Sofia Valente
O corredor da ala leste parecia ainda mais longo naquela manhã. Os passos ecoavam pelas paredes de mármore, mas não o bastante para abafar o tumulto dentro da minha cabeça. Desde a conversa no escritório com Giorgio, eu me sentia uma peça deslocada num tabuleiro onde os jogadores moviam as regras de acordo com seus próprios interesses.
A sensação de impotência era sufocante. Não bastava fingir que o namoro com Giovanni era real, agora eu também precisava suportar os olhares que queimavam minha pele como lâminas silenciosas. E não era apenas o incômodo de fingir... era o incômodo de sentir. Sentir tudo, tudo ao mesmo tempo, como se meu corpo estivesse em guerra com a minha mente.
Atravessar o salão principal foi como cruzar um campo minado. Pietro estava recostado no batente da porta do corredor, de braços cruzados, a camisa branca meio aberta, revelando um traço de tatuagem no peito. O cabelo ainda molhado denunciava que havia acabado de sair do banho, e o cheiro de sabonete misturado com perfume caro me atingiu como um soco. Eu não sabia que tipo de punição os deuses gostavam de infligir, mas Pietro Mancini era a mais c***l delas.
— Finalmente — murmurou com a voz baixa e grave.
— Finalmente o quê? — perguntei, mantendo a postura, mesmo com o coração acelerando.
— Que você saiu do quarto. Estava começando a achar que ia passar o dia inteiro fugindo de mim.
— Não estou fugindo — rebati. — Só evitando mais discussões desnecessárias.
Ele sorriu, um sorriso torto, perigoso, do tipo que diz “continue mentindo pra você mesma”.
— Você tem evitado as refeições em família...
Eu o ignorei, virei o rosto e continuei andando em direção a porta. Mas ele me seguiu.
— Você não tem mais nada pra dizer? — provoquei, girando sobre os calcanhares. — Nenhuma ameaça? Nenhuma acusação i****a?
— Tenho, sim — disse, se aproximando. Rápido. Quente. Intenso. — Você me enlouquece. Odeio o jeito que você bagunça minha cabeça, Sofia. Odeio o quanto eu penso em você quando deveria estar pensando em qualquer outra coisa.
Tentei recuar, mas já era tarde. O corpo dele colou no meu entre a porta e a janela, o braço direito se apoiou na parede ao lado do meu rosto, e tudo em mim gritou para manter distância. Exceto o meu corpo, que já tremia.
— Me solta — sussurrei.
— Não estou te segurando. Ainda.
O ar pareceu sumir. Pietro aproximou o rosto, e por um segundo, pensei que ele fosse me beijar. Mas não. Ele apenas deslizou os olhos pelos meus como se me devorasse em silêncio. E depois se afastou... devagar... como se fosse ele quem estivesse no controle.
— Você não deveria ter perdido o café, mas vá comer alguma coisa antes de ir para a faculdade — murmurou, antes de se afastar e desaparecer.
Eu ainda estava tentando recuperar o ar quando Luca apareceu no fim do corredor.
Claro.
Ele vestia preto dos pés à cabeça, e trazia nas mãos duas xícaras de café.
— Vi você sair do quarto. Imaginei que não tinha tomado nada ainda.
— Obrigada — peguei a xícara, sentindo o calor contrastar com o gelo no meu estômago. — Você sempre aparece na hora certa?
— Só quando importa.
Luca era mais leve, mais debochado, mas isso não o tornava menos perigoso. Talvez até mais. A doçura dele era uma armadilha. E naquele momento, quando me estendeu o café fiquei ainda mais consciente do quanto ele mexia comigo.
— Pietro parece... impaciente hoje — comentou ele, casualmente. — Acho que sua ausência no café da manhã o deixou irritado.
— Ele sempre é impaciente. Você deveria saber disso melhor do que eu.
Luca sorriu, mas não respondeu. Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— Sabe — ele começou, virando-se para mim — às vezes eu me pergunto se você sabe o poder que tem.
— Eu não quero poder — menti.
— Todo mundo quer. Alguns só não sabem ainda.
Ele tocou meu rosto de leve, quase como se não tivesse feito nada, mas o arrepio foi imediato. Eu precisava respirar. Precisava fugir daquela casa. Dos dois.
Como se o universo ouvisse, um dos seguranças apareceu e avisou que Geovanni estava esperando na varanda.
Luca me olhou estranho.
— Ele disse que vai me levar todos os dias. — Me apressei em dizer.
— Que fofo — ele zombou. — Um namorado dedicado... creio que ele deve ter escutado nosso papinho, e o seu com Pietro também. — Sorriu mais largo. — Espero que não seja ciumento.
Saí da casa com o coração descompassado, ainda sentindo o toque dos dois irmãos na pele como se fosse um lembrete, ou uma maldição.
O vento da manhã me recebeu com um sopro gelado no rosto, mas não o suficiente para apagar o calor que Pietro havia deixado em cada centímetro da minha pele. Ou o jeito como Luca mexia comigo com uma facilidade desconcertante.
Giovanni estava parado na varanda, encostado na pilastra de pedra como se fizesse parte da arquitetura ancestral da mansão. As mãos estavam nos bolsos, o maxilar tenso, e o olhar preso em mim como se tivesse visto tudo.
Talvez tenha visto mesmo.
— Quanto tempo você está aí? — perguntei, descendo o último degrau com cautela.
— O bastante — ele respondeu, seco.
Parecia mais frio do que o habitual. Mais observador. Mais... perigoso.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, e eu sabia que ele estava processando o que tinha visto ou escutado. Seus olhos escuros não disfarçavam a raiva contida.
— Então é isso? — ele finalmente disse. — Pietro te pressiona, Luca provoca... e você simplesmente aceita viver no meio desse teatro podre como se nada tivesse acontecido?
Cruzei os braços, tentando manter a compostura.
— Isso aqui... é o que temos agora. Giorgio sempre deixou claro que o que importa são aparências. Você devia saber melhor do que ninguém o quanto isso significa dentro da máfia.
— Eu sei. — Giovanni se aproximou, e a proximidade me forçou a recuar um passo. — Mas o que você não parece entender é que... esses dois estão jogando com você. Não é só sobre máfia, Sofia. É sobre posse.
— E você não está?
Ele travou a mandíbula, os olhos faiscando.
— A diferença é que eu não te vejo como troféu. Eu te vejo como alguém que... — Ele parou, como se fosse longe demais. — Alguém que eu quero proteger. E isso inclui proteger de qualquer um que queira brincar com sua cabeça.
— Giovanni... — murmurei, tentando manter a voz baixa. — Eu estou tentando sobreviver, não viver um romance. O que Pietro e Luca fazem ou deixam de fazer... não é sobre sentimento. É sobre controle.
— E você acha que eles vão parar por aí? Que eles vão aceitar ver você ao meu lado? — Ele deu um passo mais perto, o olhar endurecendo. — Eles vão te destruir. E eu não vou ficar parado assistindo.
— Então não os provoque. — Me aproximei agora, a voz tão firme quanto podia ser. — Não os desafie. Não faça os irmãos Mancini desconfiarem. Ou não vai ter teatro no mundo que esconda o sangue que vai escorrer dessa casa.
Giovanni respirou fundo, e por um segundo, sua expressão suavizou. Como se por trás da fúria, houvesse algo mais. Uma lembrança antiga. Um arrependimento. Ou um sentimento que ele não estava ciente.
— Você está certa. — Sua voz soou mais baixa. — Mas também está errada se acha que eu vou recuar. Pode continuar fingindo, Sofia... mas eu não finjo. Você merece muito mais do que eles tem a oferecer.
Ele estendeu a mão para mim, um gesto silencioso para que o acompanhasse até o carro. Olhei para seus dedos por um instante, e então aceitei. Porque entre o fogo e a lâmina, às vezes, tudo que se pode fazer... é escolher qual vai te machucar primeiro.