Capítulo 11

1398 Words
Sofia Valente O sol batia forte sobre o pátio central da Universidade, refletindo no mármore branco dos bancos e deixando o ar mais quente do que o habitual. Havia risos, conversas, pessoas indo de um lado para o outro com cadernos na mão, mochilas jogadas nos ombros e aquele cheiro inconfundível de café misturado com esperança. Naquele instante, eu podia fingir que tudo era normal. Fingir que eu era apenas uma estudante comum, com uma amiga comum, em uma manhã comum. — Finalmente você sorriu — provocou Isabela, jogando um bombom no meu colo. — Achei que o apocalipse tivesse chegado. — Não exagera. — Dei uma risada discreta. — Só estou cansada. — Você tem olheiras de quem lutou contra três batalhões russos. Ou dormiu com os irmãos Mancini de guarda na porta. Minha risada escapou de verdade dessa vez, espontânea, leve. — Não ajuda. — Levei o bombom à boca. — E você, como consegue estar sempre tão animada? — A resposta é simples, madame drama: cafeína, serotonina e zero envolvimento com mafiosos. Sorri mais uma vez. Isabela tinha esse dom — de me puxar de volta quando eu estava prestes a afundar. Era impossível não se deixar contagiar pela energia dela. — Sabe... — ela começou, mexendo nos próprios cabelos escuros e lisos. — Vai ter teste para as líderes de torcida hoje. Final da tarde. E antes que você revire os olhos, não, não é só um bando de meninas gritando em círculos com saias curtas. — Eu nem falei nada. — Me defendi. — Mas pensou! — Ela apontou para minha testa. — Dá pra ver o julgamento estampado aí. E, sinceramente, você devia tentar. Vai ser divertido. E, quem sabe, até um recomeço. — Isabela... — Só pensa nisso, tá? Eu já te vi patinar. Se você for metade boa com o corpo no chão quanto é no gelo... vai deixar todas pra trás. O comentário me fez enrubescer. Patinar sempre fora um refúgio, mas fazer parte de algo tão exposto? A ideia me deixava nervosa. Ainda assim, havia algo tentador em ser apenas eu, ali, sob o sol, sem os olhos dos irmãos Mancini ou o peso de Giovanni rondando meu caminho. ... Quando o fim da tarde chegou, o ginásio estava vibrando com energia. Havia mais garotas do que eu esperava, algumas em roupas já ensaiadas, outras com o nervosismo estampado nos olhos. Isabela, como sempre, se movia entre todas como se fosse dona do lugar. — Tá pronta? — perguntou, me entregando um elástico de cabelo. — Eles só vão observar hoje. É só uma amostra. Mas capricha, okay? — Quem vai observar? Ela riu. — A equipe técnica da faculdade, claro. Não os juízes do inferno, se é isso que você pensou. Tentei sorrir. Mas havia uma sensação incômoda, como se algo me tocasse a nuca. Era irracional. Estávamos em um ambiente seguro, em plena universidade. Ainda assim, à medida que me posicionava na quadra, os olhos invisíveis se faziam mais presentes. Começou a música. Um remix animado e vibrante, com batidas fortes. Movi o corpo com naturalidade, sem exageros, mas com leveza. Era como dançar no gelo. Só que agora meus pés batiam contra o chão. Cada giro era um sopro de liberdade. Cada salto, uma negação à prisão que eu vivia na mansão Mancini. E, por um momento, esqueci. De tudo. Esqueci Giovanni. Esqueci Pietro. Esqueci Luca. Era só eu. E o som. E a adrenalina. Mas, no último giro, quando meus olhos se abriram novamente e varreram a arquibancada, vi. Um homem. Encostado na parede dos fundos, de braços cruzados, sombra no rosto e olhos fixos em mim. Não havia como saber se era um dos irmãos. Ou algum capanga, ou o meu querido “namorado”. Mas os olhos... Aquela sensação... — Você mandou bem! — Isabela me puxou de volta. — Meu Deus, Sofia! Aquilo foi incrível! — Você viu aquele homem? — sussurrei, ainda procurando o vulto que agora havia sumido. — Que homem? — ela perguntou olhando em volta. — Na arquibancada. De preto… Ele estava olhando tão fixamente. — Amiga... só tinha estudantes e professores aqui. E nenhum deles parecia ser de fora. Mordi o lábio. Tentei ignorar o frio que desceu pela minha espinha. Talvez fosse imaginação. Talvez eu só estivesse sendo paranoica. Ou talvez... realmente estivesse sendo observada. De novo. … No vestiário, enquanto me trocava, Isabela não parava de me encher com ideias. — Se você entrar no grupo, já pensou nos campeonatos? Nas apresentações nas festas? Ah, e a roupa é maravilhosa. Total vibe gata do cinema dos anos 2000. — Você só quer alguém pra não treinar sozinha — brinquei, tentando relaxar. — Quero uma amiga feliz. E você parecia feliz lá fora. Não n**a, não. Sorri. Dessa vez com menos peso no peito. A leveza ainda era possível. Mas, conforme caminhávamos para fora da quadra, uma mensagem chegou no meu celular. "Você estava linda no palco, mia principessa (minha princesa). Mas não se esqueça: mesmo a luz mais brilhante, pode ser engolida pela escuridão." Giovanni em um novo número? Ou seria... outra pessoa? Saímos do vestiário com os cabelos ainda meio úmidos e a pele quente, mas havia algo em mim que não era suor ou exaustão. Era entusiasmo. Uma centelha, quase esquecida, que insistia em reacender. — Se eu soubesse que isso te faria tão bem, teria te arrastado pra cá no primeiro dia de aula — comentou Isabela, me cutucando com o ombro. — Não exagera — murmurei, mas a verdade é que eu também estava me sentindo… viva. Assim que dobramos o corredor, ouvimos passos apressados. Em segundos, fomos cercadas por um grupo de meninas vestindo uniformes com o brasão da universidade. Elas estavam radiantes, cheias de energia e sorrisos grandes demais para o fim de um dia tão longo. — Garota! — uma delas exclamou, segurando meus ombros. — Que diabos foi aquilo? — Uhm… oi? — Foi perfeito! — outra interrompeu. — Você tem noção de que parecia uma profissional? Sério, quando você girou com aquele salto duplo… teve gente ali que parou de respirar. — Inclusive eu — completou a primeira, rindo. — E olha que sou a capitã. — Isso significa que…? — Você passou! — gritaram juntas, batendo palmas e me puxando para um abraço coletivo inesperado. — Queremos você na equipe! Fiquei paralisada por um segundo. Isabela ria ao meu lado, visivelmente satisfeita. — Mas calma — disse a capitã, mais séria agora. — Esse foi só o teste técnico inicial. Queremos ver você em movimento, com uma coreografia real, dentro do grupo, com sincronia, força e expressão. Então… topa fazer o teste final? Eu pisquei, ainda um pouco atordoada. Coreografia. Treino real. Exposição total. Mas, por algum motivo, em meio àquela confusão e euforia, senti que podia. Talvez até que devia. — Sim — respondi, a voz mais firme do que eu esperava. — Me avisem o dia e o horário, e estarei aqui. Os gritos recomeçaram, agora com aplausos e pequenas danças improvisadas, como se tivessem acabado de recrutar uma estrela. Uma das meninas puxou Isabela pelo braço. — Sua amiga é incrível! Sério, vocês duas juntas serão incríveis. — Eu? — ela riu, surpresa. — Eu não tenho metade do talento dela. — Então tá combinado! Teste final no sábado, às dez! Traz esse fogo de novo, Sofia, porque o time precisa disso. Assenti com um sorriso sincero. Pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia parte de algo que não envolvia jogos de poder, manipulação ou mentiras. Era só dança. Suor. Ritmo. Liberdade. Caminhamos para fora da quadra com a energia borbulhando entre nós. O céu já tingia de laranja e rosa, e a luz dourada do entardecer se refletia nos prédios antigos da universidade como uma pintura viva. — Estou orgulhosa de você — disse Isabela, enquanto caminhávamos em direção ao estacionamento. — Sério. Você merecia esse momento. — Obrigada por me arrastar até aqui — falei, entrelaçando meu braço no dela. Ela sorriu. E eu realmente quis acreditar que as coisas poderiam dar certo. Só que… o frio voltou. A sensação. O arrepio involuntário na nuca. O pressentimento de olhos onde não deveria haver ninguém. E quando me virei para trás, o estacionamento estava vazio. Mas dentro de mim, algo dizia que não estávamos sozinhas.
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