Ajudei Kira a tomar banho, a se vestir, a comer e outras coisas. Ela não parava de reclamar de dor, acabei levando-a ao médico. Kira fraturou algumas costelas, vai ficar de atestado por algumas semanas. Fiquei alguns dias com ela no hospital.
Retornamos para casa. Ajudei ela a se sentar no sofá e sentei ao seu lado.
— Acho que te devo explicações. — Quebrei o silêncio.
— Deve. Não tenho pressa, explique tudo do começo. — Kira me olhou profundamente nos olhos pela primeira vez desde que eu a busquei na comunidade.
— Eu nasci naquele lugar. Meu pai que comandava ele. O Ash é o meu único irmão, e também o mais velho. Sempre fomos unidos, protegiamos um ao outro. Nosso pai é um homem de personalidade forte, alcoólatra... Batia em nossa mãe... — Fiz uma pausa. — Não quero falar dele.
— Não precisa, se não quiser. — Kira me confortou.
— Um dia ele bateu em mim, não só bateu... — Fiz uma pausa para respirar fundo. — Ele me torturou. Peguei hipotermia e quase morri. O Ash ficou muito m*l com isso. Ele falou que não ia ficar esperando que nosso pai me machucasse outra vez e dessa vez conseguisse me matar. Então me ajudou a fugir. — Fiquei em silêncio.
— Por que sua mãe e o Ash não foram juntos? — Kira questionou.
— Meu pai desistiria depois de me procurar um pouco. Eu poderia viver uma vida tranquila e com muitas oportunidades, diferente das que eu teria se crescesse naquele lugar. Se nossa mãe fugisse, ao contrário de mim, ele nunca a deixaria em paz. Em outras palavras, a procuraria até no inferno. O Ash não quis deixar ela sozinha com ele, então ficou para protegê-la.
— Eu ia perguntar o motivo dela não ter divorciado, mas acho que não preciso perguntar. — Kira comenta. — E aquele homem que... — Se encolhe fazendo uma pausa dramática. — Aquele homem que me sequestrou por engano?
— Liam? — Assentiu. — Ele era meu namorado. Ele é filho de um traficante muito conhecido. Liam acha que eu fugi com outro.
— Ele sabe que o Ash ajudou você a fugir? — Kira questiona pensativa.
— Não. Ninguém sabe. — Comprimi os lábios.
— Como você se manteu? Como conseguiu alugar uma casa? Como conseguiu se alimentar? Sozinha... — Kira fez uma pausa dramática.
— O Asher roubou dinheiro do nosso pai, fui embora com uma quantia suficiente para escapar por uns anos. Subornei o diretor para me aceitar na escola sem nenhum responsável por mim. E também subornei outras pessoas, nem lembro quem são. — Achei que as perguntas haviam acabado.
— Quando o dinheiro acabou? — Kira quebrou o silêncio.
— No segundo ano do ensino médio. Não quero falar sobre isso. — Tentei fugir da conversa.
— O que você fez? — Fala pausadamente.
— Me prostitui. — Kira me olha horrorizada. — Não me orgulho, mas também não me arrependo. Foi horrível, senti muito medo de precisar fazer isso de novo para conseguir dinheiro agora.
— Kim, eu... — Kira ia falar algo, mas a interrompi.
— Não precisa falar nada, eu estou bem. — Saí andando em direção meu quarto.
Eu só precisava processar por alguns minutos, depois de relembrar tudo isso. Depois voltei para ajudá-la a caminhar em direção ao seu quarto.
Voltei para o meu. Olhei o celular e haviam muitas chamadas da senhora Lizzy. Retornei.
— Finalmente! Onde Kiria está? Por que não me ligou? Sua função é cuidar da minha filha! — Lizzy fala rude.
— Desculpa Tia Lizzy. Está tudo bem, ela estava cansada e não pôde retornar sua ligação. Ela havia ficado presa no banheiro da faculdade, o celular estava descarregado. Enfim, vou mandar uma foto dela dormindo para a senhora se sentir mais aliviada. — Falei o mais calma possível.
— Está bem, mande agora nesse exato momento. Estou aguardando. — Desligou.
Kira dormia feito um anjo. Na verdade, ela naturalmente parece um anjo. Ela é muito bonita, não tem como negar. Sentei na poltrona de seu quarto, acho que acabei dormindo.
No meio da noite ouvi gritos aterrorizados. O quarto estava sendo iluminado apenas por um pequeno abajur. Kira se debatia velozmente enquanto dava gritos de arder a garganta. Fiquei de coração partido ao ver seu estado. Ela deve ter tido pesadelo ou está com medo de ficar sozinha. Passei a noite inteira com ela.
Já passaram-se alguns dias. Kira estava em repouso, melhorando aos poucos. Eu peguei alguns dias de licença, estou faltando na faculdade e isso está me agoniando. A Kira está claramente traumatizada, e não tenho coragem de perguntar se estaria tudo bem para ela se eu voltasse à minha rotina normal.
Porém, também me preocupo em deixá-la sozinha aqui, e isso não vai acontecer. Jamais a deixaria se recuperando sozinha.
— Kimberly! — Ouvi Kira me chamar do seu quarto. Corri até lá.
— Fale.
— Me ajuda a tomar banho? Estou grudenta e não consigo aguentar mais. — Reclama fazendo uma careta.
— Ah, claro!
Caminhei devagar com ela em direção ao banheiro. Enchi a banheira e coloquei Kira dentro. Estávamos em silêncio, e isso me impulsionou a pensar no passado.
[...]
Já faziam uns 3 dias que meu pai não aparecia em casa. Isso podia significar várias coisas: sequestraram ele; o mataram; ele foi embora; ele está bebendo e farreando.
Eu sempre me sentia m*l por desejar que o motivo do seu sumiço fosse sempre um dos 3 primeiros motivos que citei. Eu sentia a necessidade de me ver livre dele, e sempre me perguntei se a mamãe e o Ash também sentiam. Pensar nisso me ajudava a amenizar a culpa que eu sentia.
Eu havia acabado de chegar da escola. Ainda era manhã e eu havia chegado mais cedo. Ninguém estava em casa. Ash estava, mas saiu logo quando cheguei.
Pouco tempo depois alguém começou esmurrar a porta, eu tinha medo de que se tratasse do meu pai. Infelizmente eu estava certa.
— Onde está sua mãe? — Pude ouvir a sua voz totalmente embriagada.
— Ela saiu, não sei onde ela foi. Ela saiu antes de eu chegar em casa. — Abaixei a cabeça quando ele me analisou dos pés a cabeça. Ele olhou meu uniforme escolar.
— Você ainda está insistindo com isso!? — Se jogou no sofá.
— Com isso o que?
— Você acha que tem alguma chance com escola, menina? — Fiquei calada tentando não deixar ele me desanimar. — Se enxergue, olha onde você nasceu. As pessoas vão te olhar torto, não vão querer dar oportunidades para você. E o Ash onde está?
— Saiu para jogar bola com o Dylan. — Abaixei a cabeça magoada. Queria provar que ele estava errado.
— Vai preparar minha comida. E vê se faz direito. — Assenti e fui em direção a cozinha.
Eu estava quase terminando quando ele apareceu na cozinha. Se aproximou da mesa. Puxou uma das cadeiras e sentou.
— Coloca minha comida no prato. Estou com fome. — m*l se equilibrava na cadeira.
Fiz o que ele pediu. Antes mesmo de conseguir caminhar até a porta ouvi resmungos da parte dele.
— Que p***a de comida sem gosto. Onde aprendeu a cozinhar m*l assim? — Cuspiu a comida toda no chão e bateu a mão na mesa me fazendo estremecer.
— Me... Me desculpa, se o senhor quiser eu posso preparar outra coisa. — Balbuciei com a voz trêmula.
— Ah sai daqui, deixa para lá. — Vociferou.
Fui para o meu quarto e me tranquei. Ele me chamou minutos depois.
— Vem assistir televisão com o papai. — Sua voz estava desorientada e forçava carinho. Eu tinha medo, então não consegui reagir. Depois de longos segundos ele chutou a porta me assustando. Olhei para ela percebendo que agora possuía uma enorme rachadura.
— Já estou indo. — Me retirei do quarto o acompanhando até a sala de estar.
Sentei ao seu lado no sofá. O cheiro de bebida e sua respiração forte estavam me deixando enjoada. Tentei inúmeras vezes fugir dalí, mas ele não me permitiu.
Minha respiração começou a acelerar e eu não conseguia mais segurar as lágrimas. Acho que meu pai percebeu e me abraçou. Senti algo estranho. Provavelmente se tratava de um afeto paterno pela primeira vez depois de anos.
— Não chora... — Sussurrava. — Não chora... Não pode chorar. — Continuava sussurrando enquanto me balançava em seus braços. Por mais que o cheiro de bebida e o seu mau cheiro me incomodasse, eu curti aquele momento enquanto durou. Não durou muito. Durou até o momento em que senti suas mãos passearem demais por meus ombros... Braços... Cintura... Quadris... Estava se aproximando das minhas coxas.
— Me solta, por favor. — O empurrei levemente.
— Volta aqui. — Ele me puxou de volta contra o sofá com uma força desnecessária. Nunca vou esquecer da sensação de tê-lo em cima de mim, me beijando e me tocando.
Reuni todas as minhas forças e o empurrei. Como ele estava muito embriagado foi fácil.
Ele correu desajeitado até mim. Eu fugia dele e ele corria atrás de mim atirando tudo o que tinha em sua volta ao chão. Parecíamos Tom e Jerry. Tudo o que eu fazia era chorar, correr e tentar regular a minha respiração.
Ele acertou algo em mim e acabei caindo. Logo em seguida, senti vários golpes nos quais não conseguia me defender. Depois de um tempo ouvi uma movimentação estranha. Abri os olhos e vi meu pai atirando todos os seus litros de bebidas alcoólicas que estavam em seu enorme freezer ao chão.
Ele se aproximou de mim e me arrastou desajeitadamente em direção ao freezer. Comecei a me debater e gritar, mas ele era mais forte que eu. Ele chutou meu rosto. Abriu o freezer e me pôs lá dentro.
— Pai, por favor. — Gritei aos prantos. — Não faz isso comigo... Alguém me ajuda! — Gritei na esperança de alguém me ajudar. Inútil. — Você está fora de si, você não quer fazer isso. — Falei enquanto lutava com ele para não fechar a porta daquele congelador gigante. Mas não obtive sucesso.
Passei vários minutos me debatendo lá dentro na esperança de conseguir abrir, ou meu pai se arrepender e voltar atrás. Isso nunca aconteceu.
Depois que meu pai me colocou dentro do freezer, ainda demorou uma eternidade para me encontrarem, me encontraram desacordada. Quase morta. Mamãe me tirou de lá com ajuda do Ash, e me deu um banho quente. Me colocou na cama e me cobriu com a coberta mais quente que tínhamos.
— Você está bem? — Foi a única coisa que falou desde que me encontrou quase morta.
— Estou. — Falei trêmula por causa do frio.
Ela simplesmente me deu um beijo e saiu.
Depois que minha mãe me colocou na cama chorei tanto que meu travesseiro ficou encharcado, e era impossível conseguir dormir assim. Se passaram algumas horas e Ash entrou no meu quarto. Ele trancou a porta e deitou ao meu lado, me abraçando e formando uma concha. Sua pele estava tão quentinha que relaxei.
— Seu travesseiro está encharcado. — Pensou alto. Logo em seguida, o puxou tirando debaixo de minha cabeça, e substituiu o meu travesseiro por o dele que havia trazido com ele. Apoiou sua cabeça em meu travesseiro molhado. Me acomodei ainda mais.
— Se te verem aqui irão brigar com você. — Quebrei o silêncio.
— Ele fez mais alguma coisa além de colocar você naquele freezer? — Ash questiona com voz de choro.
—Não vou mentir para você. Ele me tocou. Não fez nada de mais grave, mas ele me tocou, e eu vou demorar muito para esquecer a sensação que senti. — Uma lágrima escorreu do meu rosto.
— Você está sentindo alguma dor? — Ash pergunta preocupado depois de alguns instantes em silêncio.
— Sim.
— Onde dói? — Questiona atordoado.
— Meu coração dói.
— Eu vou te proteger dele e ele nunca mais vai tocar em você. Eu prometo. — Ash começa a chorar e logo o acompanho. Choramos muito enquanto estávamos abraçados.
Por mais que eu tente, nunca vou esquecer dessa madrugada caótica.
[...]
Meus olhos marejaram, e acabou escorrendo uma lágrima por minha bochecha. A limpei com as costas da mão.
— Eu vou trabalhar esse final de semana. — Afirmei enquanto penteava os cabelos de Kira, que estava de costas para mim. — A Ginna vem ficar com você, não se preocupe. — Ela parece um pouco triste. Talvez ela quisesse a presença de outra pessoa, como eu suspeitei. Ou talvez ela esteja apenas triste, pois, mesmo depois de tudo, a vida continua.
— Você precisa voltar para a faculdade. — Falou baixinho, quase inaudível.
— Eu sei. A Ginna e o Robby não poderiam ficar enquanto estou na faculdade, pois, eles também precisam estar lá.
— Se não tiver ninguém para ficar comigo, você pode me deixar sozinha.
— Claro que não, Kira. Você precisa de alguém para te ajudar. Você m*l consegue andar.
— Para isso tem a cadeira de rodas. — Retrucou.
— E como você vai descer as escadas com ela? — Não tive resposta. — Foi o que eu pensei.
— Mas quem poderia cuidar de mim!?
— É... Ah, o que você acha do Ash? — Questionei receosa. — Não que ele seja uma opção para ser seu cuidador. Mas ele pode convencer alguma moça.
— Está brincando comigo? — Ironiza virando-se para mim. — Não consigo confiar nele.
— Ele é meu irmão Kira. Eu confio nele e você pode confiar em mim. — Nos encaramos por longos segundos. — Você não confia em mim? — Kira descansou o pescoço.
— Você escondeu de mim os segredos do seu passado. Eu fui sequestrada e vítima de violência no seu lugar. — Direcionou seu dedo indicador em minha direção. — E o pior, eles nem vão ser punidos pelo que fizeram comigo.
— O Ash me prometeu...
— Não do jeito certo, Kim. — Me interrompeu. — O que eu ganhei por confiar em você? — Uma lágrima caiu de seu olho. — Eu não consigo dormir tranquila. Nada me assegura de que, no meio da madrugada, alguém perigoso não vá invadir meu apartamento por sua causa.
— Seu apartamento? — Dei passos para trás. Suas palavras foram indigestíveis para mim. Ainda procuro fôlego para não me afogar com tantas verdades. — Você... Você quer que eu vá embora? — Questiono baixo e pausadamente.
— Não foi isso que eu quis dizer. — Se defende parecendo arrependida. — Eu não quis falar isso. Falei da boca para fora.
— Você não quis falar. Mas se falou é porque pensa assim. — Saí andando enquanto sentia minha garganta arder. Precisava espairecer.
— Kim, não quero que vá embora. — Kira fala manhosa. Apenas ignoro.
Não estou com raiva dela. Não vou abandoná-la, não sou assim. A Kira precisa de um tempo, e eu também preciso.