Valentina
Enquanto a Evoque devora os quilômetros de estrada a frente, me regozijo no sentimento de satisfação, há alguns meses estava presa em um estacionamento no pior dia da minha vida, sem conseguir dirigir direito, sem emprego e sem noivo, nem em mim anos acreditaria que dirigir me traria tanta satisfação, havia começado a me sentir bem atrás de um volante, minhas saídas de carro passaram a ser o grande evento do meu dia, eu me sentia bem.
Era como se eu tivesse controle da minha vida, e dirigir numa rodovia... eu não me achava capaz de fazer isso, e dirigir com alguém ao meu lado? Sempre tive dificuldades e essa era uma razão para nunca dirigi o carro do Marcos, não que ele tenha deixado em nenhuma vez que pedi, mas sabia que no instante que ele sentasse ao meu lado faria tudo errado, mas Matteo me passava confiança, segurança, ele estava atento á tudo, mas de maneira relaxada, continuava lendo mas sabia que ele puxaria o volante se visse que eu estava invadindo a contra mão, não que eu cometesse esses erros básicos, ainda ficava nervosa em subidas íngremes e para estacionar em vagas particularmente estreitas, mas no geral dirigia bem e era atenta.
Havia muitas coisas que me atraíam em Matteo, naturalmente ele me atraía fisicamente, mas sua postura viril era realmente meu ponto fraco, suspirei, disse a mim mesma que era capaz de manipulá-lo, mas a cada vez que pensava mais sobre o assunto eu percebia que isso não era completamente verdade, meu celular vibrou novamente, outra ligação, Matteo o pegou no porta objetos entre nós, olhou a tela e grunhiu.
— É aquele babaca de novo. Deveria trocar de número ou bloquear ele.
— Faça isso;
— O quê?
— Bloquei o número, estou dirigindo.
Vi de esguelha o sorriso satisfeito em seu rosto, ele colocou o celular de volta e continua sua leitura, mas o sorriso ainda estava em seu rosto quando conduzi o carro para os últimos quilômetros da nossa viagem.
...
O resort era fenomenal.
Estava boquiaberta enquanto conduzia o carro pela estrada de barro em direção ao 2° investimento mais caro do meu chefe, ainda se via algumas construções inacabadas, mas o complexo em si, as duas torres de acomodações dos hóspedes estavam prontas e ao fundo as cores alegres dos tobogãs e piscinas, me deixaram com uma euforia nostálgica.
— E então, o que acha?
— É lindo, no verão esse lugar deve bombar! — Comentei empolgada enquanto estacionava em uma das vagas a sombra da primeira torre, desci do carro e olhei ao redor. — Quem sugeriu a parceria?
— Não é mais uma parceria, depois dos seus relatórios resolvi participar ativamente, agora sou sócio atrás apenas do majoritário. — O encarei espantada e ele sorriu ao olhar o lugar. — Sempre gostei de parques aquáticos.
Justificou enquanto descia e me dava minha bolsa e minha jaqueta jeans, fiz menção de abrir o porta-malas e ele me impediu.
— Depois peço pra alguém vir pegar nossas malas. Vem, vamos conhecer o lugar que vem sugando meu dinheiro no último mês. — Disse me estendendo a mão.
Era curioso o fato de eu simplesmente não ter aceito a mão dele?
Me pareceu um gesto não natural e não pensei a respeito, mas ele pareceu incomodado e não acontecia isso todos os dias, era a primeira vez, geralmente ele reagia de forma impassível a quase tudo e só me dei conta de que ele estava flertando abertamente quando ele colocou a jaqueta jeans em meus ombros e sua mão enorme e quente pousou em minha lombar quando entramos na recepção praticamente finalizada e para receber os hóspedes, o corpo de funcionários que fiscalizavam a instalação de um lustre enorme nos olharam curiosos.
Parecíamos um casal moderno de férias, exceto que não estávamos de férias e nem éramos um casal, tentei me afastar de sua mão sutilmente, mas o calor era bem vindo, ele me conduziu até o balcão onde um homem robusto de polo branca conversava com uma das funcionárias
— Valdir! — Cumprimentou animadamente, estranhei o tom íntimo, mas o homem se virou e sorriu largamente ao nos ver.
— Matteo! Chegou cedo, esperava você às 17h!
— Pois é, a minha motorista tem pé pequeno, mas é pesado que nem uma bigorna! — Disse apertando a mão dele sem desgrudar de mim.
— Ah, é a essa linda moça a quem devo agradecer pelos relatórios impecáveis?
— A própria. Valentina, esse é o Valdir, meu mais novo sócio.
— Muito prazer, sou a Valentina. O lugar está fabuloso, tudo pronto pro show amanhã?
— Ah sim, estão montando o palco numa área aberta perto da entrada do parque, podemos ir lá ou preferem descansar hoje e deixar tudo pra amanhã?
Matteo me estudou por um tempo, estava quase saltitando de empolgação para ver o lugar sobre qual investi grande parte do meu tempo no último mês digitando relatórios e agilizando tramites de divulgação com a esquipe de marketing, então ele estreitou os olhos e sorriu provavelmente adivinhando meus pensamentos.
— Vamos fazer um tour pelo lugar, amanhã tratamos das pendências.
...
O lugar era imenso, havia várias piscinas aquecidas, numa delas havia um bar molhado, outras tantas sem aquecimento, adultas e infantis, com ondas e sem e havia muitas Jacuzzis com dosséis espalhadas nos gramados entre as piscinas, como se fossem um refúgio do frio na atual situação, o palco já havia sido montado, uma banda conhecida inauguraria o local amanhã, os hotéis eram separados por apartamentos e não em quartos, alguns duplex e os do prédio B eram todos tríplex, totalmente mobiliados para acomodar famílias, o lugar era simplesmente fabuloso e a julgar pela infraestrutura não sairia barato se hospedar ali.
Matteo fez alguns apontamentos superficiais e o que era para ser um tour virou uma vistoria, quando acabamos já estava perto das 21h.
— Bem, me alonguei mais do que queria. — Matteo disse em tom de desculpa. — Pode pedir para alguém levar nossas malas até a cobertura?
— Tem cobertura? — Perguntei impressionada, Valdir trocou um olhar cúmplice com Matteo.
— Apenas quatro, duas em cada torre. Mas apenas duas serão comercializadas, as outras são habitações especiais destinada aos sócios. Me acomodei em uma já que a minha mulher me expulsou de casa na reta final do projeto— Sorriu e decidi não levar a sério sua expulsão já que provavelmente ela seria temporária. — E preparei a outra para vocês, espero que não se importem, há três quartos em cada uma.
— Não se preocupe, não usarei o cliché de "só tem uma cama." — Matteo cochichou no meu ouvido e congelei no lugar incrédula. — Valentina já praticamente mora na minha casa em São Paulo, ela não se importa em dividir um apartamento não é, querida?
— Claro que não, o Sr. Valdir disse que tem vários quartos. — Justifiquei, mas o homem deu um sorriso cúmplice a Matteo.
— Ótimo. — Matteo concordou. — Vamos nos acomodar então, até amanhã Valdir!
Nos despedimos e fomos para o elevador, ele subiu zunindo, mas não parecia rápido o suficiente e nesse meio tempo me ocupei em responder e-mails e mensagens enquanto tentava ignorar a tensão entre mim e Matteo, o que deu nele? Ele não era muito de flertar descaradamente e fazer isso sem que suas orelhas pegassem fogo? Meu Deus, fiquei tão chocada que nem reagi, e agora estava aqui digitando furiosamente no celular porque por alguma razão que não conseguia explicar o contato da mão dele em minhas costas estava me deixando nervosa, quando foi que um homem conseguiu me afetar com tão pouco?
O gesto me deu arrepios e frio na barriga, um desconforto que me fez perceber que estava com fome e se eu estava, Matteo também.
— Acho que sobrou alguns sanduiches com patê no cooler...
— Não se preocupe, posso pedir para levarem algo para gente.
— Ah, ok.
As portas se abriram, ele passou um cartão na porta e fiquei pasma quando entramos na cobertura ampla, havia um sofá creme no meio de uma sala ampla, logo depois havia imensa porta de vidro que dava para uma sacada e lá tinha uma Jacuzzi, fui até lá, o lugar era trabalhado em madeira escura para passar a ilusão de ser um deck, fui até o parapeito do lado oposto e observei ao longe as luzes da rodovia e mais á frente as luzes da cidade, era uma boa visão, mas o vento não me permitiu ficar muito tempo e olhei com pesar para a Jacuzzi vazia, seria ótimo uma hidromassagem quentinha...
— Posso encher se quiser
Disse ao se aproximar para olhar a vista, o estudei por um momento tentando saber se ele estava falando sério, ele me olhou de volta, p***a ele estava falando sério... então por isso ele havia me pedido para colocar um biquíni na mala, espertinho.
— Adoraria se não for te incomodar. — Disse sem nenhuma vergonha na cara, o correto seria recusar, mas por que eu não deveria aproveitar as regalias do meu emprego?
— Não, acho que precisa relaxar um pouco.
Comentou em meio a um bocejo e começou a mexer num painel digital na banheira, suspirei e fui desfazer as malas em busca do maiô, duvidava que fosse relaxar naquela noite ou em qualquer outro momento em que estivesse na presença dele.
...
Depois de organizar as roupas no armário, as minha e as dele, coloquei os celulares para carregar, tomei um banho rápido e vesti meu tradicional maiô preto que cobria as partes mais vergonhosas do meu corpo e me faziam parecer que eu usava 40, Marcos odiava maiôs, de verdade, mas quando se atinge certos dígitos na balança é difícil se sentir à vontade de biquíni e se é para usar uma calçola eu prefiro usar um maiô, ele era cavado, de costas nuas, mas não o suficiente para focar nos meus pneus, e mais discreto na frente.
Vesti um robe felpudo que estava no banheiro e saí do quarto que peguei pra mim, ficava ao lado do de Matteo, o encontrei na sala falando no telefone, felizmente ele estava com a mesma roupa, fiquei aliviada, mas parte de mim também ficou decepcionada, ele sorriu ao me ver e apontou para a Jacuzzi, estava cheia e borbulhante e tinha um cheiro bom, provavelmente sais de banho, sorri ao ver uma embalagem da L'Occitane na borda da Jacuzzi, tirei o roupão apressadamente e entrei, meus ombros relaxaram quando recostei a cabeça no encosto e fechei os olhos apreciando o jatos de água quente massageando minhas costas.
— Você come comida japonesa?
Matteo colocou a cabeça entre as portas da varanda e abri um olho, ele sorriu enquanto tapava o telefone com a mão.
— Sim.
— Ótimo — Sorriu e voltou para dentro. — Pode mandar para duas pessoas por favor.
Fechei os olhos novamente e relaxei, eu poderia mesmo me acostumar com isso. Cara, ele vivia muito bem e pelas minhas contas eu poderia aproveitar essa vida boa por mais 6 meses, se eu continuasse vivendo parcialmente na casa de Matteo e continuasse guardando totalmente o meu salário conseguiria quitar todas as minhas dividas e sobraria uma grana para me manter, quanto tempo eu tenho que trabalhar mesmo para ter direito ao seguro-desemprego? Tenho que verificar com Melinda, embora ache que o regime de contrato da empresa dela não é CLT.
— A água está agradável?
Me espantei ao abrir os olhos e encontrá-lo sentado no deck ao lado da banheira, sorri.
— Está ótima, obrigada. Mas provavelmente eu quem deveria estar trabalhando e você aqui relaxando.
— Não se preocupe com isso, você dirigiu o caminho todo e ainda me ajudou nos últimos detalhes, seu descanso é merecido.
— Hm. Não vai entrar?
— Não, você ficaria incomodada se eu entrasse.
O observei com curiosidade, queria que ele entrasse, queria que ele soubesse que eu queria isso, mas me pareceu mais sensato agir como ele, estava muito feliz de ter trazido um maiô, não queria ele julgando meu corpo que estava horrendo comparado com o que ele estava acostumado.
— Estou errado?
O encarei, ele era realmente bonito, o rosto era praticamente cinzelado de tão perfeito, me perguntava como alguém como ele pôde passar em branco por mim, trabalhamos por anos em uma multinacional, não tínhamos muito contato físico, mas eu saberia se um cara daquele estivesse por perto, talvez sua aparência não se destacasse muito na época. É a única justificativa para não me lembrar dele, pois olhando bem seu rosto, eu só sentia um leve murmúrio de reconhecimento, isso por causa de uma gincana da empresa em que competimos contra o outro para ganhar um jogo de facas para churrasco, e mesmo só foi encontrado em minha memória depois de muita reflexão e graças a uma foto no f*******:, postada pela empresa na época.
— Mesmo se levarmos em conta o ponto de vista da meritocracia, tem mais direito de desfrutar disso do que eu, posso sair se quiser. — Disse ignorando sua pergunta.
Ele suspirou e bem na hora que ia falar alguma coisa tocaram a campainha.
— Foi o que pensei. — Suspirou ao se levantar para atender a porta, felizmente era possível fechar as janelas de vidro da varanda, sorri ao perceber que ele já as havia fechado, me endireitei e o vi passando pela sala em direção a cozinha, estiquei o pescoço para ver o que ele estava fazendo, mas não consegui ver nada, minutos depois ele apareceu com uma bandeja com pratos de sashimi, Uramaki, temaki e outras variações de comida japonesa, havia também pequenos recipientes com molho shoyu, sorri em agradecimento e ele sentou no deck e começou a comer.
Minhas mãos estavam enrugadas quando decidi sair, em parte por que estava incomodada em ficar dentro da banheira de hidromassagem enquanto meu patrão fazia meu trabalho sentado em minha frente e me observando com aqueles olhos espertos, Matteo estava com o notebook no colo e ergueu os olhos quando me levantei, peguei uma toalha e me sequei o máximo que pude antes de me virar para pegar o roupão, mas ele estava me olhando, me olhando não, me avaliando, senti seu olhar vagando por cada pedaço do meu corpo, rosto, pescoço, seios... reprimi o impulso de pressionar as coxas quando seu olhar desceu e peguei o roupão rápido e me escondi dentro dele muito constrangida, ele desviou o olhar.
— Precisa de mais alguma coisa?
Perguntei sem fôlego, seus olhos voltaram a me observar, insondáveis, por que ele demorava tanto para responder? Esses silêncios repentinos dele me deixavam desconfortáveis, era intensidade demais para uma pessoa só dar conta.
— Preciso de muitas coisas, mas pode ir dormir, Valentina. O dia amanhã vai ser cheio.
Ele poderia simplesmente ter dito que queria meu corpo nu, parte de mim sabia que simplesmente tiraria a roupa e esqueceria de qualquer receio com minha aparência se ele continuasse me olhando daquele jeito, mas a voz dele, o tom indicava muitas coisas que eu desejei que ele tivesse dito, a quem eu queria enganar? O homem era como um Oásis em meio ao deserto, e ele despertava coisas em mim que nenhum homem despertou, nem mesmo o primeiro que beijei ou transei, Matteo exalava uma virilidade inata que por mais independente que eu fosse me fazia desejar a proteção dele, percebi que o estava encarando por tempo demais e me empertiguei sentindo o rosto esquentar.
— Hm, está bem. Boa noite, Matteo.