Capítulo 10

2603 Words
Valentina Matteo é meio estranho. Foi a primeira coisa que pensei enquanto a ex dele caminhava até a portaria do prédio para me entregar o Léo, ela iria viajar de última hora e numa estranha cortesia perguntou se Matteo não queria ficar com Léo e por isso que aqui estou eu em um domingo à noite, completamente embasbacada ao perceber que a mulher é assombrosamente parecida comigo, ou eu com ela, só posso dizer com certeza quando descobrir quem ele conheceu primeiro, ela ou eu. Ela parou para conversar com um porteiro e a analisei mais friamente, o cabelo era um pouco diferente, o dela era liso e meio ondulado e o meu era cacheado, mas a altura, o tom da pele era parecido embora ela estivesse mais bronzeada e o corpo... o corpo dela era dos sonhos, barriga chapada, coxas torneadas, b***a grande, s***s redondos e provavelmente siliconados de tão perfeitos que eram, ela estava exalando elegância num conjuntinho de academia verde e creme, usando um agasalho tão fino que podia notar os m*****s proeminentes, ela se despediu do porteiro e veio em minha direção enquanto ele segurava a porta para ela passar com um sorriso idiota... Homens. — Boa noite! Você deve ser a Valentina? — Boa noite, eu mesma. — Não consegui sorrir, a semelhança entre nós era estranha demais, mas se ela percebeu fingiu muito bem, Léo ganiu chamando minha atenção e me abaixei para cumprimentá-lo, ele lambeu meu rosto e sorri. — Ele já comeu? — Ah, não. O vermífugo dele vence amanhã está. — Ok. — Disse em meio aquele clima estranho. Ela me estendeu a guia e percebi olhando de perto que havia algumas diferenças, meus olhos eram mais redondos e a boca menor e mais delineada já que a dela tinha aquele inchaço excessivo característico de lábios com preenchimento e o nariz dela era ligeiramente mais afilado e arrebitado, naturalmente bonito embora não combinasse muito com os lábios cheios. — Tchau garotão! Léo não deu muita atenção, ela sorriu com simpatia e me despedi. — Tchau, boa noite! Me virei com a estranha sensação de que ela me observava, coloquei Léo no carro e olhei disfarçadamente, ela ainda estava na portaria, me olhando e percebi que não estava sorrindo, mas sim me fuzilando com o olhar, o acomodei no banco de trás e fechei a porta, louca para me afastar dali o mais rápido possível. Quando chegamos em casa ainda estava em choque, troquei o mínimo de palavras possível com Matteo e peguei algumas coisas com a desculpa de que precisava dar uma olhada na minha casa, ele ficou confuso já que faz poucos dias que fui lá, mas não questionou nada, peguei as chaves e fui embora, precisava marcar um café com alguém que trabalhou comigo no meu antigo emprego, urgentemente. ... Marcos tinha razão, eu sou uma fracassada. Não dei início a pós-graduação, sinceramente perdi exponencialmente interesse na área em que me formei meses depois da formatura e minha vontade de procurar algum emprego relacionado está com saldo negativo, talvez fosse só uma fase depressiva, mas eu simplesmente não consigo resgatar aquela paixão que me fez concluir a graduação, em vez disso a cada vez que entrava na internet buscava coisas que ocupassem minha mente de uma forma que não desse brecha nem mesmo aos pensamentos intrusivos, coisas como... compras de Livros e de outras coisas que dificilmente irei consumir nos próximos 10 anos. Mas em defesa dos livros, eles me dão uma felicidade passageira, me distraem do caos da minha vida para que eu vivencie o caos dos personagens, o caos de algo que é muito mais fácil de resolver, bem, exceto a vida de Aelin Galathynius, essa se ferra em seis livros e só se dá bem no final do sexto, mas como não posso queimar ninguém com o fogo de Mala, a corrida me ajuda a cuidar da minha saúde mental e do físico, dizem que correr libera substâncias químicas que deixam o nosso cérebro embriagado e nos dá a sensação de satisfação, vitória, talvez eu não passe apenas de uma viciada que não consegue achar esse droga da felicidade no quotidiano e uso a corrida como válvula de escape, talvez, mas quem liga? Então eu corro, no início foi para passar o tempo e ficar exausta o suficiente para dormir a noite inteira depois de um dia de trabalho, depois foi para ter aquele upgrade pós-término e fazer Marcos se arrepender amargamente pela traição, mas agora corro pela química, para sentir aquela sensação de vitória, é ótimo e estou viciada, ajuda a esquecer minha vida deprimente, ajuda a emagrecer e a cuidar de mim, e limpa a minha mente. Porque quando os meus tênis batem no asfalto... Tap, tap, tap... não há uma loira bonita gemendo. Tap, tap, tap, não há pessoas no telefone me cobrando dividas que não fiz sozinha. Tap, tap, tap, não sou uma mulher traída e infeliz que não consegue se motivar a arrumar um emprego na área em que passou quatro anos estudando. Eu só me concentro em respirar e manter o ritmo do meu corpo em movimento, eu tenho um salário decente agora apesar de ele estar sendo comido pelas dívidas, mas minha vida amorosa está uma merda, eu não confio nos homens, não que tenha candidatos fazendo fila na porta da minha casa, para isso eu teria de sair e conhecer pessoas e não vale a pena, de qualquer forma, não confio nos homens e acho que nunca mais confiarei, poderia virar lésbica!? Mas as mulheres são mais inteligentes que os homens, então, isso não me livraria do chifre, apenas me impediria de saber. Sigo a curvatura acentuada da rua, encontro outra moradora, nos cumprimentamos rapidamente e voltou a minha velocidade habitual quando sua aparência me faz lembrar de Andressa, meus pensamentos sempre voltavam a Andressa, m*l dormi com mil pensamentos rondando minha mente, será que Matteo se envolveu comigo por que sou parecida com ela? Não pode ser, se isso começou quando trabalhávamos na multinacional, foi antes de ele conhecer Andressa, mais de dois anos atrás e se ele se envolveu com ela por que ela é parecida comigo? Meus pensamentos estavam incoerentes, resolvi que era hora de parar de correr e ir para a casa dele. As vantagens de trabalhar perto de casa é que venho caminhando, não tenho que dirigir, mas Matteo me obriga a usar o Hb20 até pra comprar pão, quando ele vender será um Deus nos acuda andar para cima e para baixo na maldita Evoque, mas independentemente de quando estou na casa de Matteo ou quando estou na minha casa, acordo cedo, faço minha corrida, volto para o trabalho, uso o chuveiro dele , não o dele, mas o do banheiro dos empregados, que ainda é dele, mas não é o que ele usa, tomo banho, me visto, preparo o café da manhã e início nosso dia me sentindo um pouco menos medíocre. A corrida ajuda, bom, depois de correr 10 km sem ter uma parada cardíaca é difícil deixar se abalar por outras coisas, quer dizer, o que mais pode acontecer? Eu pensei que ia morrer nos primeiros 10 minutos da minha corrida e isso antes das 07h da manhã, o resto é fichinha. Passei a acordar ás 04h, tomo café e dou um jeito na casa o que exige pouco de mim já que Matteo é muito organizado, ás 05h15 saio para correr, ás 06h retorno e preparo o café da manhã, saímos de casa às 06h45 e chegamos às 07h30 na academia, eu o deixo lá, faço algumas fotos quando necessário, quando o treino acaba se ele não tiver nenhum compromisso agendado voltamos para casa e dou início ao meu dia, participo de reuniões via chamada de vídeo, resolvo pendências com os funcionários que gerenciam o hotel, organizo a casa e a vida do bodybuilder mais conhecido do país. Ele paga diarista, mas organizo as roupas no closet, jogo água nas plantas, cuido do Léo quando ele está conosco, recebo encomendas e pago as contas, cuido da comida, eu comecei a gostar de cozinhar desde então, apenas peguei a dieta das nutricionistas e implementei na rotina dele, no começo achei que não conseguiria, mas depois tudo se ajeitou e agora eu mesma preparo a comida semanal e deixo as marmitas preparadas para o fim de semana em que não estou com Matteo. Ele é fácil de conviver, é organizado, metódico é o termo que se encaixa melhor, às vezes me pergunto mesmo se ele é homem, mas vai ver eu só me envolvi com o homem errado que não representa o resto da espécie, não gosto de pensar nisso, na verdade evito tais pensamentos por que comparar qualquer homem que conheci ou poderia conhecer com Matteo é injusto, desproporcional, Matteo é incomparável. E eu passo muito tempo com ele, recolho o lixo do cara, lavo as roupas, tenho acesso ao extrato bancário e ao histórico de saúde, a coisa mais próxima de um palavrão que ele chegou a dizer foi babaca. Sinceramente minhas suspeitas por ele só aumentam, quem usa babaca para ofender alguém? Esse é o tipo de ofensa que precisa de complemento, babaca escroto, babaca insensível, babaca arrogante e por aí vai, mas não, ele simplesmente disse um dia quando estávamos voltando para São Paulo no fim de semana passado "Aquele babaca te fechou." e depois quando ele terminou de ler A Muralha de Winipeg ele comentou que Aiden era um babaca, um babacão. Francamente, alguém que xinga assim não pode ser perigoso, não é? Já estou de banho tomado quando começo a preparar o café, sorrio quando a água começa a ferver, passo o café e coloco na garrafa, como uma deixa Matteo sai do corredor farejando o ar como um cão farejando petisco. — Você não tem ideia de como o cheiro do seu café é maravilhoso. — Ele sorri daquele jeitinho tímido encantador e quase derrubo a chaleira cheia de água quente destinada ao meu chá diurético por ser pega de surpresa. — Bom dia! — Bom dia. Em defesa do café o cheiro dele em geral é maravilhoso, não tem nada a ver comigo. Sorrio modestamente e ele me lança um olhar brando de censura. — Valentina. — Está bem— Digo com uma arrogância ensaiada que funciona muito bem nessas ocasiões, e assim acaba a estranheza entre nós e meus pensamentos desconfiados são afastados. — Eu sou uma barista profissional e meu café é capaz de levar qualquer um ao paraíso. — Gracejo com desdém e ele bufa. — Banana ou morangos? — Pergunta ao abrir espaço na bancada para preparar a nossa porção de frutas, iogurte natural e whey, ele nem pergunta mais se quero ou não, apenas me pede para escolher e isso está me deixando m*l-acostumada, por que quanto melhor ele me trata menos quero ir embora ou me afastar desse trabalho. — Banana, por favor. Ele assente e começa a picar as frutas em duas tigelas, tomo rapidamente meus 200ml de chá, faço crepioca para nós dois e sirvo os pratos, ele coloca uma tigela de frutas acrescenta aveia para cada um e puxa uma cadeira para mim, sorrio ao me sentar ao seu lado, isso também se tornou comum, estava virando hábito e para mim isso era perigoso. — Então, quantos quilômetros fez hoje? — Dez. — Respondo orgulhosa. — Essa é a minha garota. Ele sorri com satisfação e uma pitada do que parece muito com orgulho, e quase ronrono de prazer, gosto quando ele me elogia, Matteo tem me incentivado desde que comecei a correr, sempre me dá apoio, mas sem me condenar, sem me ferir ou me fazer sentir m*l com meu próprio corpo, a prova disso é que em 25 anos ninguém conseguiu me convencer a frequentar uma academia, é impressionante como você pode mudar depois de ser reconhecida por seus esforços. E agora aqui estou eu, comendo uma gororoba de banana com aveia e whey, tomando café sem açúcar, de camisão, legging e tênis pronta para iniciar minha humilhação na academia em que ele é sócio, apenas mais um benefício de trabalhar com ele, foi o que Matteo disse quando questionei o agendamento da avaliação na academia. Sorrio e devoro aquela mistureba assombrosamente gostosa. ... Tentei não ficar constrangida, de verdade, mas quando o rapaz da avaliação me pediu para tirar a camisa para pegar minhas medidas titubeei, uma coisa que nunca gostei nas academias era que tudo era muito transparente e havia espelhos em todo lugar, era um ambiente opressivo por si só e me lembrei o motivo de nunca ter permanecido em nenhuma, a sala de avaliação precisava mesmo ter uma parede de vidro? Sério? Tudo bem que isso poderia ser para prevenir assédio, mas cara, eu não queria ninguém olhando para meu excesso de banha. Suspirei, lá embaixo vi os olhos aguçados de Matteo, a sala de avaliação ficava no primeiro andar e tinha vista para toda a academia, ou seja, todos podiam me ver, me virei de costas e tirei a camisa, tentei não pensar em nada enquanto o avaliador tirava minhas medidas, me pesava e fazia outras coisas que não entendia. — Muito bem, qual seu objetivo? Emagrecer mais? Construir mais massa muscular? Ter um shape slean, atlético ou robusto? O encarei sem entender, do que diabos ele estava falando? — Ele quer saber no que você quer focar para montar seu treino. Ah, isso. Me espantei quando Matteo apareceu, ainda estava de top e legging, mas seus olhos não desgrudaram do meu rosto e parte de mim ficou um pouco incomodada, ele flerta comigo abertamente a maior parte do tempo, mas quando estamos a sós ou com vestimentas escassas ele sempre recua, como lá em Olímpia, por quê? — Sinceramente eu só quero sair do shape de botijão. Nenhum deles riu, e me perguntei o motivo, Douglas pigarreou e continuou de maneira profissional como se não tivesse sido interrompido. — Olha, Valentina. Você emagreceu nove quilos em dois meses, recomendaria um treino básico de musculação, dois dias de superiores, dois dias de inferiores e um dia de funcional, cardio sem muita intensidade. No estágio em que está não vai mais queimar gordura e sim massa muscular, portanto tem que ajustar a dieta e aumentar seu metabolismo basal para queimar a gordura que ainda quer perder, mas não recomendo que emagreça muito mais que isso, conforme começar a ganhar a massa vai perceber que o peso não é tão importante. — O quê? Como assim? — Eu diria que você ficaria ótima com 60 ou 62 quilos. — A deita dela está ajustada, ela já passou com a Janaina. — Ótimo. O que me diz então? Quantas vezes pretende treinar por semana? — De 4 a 5 mais ou menos, tenho que vir com Matteo de qualquer forma. — Excelente, vou montar seu treino. Essa semana será apenas uma adaptação, vai ser dureza e sentirá dores musculares intensas, mas com o tempo você começa a valorizar isso. Valorizar a dor? O pessoal que faz academia realmente tem um parafuso a menos, sorri quando vi o olhar satisfeito de Matteo, me vesti enquanto Douglas imprimia uma folha com minha ficha de treino, ele me entregou e Matteo se aproximou para dar uma olhada e soltou um murmúrio satisfeito. — Vem, vou te levar até os aparelhos e te apresentar ao pessoal. Disse com uma empolgação que me fez rir, percebi que Douglas me observava e dei um tchauzinho que o fez pigarrear e endireitar os ombros antes dele acenar de volta.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD