ideia. Eu nunca soube muito sobre o passado da minha mãe. Ela era reservada. Evitava qualquer conversa sobre antes de mim.
— Então talvez seja hora de você conhecer a mulher que ela foi antes de ser sua mãe.
Ela assentiu, os olhos marejados.
— Obrigada, Isa.
Sorri de leve.
— Sempre. Não importa o que a gente descubra… eu estou com você até o fim.
— Obrigada, Isa.
— Agora, vamos ao assunto importante do dia — declarei, cruzando as pernas e olhando para Sofia com um sorriso travesso.
Ela ergueu uma sobrancelha, desconfiada.
— O que você vai inventar agora?
— Pietro Mancini.
O nome saiu da minha boca como um segredo proibido.
— O que tem ele? — perguntou, tentando parecer casual.
Eu dei um risinho.
— Ele é… absolutamente indecente. Bonito de um jeito que deveria ser ilegal. Sério, Sofia, ele parece ter sido esculpido por deuses gregos que estavam entediados e decidiram criar o caos.
— Isabela… — ela murmurou, o tom reprovador, mas com um toque embaraçado.
— Estou errada? — provoquei. — Aqueles olhos, aquela mandíbula, mas o jeito como ele te olha…
— Ele não me olha de nenhum jeito — ela respondeu rápido demais.
Fiquei em silêncio por um segundo. A expressão dela endureceu, e mesmo tentando disfarçar, havia algo ali. Um desconforto. Um muro erguido no meio da conversa. E eu não sabia se era ciúmes, trauma… ou outra coisa que ela não podia me contar.
— Tá bom, foi só um comentário inocente — dei de ombros. — Mas olha, se eu continuar vindo aqui com frequência… pode ter certeza que vou estar bem maquiada. Vai que o Deus grego me nota.
Brinquei. Mas o sorriso dela não acompanhou o meu.
Ela desviou o olhar e apontou para um canto do jardim.
— Você viu a lista de leitura da aula de história da arte? Três livros. Três! Ninguém merece.
A troca abrupta de assunto não passou despercebida. Mas, por agora, deixei passar.
— É a disciplina da professora Antonia, né? Aquela que parece que nasceu com uma régua na mão.
Sofia riu, aliviada por eu ter seguido o desvio. Mas o incômodo… ainda estava ali. Ela só o vestia com mais elegância que qualquer vestido de grife.
— Falando em professores e faculdade — continuei, após um gole de suco. — E o Giovanni? Não vi ele te levar nem buscar nos últimos dias.
O nome acendeu outra faísca estranha nela. Menos intensa que Pietro, mas ainda assim… presente.
— Giovanni está… sendo Giovanni. Atencioso, presente demais às vezes. Mas tem sido gentil. Não sei por onde ele andou nos últimos dias…
— Tá… mas gentil como? — perguntei, inclinando o corpo na direção dela com um sorriso m*****o. — Gentil tipo “príncipe” ou gentil tipo “estou fingindo que não quero te devorar”?
— Isa… — ela suspirou. — Ele está fingindo muito bem. Mas eu ainda não decidi se posso deixar que me devore.
— Não consigo acreditar que você ainda é virgem — murmurei.
Ela me encarou por alguns segundos, séria.
— Eu te colocaria para correr se não gostasse tanto de você. Com você eu consigo sorrir … e pensar, tudo ao mesmo tempo.
— E eu gosto de você porque, mesmo cercada de segredos, ainda tenta ser inteira. Ainda tenta ser… você.
Nos abraçamos ali, sem dizer mais nada.
Mais tarde, fui embora com a mente girando.
Pietro. Giovanni. As entrelinhas nos silêncios de Sofia.
A sensação de que havia muito mais naquela casa do que olhos podiam ver.
E talvez… ela estivesse no meio de algo muito maior do que conseguia carregar sozinha.