Peguei um Uber até próximo da comunidade, tive que ir andando até lá, pois Uber não aceita ir até a favela.
Assim que comecei subir o morro, parecia que tudo havia voltado, me senti vulnerável, de repente eu voltei a ser aquela garotinha sofrendo vorazmente nas mãos do próprio pai.
As pessoas me encaravam com olhares indecifráveis, pareciam ser de pena, surpresa, choque... Depois de anos, essas reações não me surpreendem.
Provavelmente todos já estavam sabendo sobre minha visita, eles deviam estar a minha espera, as notícias voam rápido aqui. Ouvi um barulho de moto vindo em minha direção, meu coração acelerou, eu senti saudades disso. Um homem, que acredito ser Dylan, para ao meu lado.
— Aceita uma carona? — Ele sorri um tanto animado.
— Não sei se eu deveria aceitar carona de um desconhecido. Eu aceitaria do meu melhor amigo Dylan, mas ele é um menino, e você é um homem. — Ironizei. Ele riu. — Ela está bem? Devo me preparar com o que vou ver quando chegar lá? — Falei séria. Me referi ao estado de Kira, geralmente quando sequestram uma pessoa aqui. Ela não escapa com vida, e quando escapa é a beira da morte.
— Relaxa. Trataram ela como iriam tratar você. — Dylan afirmou enquanto subi na moto. Ele confirmou minha teoria, pegaram a Kira achando que seria eu. Depois de tantos anos, acharam que algumas diferenças de aparência eram normais. Eu literalmente mandei a Kira se passar por mim para o Uber.
— Eu sei. Não sei se fico feliz ou preocupada. —Quem foi? Não acho que o Ash teria ido atrás de mim, e nem mesmo permitiria que nosso pai tentasse. — Questiono enquanto ele acelera velozmente.
— Foi o Liam. Ele ainda está obcecado por você. — Não falo mais nada. Sinto meu estômago revirar, esse homem é doente.
Não que eu pretendesse nunca voltar, mas nunca me imaginei passando por essa porta novamente. Abri a porta e caminhei lentamente por aquele corredor enorme. Sempre odiei esse lugar, é um tipo de depósito onde armazenam e embalam alguns pacotes, contrabandem armas. Esse lugar fede.
Vi vários homens e adolescentes, mas não vi Ash. Parei e os encarei, todos me lançavam um olhar de curiosidade.
— Vem comigo. — Dylan passa a mão em minha cintura e o acompanho. Chegamos em uma sala, quando entrei vi apenas Ash sentado com seu celular na mão. Não sei descrever a forma como me senti, eu resumo em saudade.
Ash já é um homem, ainda tem cara de filhinho de papai e que não toma sol há séculos. Me aproximo e nos encaramos por longos segundos, meu coração aperta e sinto vontade de chorar, de correr e o abraçar, com tanta força até seus ossos quebrarem. Mas não vou.
— Onde Kira está? — Quebro o silêncio. Ele me olha decepcionado e balança a cabeça, analiso a sala com o olhar e encontro Kira encolhida em um canto qualquer. Corro em sua direção e a abraço, um abraço ainda mais desejado quanto o de Ash.
Sinto que vou chorar, mas não choro, eu não posso. Tudo o que ela deve ter passado foi por minha causa, e eu nunca vou me perdoar. Mexo em seu cabelo a procura de seu rosto, mesmo sem ver seu rosto é percebível o quanto ela está machucada, seu corpo mesmo encolhido revela muitos hematomas.
— Como você está? — Questionei. Ela finalmente me olha e não exita em me abraçar.
— Desculpa. — Fala chorosa e ao mesmo tempo rouca. Seu rosto está cheio de hematomas e curativos. Ash provavelmente colocou esses curativos para me agradar.
— Por o que? Eu que devo pedir desculpas.
— Eu entreguei você para eles. — Olho para ela que parece envergonhada.
— Eu teria feito a mesma coisa. — Curvo levemente os lábios tentando sorrir. — Não fez diferença, não precisa se desculpar. Já haviam me encontrado. — Levanto e vou na direção de Ash que me observa atentamente. — Como que deixou isso acontecer? Era para ter sido eu, e você simplesmente permitiu.
— Qual o seu problema!? Eu não sabia. Ou você acha que o Liam ia me manter informado dos planos dele? — Ironizou.
— Você tem controle de tudo o que acontece nessa merda, você poderia ter impedido. — Falo tentando não chorar ou desbravar minha raiva.
— Acredite no que quiser. — Ironizou voltando para o celular.
— A polícia rastreou a merda da ligação. — Esbravejei. — Que merda de apartamento é esse que está no meu nome?
— Eu comprei ele pra te trazer de volta e você morar nele. Comprei para você há um tempo. — Ash se defende. — Era perfeito pra polícia rastrear. Iam acreditar que estava tudo bem.
Apenas o encaro. Meu peito arde de tristeza por as coisas serem assim. Mas o tempo não volta mais, e as circunstâncias estragaram tudo.
Sou muito grata a ele. Por tudo que ele fez por mim, apesar de tudo.
— Obrigada Asher. — Falo quase em um sussurro.
— Só se certifique que não vai dar problema com a polícia. — Sinto no tom de Ash que ele também sente o mesmo que eu.
Tenho curiosidade em saber o que aconteceu com papai e com a mamãe. Onde estão? O que aconteceu com eles? Mas não posso me envolver novamente. Ash me ajudou fugir do nosso pai há anos, não posso deixar que ele me aprisione depois de anos. Só corri esse risco por Kira.
[...]
— Filho leva sua irmã para o quarto e se tranquem, e por favor não saiam por nada! — Minha mãe falou desesperada, dava para ouvir sua respiração de tão ofegante. Eu conseguia sentir o pavor em sua voz.
— Mas por que mamãe? — Ash questionou. Nunca vou esquecer da sua voz fininha por ainda ser uma criança.
— Não faça perguntas apenas vá, rápido! — Ela nos apressa quando meu pai abre a porta e entra.
Eu apenas obedeci e corri para o quarto com Ash. A gente se abraçou bem forte enquanto ouviamos nossos pais discutindo, quando ouvi gritos me apavorei...eram da minha mãe.
— Kim, tranca a porta quando eu sair. — Ash fala em meio aos gritos de mamãe e fico sem entender.
— Você vai lá? O papai deve estar bêbado! — Eu sentia pavor do papai, mas quando ele estava bêbado eu ficava umas 4 vezes mais apavorada.
— Vai ficar tudo bem! Anda fecha a porta. — Ash saiu andando e fechei a porta.
Ouvi gritos e mais gritos misturados com o som de coisas quebrando. Me encolhi e tapei os ouvidos muito forte, achei que minhas mãos esmagariam meu crânio de tanta força que eu tentava abafar aqueles gritos.
Papai quebrou a mão. Mamãe saiu com poucos arranhões. Ash ficou muito machucado. Porém, nunca vou esquecer ou deixar de ficar orgulhosa. Papai passou semanas com o rosto cheio de hematomas, mas nada comparado ao estado de Ash. Mas tenho certeza que até ele mesmo ficou orgulhoso do meu irmão mais velho.
[...]
— Vai ficar me encarando por quanto tempo? — Ash questiona com desdém.
— Eu preciso conversar com você, mas agora não dá. Me passa seu número de telefone, vou ligar para você. — Ele assente.
Caminhei até Kira. Abaixei um pouco e a puxei para cima.
— Vamos. — Sussurrei. — Kira m*l conseguia ficar de pé. — Eu espero sinceramente que você tenha punido os malditos que fizeram isso com ela. — Encarei Ash.
— Não se preocupa. A Ava já cuidou de tudo. — Ele nos encara enquanto eu tento caminhar com a Kira. — Como pretende ir pra casa?
— De Uber é óbvio.
— Você tem um carro. Comprei um e coloquei no seu nome, leva ele. — Ash sugestiona.
— Cadê a chave? E o carro também. — Me rendo. Vai ser impossível descer o morro com a Kira nesse estado. Ela está parecendo gelatina. E ganhar um carro novo para me locomover não era r**m.
Retornamos para casa. A Kira não falou qualquer palavra até chegarmos em casa, e continuou a não falar.