Nos dias que se seguiram, Sammy continuou cuidando da gente como vinha fazendo, May e eu estávamos adorando isso, ela era tão carinhosa com a gente, mamãe não gostava muito quando ela nos agradava, dizia que nos mimava demais e que era por isso que ficávamos ‘’desse jeito’’, mas Sammy seguia nos agradando e nos defendia, sempre que mamãe tentava nos bater, ela impedia, dizia que se dependesse dela, mamãe não encostaria um dedo na gente. Desde que éramos pequenas, sempre que ela ficava brava, nos batia, mesmo que não fôssemos o motivo de sua raiva. Já papai nunca encostou um dedo em nós, ele dizia que é errado bater em criança, e que não devemos fazer para uma criança aquilo que não fazemos para um adulto, queria que mamãe também pensasse assim.
Sammy nos dava banho, nos arrumava e nos penteava todos os dias, e ainda fazia cada comida deliciosa pra gente, ela foi incrível pra nós.
Eu não havia falado mais com o Mike, ainda estava muito brava com ele. Às vezes ele tentava falar comigo, mas eu o ignorava, Jenny me perguntou o porquê de eu não falar mais com o Mike, e eu apenas disse que era porque eu havia contado algo para ele e ele prometeu que não contaria para ninguém, mas contou. Minha amiga falou que achou errado da parte dele e que ela jamais faria isso, até quis saber o que eu havia dito para ele, mas eu inventei uma desculpa qualquer, não podia contar para mais ninguém, por sorte ela acreditou e não tocou mais no assunto.
(...)
Era quase 22h quando a campainha da casa tocou. Mamãe abriu a porta e um homem entrou. Me escondi de medo atrás do sofá, achei que ela me obrigaria a ir com ele.
- Hey, o que está fazendo aqui? - Perguntou uma voz atrás de mim.
Me virei e a vi. Era Sammy.
- Nada. - Respondi.
Notei que mamãe havia me visto escondida e tive muito medo, mas por sorte, ela não me obrigou a ir com ele, dessa vez ela que saiu com o homem, foram para um quarto.
- Cadê a May? - Sammy perguntou.
- No banheiro. - Respondi.
- Acho que está na hora das duas irem pra cama, né? Já está tarde!
- Nos coloca para dormir? - Pedi.
- Claro, meu amor. Que tal uma história?
- Oba! A gente adora histórias para dormir.
Assim que May saiu do banheiro, nós nos deitamos em nossos colchões e Sammy ficou em nosso meio, e começou a contar uma história, ela levava jeito com isso.
- Faz tempo que você mora aqui? - Perguntei assim que ela terminou a história.
- Dois anos. - Respondeu. - Mas eu vou ficar aqui só enquanto vocês estão aqui para poder cuidar e proteger vocês, não quero que a maluca da sua mãe as machuquem. Eu sei que não posso protegê-las para sempre porque um dia vocês sairão daqui com ela e eu não poderei fazer mais nada, mas enquanto vocês estiverem aqui, eu farei o que puder para defendê-las. E depois, daí vou ver um cantinho pra mim, arrumar outro serviço…
- Obrigada Sammy. - Falei. - Eu te amo!
- Eu também te amo, Sammy! - Disse May.
- Oh, meus amores. E eu amo vocês. Muito mesmo, viu? - Falou nos fazendo sorrir.
Ela ficou nos fazendo cafuné até pegarmos no sono, o que não demorou muito para acontecer.
(...)
Era noite quando mamãe me acordou. Olhei para ela bastante sonolenta. Mamãe estava parada na porta fumando um cigarro.
- Levanta! - Ordenou.
- Por quê? - Perguntei temendo a resposta.
- Tem visitinha pra você. - Sorriu. Odiava quando ela sorria dessa forma.
- Mamãe… - Comecei a chorar. - Por favor. Não!
- Eu não estou perguntando se você quer ou não. Agora levanta logo!
Sentei na cama e me encolhi de medo enquanto chorava sem parar.
- Vamos, anda logo!
- Eu não vou! - Falei.
- Como é? Enlouqueceu? O que você disse?
- Eu não quero. Eu não vou. - Falei sem conseguir parar de chorar.
- Não quer? Não vai? Ok, então a Maytê vai. - Falou. - Maytê, acorda. - Por sorte a minha irmã nem se mexeu, essa tinha o sono bem pesado.
- Não! A May, não! Eu vou! - Falei.
- Ah, muito bem. - Deu um sorriso vitorioso. - Agora vamos logo.
Sem saída, eu acabei indo com mamãe, que me levou até aquele homem asqueroso, que fedia a xixi. Preferi que ele fizesse comigo tudo o que quisesse, mas que não machucasse a minha irmãzinha. Fui com ele até o quarto e ele me machucou muito, eu chorei demais e gritei, gritei muito, mas ele não parava, não parou nem quando eu comecei a sangrar. E enquanto ele me machucava, eu olhei para a porta, tentando pensar em outra coisa, e nisso avistei Sammy, que estava vendo tudo, parecia surpresa, e ela estava… chorando?
Nisso, a mulher abriu a porta com força, assustando o homem, que se afastou de mim e colocou sua calça.
- Mas que m***a é essa? O que está havendo aqui? Aliás, não precisa nem responder.
- Não é nada disso que parece. - O homem disse tentando se defender.
- Não é? Eu vi tudo. Como você… É uma criança, infeliz! Por que não pega uma mulher? Por que não fez isso comigo?
- Porque eu…
- Querida, você está bem? - Perguntou vindo em minha direção.
Sem conseguir dizer nada, apenas acenei a cabeça positivamente, estava muito assustada e muito trêmula. A mulher me abraçou, me passando conforto. Nisso o homem acabou fugindo, ela até tentou ir atrás dele e pegá-lo para denunciá-lo, mas foi em vão, ele estava de carro e Sammy não, mas pelo menos, algo me dizia que ele não voltaria mais.
- Vem cá, vamos colocar a sua roupinha. - Falou ao me ajudar a me vestir.
Eu estava muito nervosa e com muito medo, certamente Sammy me encheria de perguntas, mas eu não tinha como negar, ela havia visto tudo. Acho que agora esse pesadelo teria fim.