####A RECUSA DE MELANI

1132 Words
O silêncio que se instalou após as palavras de Melani era quase palpável. Claudette levou as mãos ao rosto, sentindo-se impotente. Alessio fechou os olhos com força, como se o gesto pudesse impedir a dor de atravessar-lhe o peito. E Melina, ali sentada, apenas observava. Naquela sala imensa, adornada por retratos de antepassados, estava claro quem carregava a honra da família. Melani vivia em um mundo de ilusões e vaidade. Melina, ainda que em silêncio, era quem sustentava as esperanças do pai. Alessio se levantou devagar, caminhou até a filha mais nova e tomou-lhe as mãos. Seus olhos, marejados, refletiam o peso da decisão que recaía sobre os ombros dela. — Eu jurei, diante do nome de nossa família, que nunca a colocaria numa situação assim — disse, a voz embargada. — Mas não me resta escolha, Melina. Richard injetou dinheiro suficiente para salvar a empresa. Se eu recuar agora, não só perderei tudo, como destruirei a vida de centenas de trabalhadores. Homens que confiam em mim, que dependem de mim. Não posso traí-los. Ela respirou fundo, sentindo o peso daquela responsabilidade esmagar seu peito. Desde pequena aprendera a ser a filha obediente, a que dizia “sim” quando a irmã dizia “não”. A que estudava enquanto Melani corria pelo mundo em busca de aventuras. A que chorava escondida para não preocupar os pais. — Eu sei, papai — murmurou, firme. — Eu não vou permitir que o senhor vá para a prisão por causa de um crime que não cometeu. Se esse é o preço, eu vou pagar. Claudette ergueu o olhar, emocionada, e correu até a filha, abraçando-a com força. — Minha menina… — sussurrou, as lágrimas molhando-lhe os cabelos. — Você sempre foi a nossa esperança. Melani bufou, cruzando os braços com arrogância. — Patético. Vocês realmente acreditam que um casamento arranjado vai salvar essa família? O velho Richard só quer alguém para segurar as rédeas daquele filho descontrolado. E vocês estão entregando a cordeirinha perfeita para o abate. — Já chega, Melani! — Alessio ergueu a voz, pela primeira vez em anos. — Você pode zombar de mim, mas não ouse desrespeitar sua irmã. Ela riu, sarcástica. — Não se preocupe, pai. Eu não tenho interesse em Blade Heisman Schneider. Que a santa Melina cuide dele. Eu tenho o mundo inteiro a meus pés. Virou-se e saiu batendo a porta, deixando atrás de si um rastro de perfume caro e desprezo. Dias depois, Alessio viajou a Nova Iorque novamente. Tinha em mãos a cópia do contrato assinado. Richard o recebeu no escritório amplo, decorado com móveis de carvalho e tapetes persas. O ar-condicionado soprava frio, mas o ambiente era aquecido pela imponência do homem sentado atrás da mesa. — Vejo que trouxe o documento — disse Richard, observando-o com atenção. Alessio entregou a pasta de couro. — Está tudo conforme combinado. Melina terminará a faculdade no próximo semestre. Assim que receber o diploma, casará com Blade. Richard abriu um sorriso contido. — Ótimo. Confesso que deposito grandes esperanças nessa união. Conheci Melina em um evento acadêmico, lembra-se? Uma jovem educada, centrada, com brilho nos olhos. Muito diferente das jovens fúteis que vejo por aí. Meu filho precisa de alguém assim para estabilizá-lo. Alessio engoliu em seco. Uma parte dele queria revelar que Melina não era, de fato, a filha mais velha, mas sim a mais nova por apenas cinco minutos. Outra parte temia que, ao fazê-lo, Richard recuasse, e toda a empresa desmoronasse junto. Permaneceu em silêncio, apenas assentindo. — Eu agradeço sua confiança, Richard — disse, num fio de voz. — Prometo que minha filha honrará o nome da sua família. Enquanto isso, em Florença, Melina se refugiava em seus estudos. Sabia que o destino estava traçado, mas não deixava de lado a dedicação à faculdade. Cada página lida, cada prova realizada, parecia agora um passo rumo a um futuro inevitável. Cristine Heisman Schneider, a filha mais nova de Richard e irmã de Blade, também lembrava-se bem de Melina. Em um dos eventos sociais da família, tinha observado a jovem italiana com curiosidade. Não era como as outras moças que sorriam demais, riam alto ou exibiam suas roupas caras. Melina era discreta, mas havia uma luz serena em seu olhar que cativava. Cristine nunca comentou com o irmão, mas no fundo desejava que um dia ele conhecesse alguém como ela. Blade, por outro lado, continuava em sua vida de festas. Estampava revistas, era visto em clubes noturnos, rodeado de mulheres. O “príncipe rebelde” da família Heisman Schneider, como gostava de ser chamado, não fazia ideia de que seu futuro já estava escrito em um contrato guardado no cofre do pai. Certa noite, Alessio reuniu a família novamente. Melani, de volta de uma temporada em Paris, exibia as novas joias que um amante lhe dera. Melina, cansada após um dia de aulas, mantinha-se em silêncio. Claudette observava as duas, dividida entre orgulho e vergonha. — Eu preciso que vocês entendam — começou Alessio, a voz grave. — O contrato foi assinado. Não há como voltar atrás. Assim que Melina concluir a faculdade, ela será esposa de Blade Heisman Schneider. Melani gargalhou, inclinando-se sobre a poltrona. — Vocês são mesmo ridículos. Acham que esse casamento vai salvar a honra da família? Blade não vai durar um mês com Melina. Ele vai enjoar dela como enjoa de todas. Melina respirou fundo, mas não respondeu. Sabia que qualquer palavra sua apenas alimentaria o veneno da irmã. Claudette, porém, ergueu-se, determinada. — Já basta, Melani. Você pode zombar de tudo, mas n******e negar que sua irmã está fazendo por você o que você jamais faria por ela. Melani arqueou uma sobrancelha, desdenhosa. — Eu nunca pedi para ninguém se sacrificar por mim. E, para ser franca, pouco me importa se o papai vai para a prisão ou não. Eu não vou abrir mão da minha liberdade por causa de contratos. As palavras caíram como punhais. Alessio, sentindo o coração apertar, percebeu que não havia volta. Se Melani representava o egoísmo, Melina era a única esperança de salvação. Naquela noite, deitada em seu quarto, Melina encarou o teto por longos minutos. As lágrimas escorriam silenciosas, não pelo casamento imposto, mas pela constatação de que nunca tivera escolha. Desde o nascimento, cinco minutos após a irmã, parecia estar destinada a carregar os fardos que Melani deixava para trás. Mas, no fundo de sua alma, Melina sabia que havia algo de diferente no olhar de Richard Schneider quando falara com seu pai. Não era apenas um contrato. Era como se o destino, de alguma forma misteriosa, tivesse apontado para ela. E, mesmo sem acreditar em contos de fadas, permitiu-se um pensamento breve antes de adormecer: talvez, só talvez, ainda houvesse espaço para amor em meio a tantos deveres.
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