- Mike… - Suspirei fundo. - Eu… Eu odeio a minha mãe, ela é muito má, ela não cuida da gente, não se importa comigo e nem com a minha irmã, e esses dias ela nos deixou sozinhas e a casa pegou fogo, e ela nem ficou preocupada com a gente, acho que se tivéssemos morrido ela nem se importaria.
- Que absurdo, Chloe! Como pode existir uma mãe assim?
- E isso não é tudo. - Deixei algumas lágrimas escaparem. - Ela… Ela me obriga a ir com alguns caras malvados, que sempre me machucam muito, eu não quero e eu choro, mas não adianta.
- Chloe, como assim? O que esses caras fazem? - Fiquei em silêncio. - Eles… Te tocam? Digo… Nas suas partes íntimas?
Comecei a chorar desesperadamente e acenei a cabeça positivamente. Mike ficou alguns segundos em silêncio, parecia assustado ou surpreso com o que eu havia dito.
- Mas… Isso é errado, muito errado, ninguém pode fazer isso. - Falou.
- Eu sei, papai sempre me diz isso. Talvez a mamãe não saiba disso.
- Eu não acho isso, acho que ela sabe, sim. Os adultos sabem o que é certo e errado e se fazem algo errado é porque querem. Ela não pode fazer isso, não pode deixar que eles façam isso.
- Mike, promete que não vai contar pra ninguém. - Pedi.
- Mas Chloe…
- Por favor. - Pedi aos prantos.
- Ok. - Falou contrariado.
Nisso o sinal para o início da aula começou. Corri para o banheiro para lavar o rosto, não queria que mais ninguém me visse chorando, iam me encher de perguntas e eu não queria isso. Sai do banheiro e dei de cara com Jenny, que sorriu ao me ver.
- Oi Chloe.
- Oi. - Falei com um falso sorriso.
- Vamos logo, o sinal já tocou.
Saímos correndo para o pátio e fomos para a nossa fila, a professora chegou em seguida e nos levou para a sala. Durante a aula toda, notei Mike calado, parecia distante. Eu também estava mais calada, não conseguia parar de pensar em tudo o que havia acontecido nas últimas horas.
Quando o sinal para o recreio tocou, eu chamei Jenny e Mike, mas o garoto me avisou que iria ficar na sala para terminar de copiar o conteúdo da lousa, e que logo já iria para brincarmos. Minha amiga e eu saímos correndo e fomos para o pátio. Pouco depois, Mike apareceu, às vezes ele me olhava em silêncio como se quisesse dizer algo, mas não dizia.
- Mike, você está bem? - Jenny perguntou.
- Aham. - Ele respondeu.
- Parece que está no mundo da lua. - Ela disse, se pondo a rir e a me fazer rir também.
Brincamos um pouco e quando o sinal tocou novamente fomos correndo para a nossa fila. O resto da aula seguiu normal, Mike continuava calado e às vezes a professora me dava umas olhadas em silêncio que eu não gostava, me sentia meio estranha.
Quando a aula acabou, os meus colegas começaram a sair para ir para o pátio para esperarem os seus pais. Porém, quando eu fui sair, a professora me chamou, esperou todas as crianças saírem, e então sentou em uma cadeira, e me chamou para perto de si.
- Como você está, meu amor? - Perguntou.
- Bem.
- É? Que bom! E como estão as coisas na sua casa?
- Tudo bem, professora. - Dei um falso sorriso.
- Mesmo? - Acenei a cabeça positivamente. - E não tem nada que você queira me contar? Sabe, que pode confiar em mim, não sabe?
‘’Mike dedo duro. ‘’ - Pensei.
- Eu… Estou bem, professora. - Menti.
- Então por que esses olhos tão tristes?
- Só estou cansada, mas já, já passa. - Forcei um sorriso.
- Meu anjinho, olha só… Um passarinho me contou algo que me deixou muito triste. - Eu sabia bem quem era esse passarinho. - Ele me falou que sua mãe permite que algumas pessoas… Que alguns homens te machuquem, isso é verdade?
Quando ela falou isso o meu coração acelerou, fiquei muito nervosa, ela era adulta, eu não podia falar a verdade. d***a! O Mike prometeu que não ia falar nada, nunca mais confio nele.
- Hã… Não professora, ele deve ter entendido errado, eu nunca disse isso.
- Tem certeza? - Perguntou soando preocupada.
- Aham. Minha mãe pode não ser a melhor do mundo, mas isso ela nunca fez, não. - Forcei um sorriso.
- Ok, se você me diz isso, eu acredito, mas saiba que você pode sempre me contar o que quiser, ok?
- Ok. Posso ir?
- Claro, meu amor, vai lá.
Eu peguei a minha mochila e sai para o pátio. Logo avistei Mike, que estava brincando com outros meninos da nossa turma.
- Seu mentiroso, dedo duro. - Falei ao ir até o Mike. - Você me prometeu que não ia falar nada.
- Desculpa, Chloe, eu fiquei preocupado, só queria te ajudar.
- Mas você não pode me ajudar. Ninguém pode. E não fala mais comigo, não sou mais tua amiga. - Sai apressadamente, e deixei ele chamando por mim.
Nisso avistei a minha irmã que estava no portão com Sammy, estavam esperando por mim. Sorri ao vê-las, Sammy havia cumprido sua promessa, ela havia ido nos buscar como disse que faria. Sai correndo e a abracei, fiquei muito feliz ao vê-la.
- Estão com fome? - Perguntou.
- Muita. - Respondi.
- Eu também. - Disse May.
- Que tal a gente ir ao McDonald 's?
May e eu vibramos de alegria, já havíamos ido algumas vezes com o papai e a gente adorava. Sammy nos levou ao Mc e comemos um mc lanche feliz, e estava super delicioso. Depois brincamos em uns brinquedos que tinha no local e antes de irmos embora, ela comprou sorvete pra gente.
- Você é muito legal, Sammy. - Falei ao dar uma colherada em meu sorvete.
- É mesmo! - Disse minha irmã. - Você devia ser mamãe.
- Oh meus amores… - Acariciou nossos rostos delicadamente. - Muito obrigada! E antes eu achava que essa coisa de ser mãe não era pra mim, mas depois que eu conheci vocês, eu mudei de ideia, vou adorar muito se eu tiver filhinhas tão lindas e meigas como vocês. - Sorriu, nos fazendo sorrir também.
Após terminarmos os nossos sorvetes, voltamos pra casa. Mamãe nem perguntou onde estávamos, talvez Sammy tivesse dito que nos levaria para passear ou talvez ela só não estivesse preocupada mesmo. Minha irmã e eu fomos fazer os nossos deveres e Sammy nos ajudou, ela estava sendo ótima com essa coisa de mamãe postiça, bem que podia ser nossa mãe de verdade.