Capítulo 9

1324 Words
Zuko — Ícaro… Ouvir meu nome saindo da boca dela outra vez foi pior do que qualquer tiro que já levei na vida. Porque nenhuma distância conseguiu apagar o efeito que Kiara tinha sobre mim. Fiquei em silêncio por alguns segundos apenas observando ela andar lentamente pela sala da cobertura enquanto tentava processar o choque daquela ligação. Mesmo de longe eu conseguia perceber a respiração desregulada, a mão tremendo ao redor do celular e o jeito perdido que ela olhava em volta como se estivesse tentando acordar de um sonho. Mas aquilo era real. Eu estava vivo. E tinha voltado. — Então você ainda lembra de mim — falei baixo enquanto tragava lentamente o cigarro. Ela fechou os olhos imediatamente. Mesmo distante consegui perceber. Meu peito apertou forte. Porque eu conhecia Kiara melhor do que qualquer pessoa naquele mundo. Conhecia o jeito que ela tentava esconder emoções quando estava prestes a desabar. E naquele momento ela estava lutando contra si mesma. — Onde você tá? — a voz dela saiu falha. Sorri sozinho observando ela através do vidro. — Perto. Vi o instante exato em que o corpo dela endureceu. Ela percebeu. Percebeu que eu não estava do outro lado do mundo. Estava ali. Na mesma cidade. Respirando o mesmo ar que ela. Meu olhar percorreu lentamente o corpo dela enquanto a memória insistia em misturar passado e presente dentro da minha cabeça. Anos atrás aquela mesma mulher corria pra meus braços escondida depois dos bailes do morro como se eu fosse o único lugar seguro no mundo. Agora ela pertencia a outro homem. Meu maxilar travou violentamente só de pensar nisso. Do outro lado da avenida Lorenzo apareceu novamente na sala falando ao telefone enquanto caminhava distraído. Senti o ódio subir queimando devagar dentro do peito. Porque aquele desgraçado estava vivendo minha vida. Usando meu sobrenome. Dormindo ao lado da mulher que deveria ser minha. E o pior… Sem nem imaginar que eu tinha voltado pra arrancar tudo dele. — Você morreu pra todo mundo… — Kiara murmurou do outro lado da linha. — Eles disseram que você tava morto. Soltei uma risada baixa completamente amarga. — Era exatamente isso que eles queriam. O silêncio caiu entre nós. Pesado. Cheio de coisas m*l resolvidas. Cheio de dor. Porque por mais que o tempo tivesse passado, ainda existiam perguntas demais entre nós dois. Vi quando ela começou a andar devagar pela sala enquanto passava a mão nervosa pelos cabelos úmidos. Ela fazia isso quando estava perdida. Ainda lembrava. Ainda lembrava de tudo. — Por que você tá fazendo isso comigo? — perguntou quase num sussurro. Fechei os olhos lentamente sentindo a raiva e a saudade se misturarem de um jeito perigoso dentro de mim. Porque a verdade? A verdade era simples e patética ao mesmo tempo.Eu nunca consegui esquecer ela. Nunca. Nem mesmo cercado de dinheiro, poder e mulheres diferentes ao redor do mundo. Kiara continuava presa dentro de mim. Como veneno. — Porque eu tentei seguir minha vida… — falei baixo observando ela outra vez — …mas nenhuma mulher conseguiu fazer eu esquecer você. Ela parou de andar na mesma hora. O silêncio dela bateu forte dentro do meu peito. Então finalmente ouvi a respiração falhar do outro lado. — Ícaro… Meu nome saía diferente quando vinha dela. Mais íntimo. Mais perigoso. Passei a mão lentamente pela barba tentando manter o controle da situação porque cada segundo daquela ligação fazia minha vontade de atravessar aquela avenida aumentar. Mas não podia. Ainda não. Tudo precisava acontecer do jeito certo. Meu telefone apertou contra o ouvido enquanto eu observava Lorenzo desaparecer da sala novamente. Então meus olhos voltaram pra ela. Kiara agora estava parada próxima da varanda olhando diretamente na direção da minha cobertura sem perceber. Como se sentisse minha presença. Como antes. Porra. Aquilo mexia comigo de um jeito absurdo. — Ele te faz feliz? A pergunta saiu antes mesmo que eu pudesse impedir.Vi quando ela fechou os olhos imediatamente. A resposta demorou. E aquela demora já dizia muita coisa. Meu peito queimou. Porque eu conhecia Kiara. Conhecia o silêncio dela. Conhecia as verdades que ela escondia. — As coisas mudaram… — respondeu baixo. A raiva subiu instantaneamente. Não pela resposta. Mas porque eu sabia exatamente o que ela queria dizer. Ela seguiu em frente. Enquanto eu sobrevivia. Olhei novamente para Lorenzo atravessando o ambiente ao fundo completamente confortável na vida que roubou de mim. Então algo escuro se moveu dentro do meu peito. Frio. Perigoso. Possessivo. — Escuta bem uma coisa, Kiara. Minha voz saiu mais baixa dessa vez. Mais pesada. Vi ela prender a respiração imediatamente. — Eu não voltei pro Rio pra perder de novo tudo que era meu. — Quando sair do banho vai até a sacada. Falei baixo antes de desligar a ligação. Continuei segurando o celular por alguns segundos enquanto observava a cobertura dela do outro lado da avenida. Meu peito ainda queimava pelo jeito que Kiara tinha pronunciado meu nome depois de tantos anos. Merda. Nada naquela mulher fazia sentido pra mim. Eu deveria odiar ela.Deveria olhar praquela cobertura e enxergar apenas a mulher do meu inimigo. Mas não conseguia. Porque uma parte minha ainda pertencia a ela de um jeito doentio. Apertei o celular com força, sentindo a mandíbula travar enquanto pensamentos violentos atravessavam minha mente. Lorenzo dormia tranquilo sem imaginar que eu estava vivo. Sem imaginar que eu observava cada passo dele. Sem imaginar que a mulher dele ainda tremia ao ouvir minha voz. O vento forte atravessava a varanda da cobertura bagunçando meus cabelos enquanto eu continuava parado na escuridão observando as luzes do apartamento dela. Então finalmente ela apareceu. Kiara surgiu na sacada lentamente usando apenas uma roupa leve depois do banho. Os cabelos ainda úmidos caíam pelas costas enquanto ela olhava em volta tentando me encontrar. Meu coração bateu pesado no peito. Mesmo depois de todos aqueles anos ela ainda conseguia me destruir apenas existindo. Peguei lentamente o pequeno laser que estava sobre a bancada ao lado do whisky e direcionei na direção dela. O ponto vermelho parou exatamente sobre a mão dela. Vi o instante exato em que o corpo dela endureceu. Ela percebeu imediatamente. Os olhos começaram a procurar pela origem da luz até finalmente encontrarem minha silhueta parada na cobertura do outro lado. Ficamos assim por alguns segundos. Parados. Se encarando através da distância. O vento movimentava os cabelos dela enquanto o silêncio daquela cidade desaparecia ao meu redor. Porque naquele instante nada mais importava. Nem o morro. Nem a vingança. Nem a guerra. Só ela. Só a forma como ainda me olhava daquele jeito.Como se uma parte dela nunca tivesse me deixado ir.Traguei lentamente o cigarro sem desviar os olhos dela enquanto o laser desaparecia da sua mão devagar. Meu peito queimava forte. Possessivo. Perigoso. Então peguei novamente o celular e mandei uma mensagem. “Bonita demais pra pertencer a outro homem.” Vi o instante exato em que ela leu. A respiração dela falhou mesmo de longe. Um sorriso sombrio surgiu no canto da minha boca. Porque eu conhecia Kiara. Conhecia cada reação dela. Conhecia o efeito que ainda tinha sobre ela. E aquilo era perigoso demais. Ela ergueu lentamente os olhos na minha direção outra vez enquanto segurava o celular junto ao peito. O vento noturno fazia o tecido fino da roupa dela balançar devagar e por um momento fui transportado anos atrás. Pra laje do morro. Pra madrugada em que ela me beijou pela primeira vez escondida da família. Pra época em que eu ainda acreditava que podia ter alguma coisa boa na vida. Fechei os olhos rapidamente, afastando as lembranças antes que elas me enfraquecessem. Porque o homem que voltou pro Rio não podia pensar assim. Zuko não voltava por amor. Voltou por guerra. Mas então Kiara deu mais um passo na varanda olhando diretamente pra mim outra vez.E naquele momento eu percebi a pior verdade de todas: Ela continuava sendo minha maior fraqueza.
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