Capítulo 4

3094 Words
Valentina Eu sou pobre. Tenho contas a pagar, contanto que não houvesse sequestro, tortura e assassinato envolvidos, estava aberta a negociações, portanto, tentei manter a mente aberta para o que ele estava prestes a me dizer, ele parecia um pouco tenso, mas se controlou e manteve a postura, tentou e conseguiu com muito sucesso passar uma sensação de calma que eu tinha quase certeza que ele não sentia, não completamente ao menos. — Tudo bem. — Murmurei ao perceber que ele aguardava alguma reação minha. E minha voz soou tão insegura que quis me estapear, estava nítido que me incomodei com aquilo. Onde foi que Melina me meteu? — Infelizmente nós temos um cachorro e foi decidido judicialmente que a guarda seria compartilhada, então eu irei precisar que o pegue para mim no meu antigo apartamento. — Ele me olhou por um tempo, deixando a informação assentar, quando não falei nada ele continuou. — Não teremos contato direto com a Andressa, quem entregará o cachorro será uma funcionária dela, e na volta nós entregamos o Léo para ela. A Andressa solicitou que pudesse entregar ele diretamente para você, para conhecê-la e coisas do tipo. Eu recusei. Não quero que tenha nenhum contato desnecessário com ela. — Entendi. — Murmurei achando aquilo absurdamente suspeito. Estava ansiosa para mudar de assunto e torcia para o término do relacionamento não ter sido causado por nenhuma situação violenta causada por ele ou algo parecido, Matteo havia ficado rígido enquanto me contava tudo e não queria saber mais do que o necessário. — Deve pensar que isso é um exagero né, mas o cachorro é importante. —Ele me olhou tão profundamente que fui obrigada a sustentas e absorver a sinceridade crua da sua expressão. — Meu pai o deu para mim antes de morrer e a Andressa só insistiu em brigar por ele para me magoar. Que megera. — Sinto muito. — Ele assentiu devagar, minha consciência pesou por ter começado a pensar m*l dele. — De que raça é? — Perguntei ansiosa para aliviar o clima, mas não entendia nada de cachorros. — Ele é um American Bully, é tranquilo e dócil. Pelos menos era, digo "era", por que faz 40 dias que não o vejo graças a essa manobra ardilosa da Andressa, ela nem gostava dele. — Nossa, lamento. — Obrigado, ele é animal maravilhoso, cheio de carisma. — Vi discretamente um sorriso doce surgir nos seus lábios, os seus olhos se suavizaram e ficaram de um tom de dourado esplendoroso, dava para notar que era daquele tipo que é um pai de pet coruja. Numa primeira impressão é difícil acreditar que um homenzarrão desse tamanho é gentil, mas ele me salvou da situação mais degradante da minha vida, que mulher deixaria um homem assim escapar? Mas eu também pensava a mesma coisa quando conheci Marcos, me lembro de me perguntar por que ele ainda estava solteiro, achava que ele era meu unicórnio cor de rosa, um mito, uma lenda entre os homens e eu não poderia estar mais enganada, então me obriguei a manter neutralidade até que pudesse julgar melhor a situação, mesmo com a estranha sensação de culpa se apoderando de mim. — É difícil acreditar nisso tudo. — Matteo comentou em voz baixa e me assustei. Por um instante maluco pensei que tivesse falado meus devaneios em voz alta e o encarei espantada, minhas professoras sempre disseram que eu era muito expressiva e se um paciente quisesse saber seu prognostico meu rosto seria mais informativo do que o prontuário, mas será que eu era tão transparente que ele conseguia ver tudo isso no meu rosto? — Eu entendo, você deve estar se perguntando se o que estou dizendo é verdade e o que fiz para merecer a raiva da minha ex, mas o meu erro foi apenas não perceber quem ela era antes. Realmente era exatamente o que eu estava pensando. — Eu não conhecia esse lado dela, acho que quando estamos apaixonados enxergamos apenas o que alimenta nossa paixão. — Pelo menos não descobriu tarde demais, poderia ser pior. — O olhei com solidariedade e ele engoliu em seco e pareceu um pouco constrangido, provavelmente estava se lembrando que também terminei um relacionamento recentemente. — Acho que nunca conheceremos totalmente alguém. — Desviei de seus olhos para olhar através da janela, a vista dava para a mata, a paisagem era linda. — Nem a nós mesmos. — Acrescentei baixinho. E me peguei pensando no quanto havia me enganado com Marcos, com meu antigo chefe que eu colocava num pedestal e que me demitiu através de um e-mail, agora estava endividada até o pescoço e sem emprego, isso é um absurdo já que foi o Marcos que se comprometeu a pagar o maldito carro, nem havia falado isso para a Melina, não queria que ela se envolvesse, nem mesmo meus pais sabiam disso porque sei que isso iria gerar uma confusão ainda maior e não estava com cabeça para isso, mas privar alguém de ter acesso a um animal que era originalmente dele e que fora um presente? Isso era outro nível de baixaria, era crueldade, já havia tido animais antes, sei como nos apegamos a eles e nesse caso era ainda pior. — Talvez tenha razão, por isso já peço desculpas. — Pelo quê? — Me virei alarmada preocupada em ter perdido uma parte da conversa. — Por envolvê-la, estou te contando tudo por que irá conviver comigo, então, pode ser que aconteça algum conflito, prefiro esclarecer tudo desde o início do que você ser pega de surpresa no caminho. — Ou seja, se for para desistir, faça isso agora. — Ergui a sobrancelha quando ele inclinou a cabeça de lado. — Você é perspicaz. — Obrigada, mas não pretendo desistir da vaga. — Declarei ao pegar a caneta. Tentei não me espantar ao conferir o valor exorbitante do salário, Melina exagerou nas minhas qualificações, pensei em mencionar isso a ele, mas eu precisava mesmo do dinheiro, depois de me estabilizar posso renegociar o salário para um valor mais adequado, com isso em mente rubriquei o contrato, peguei minha via e deslizei a dele sobre a mesa me sentindo um pouco desonesta, mas lembrei a mim mesma que não poderia desistir nem se quisesse, não tem ninguém para me substituir e não quero deixar a Mel na mão, além do mais esse dinheiro todo... era uma proposta muito boa para ser dispensada, eu precisava de dinheiro para pagar o maldito carro até que eu o vendesse. — O processo corre em sigilo judicial, mantenha isso para si mesma, certo? — Sim, senhor. — Anuí. — Eu assinei um termo de confidencialidade. Ele ficou desconfortável e se levantou bruscamente. — Bom, vamos lá. Quer comer algo antes de sairmos? Tenho pão integral, cream cheese, ovos... — Peraí, o quê? — Perguntei espantada, o que ele quer dizer com comer? Ele me olhou erguendo as sobrancelhas, tão surpreso quanto eu. — Você começa hoje, sua amiga não te avisou? Droga, Melina. — Não, ela esqueceu de mencionar esse detalhe. — Então, quer comer algo? — Não obrigada, prefiro comer depois se estiver tudo bem pra você. — Claro, desculpe pelo transtorno e não se preocupe com comida, o que você quiser comer aqui fique à vontade. — Obrigada e não foi culpa sua. — Sussurrei tentando não me tocar com o gesto, seu ex-patrão fazia o mesmo e ainda assim te demitiu, sua trouxa. Nos encaminhamos para a cozinha extremante vazia e fomos para a porta dos fundos, um espaço considerável atrás da casa onde havia mais três vagas para estacionar, duas estavam ocupadas e numa delas estava estacionado um carro que não consegui identificar, era pequeno e cinza isso é tudo que sei, mas ele foi direto para uma Land Rover preta e abriu a porta do carona para mim enquanto eu abaixava teimosamente a saia. — Pode deixar a sua bolsa no banco se quiser, sente aqui na frente. Fiz como ele sugeriu. Ao me virar para colocar a bolsa lá atrás fiquei aliviada por encontrar uma garrafa de água, daquelas equipadas com um recipiente para os cachorros tomarem água, pelo menos ele era atento às necessidades do animal. Deixei a bolsa no assoalho, ele contornou o carro e franzi o cenho quando se curvou para entrar no carro ele era muito alto, aquele carro era o adequado para ele, mas ainda parecia pequeno, tentei tirar os olhos das coxas enormes e musculosas, mas a maneira como o short se agarrava a elas era impressionante, era um corpo impressionante demais para passar despercebido, tentei desviar o olhar das suas coxas o tempo todo, mas foi muito difícil, suspirei aliviada quando 50 minutos depois ele entrou numa área de desembarque num condomínio de luxo na Carlos Weber, ele desceu primeiro e abriu a porta para mim, sorri em agradecimento, saímos do carro e aguardei que ele estivesse ao meu lado para seguirmos até a portaria. Me deixei ficar um pouco para trás enquanto ele se anunciava através do interfone, nesse meio tempo não pude deixar de pensar que talvez estivesse me envolvendo em encrenca, apesar de ser apenas uma funcionária, mas minha intuição dizia que ele era uma pessoa boa, alguém que leva uma pessoa desconhecida em casa prezando por sua segurança não pode ser alguém r**m, certo? Mas ele acobertou um crime, isso era suspeito, merda, fiz uma careta ao lembrar quem era a criminosa aqui. Ergui os olhos quando o vi acenando para as portas de vidro, ele assobiou alto e ao longe vi uma mulher pequena e robusta com um cachorro enorme, de pelo curto e acinzentado, me apaixonei quando vi aquele monstrinho balançando o r**o efusivamente e quase arrastando a mulher que se esforçava para segurar a guia, meus olhos lacrimejaram ao ver a emoção estampada no rosto de Matteo, meu emocional estava mesmo em frangalhos. Matteo amava aquele animal, alguém que sentia um amor daquela forma tão nítida não poderia fazer m*l a outro, poderia? Bem, não diziam que Hitler adorava cães? Meu Deus, que horror, estou mesmo comparando meu chefe com um tirano genocida? Tenho que parar com isso, prometi a mim mesma que seria imparcial, a porta se abriu. — Oi garotão! — Ele m*l fechou a boca e a cachorro pulou em Matteo com uma força que me fez perceber que qualquer outra pessoa teria caído de b***a no chão com o impacto, fiquei alarmada ao perceber que teria que chegar perto daquela criatura, Matteo era um gigante de provavelmente 2 metros, ele se abaixou tranquilamente como se tivesse sido empurrado por uma mosca, o animal lambia seu rosto e chorava e gania, demorou um tempo até Matteo conseguir acalmá-lo para cumprimentar a senhora que o trouxe. — Olá, sou a Ana. — A mulher se adiantou e se virou para mim com a mão estendida em um cumprimento, a apertei com firmeza. — Valentina, é um prazer. — Você quem virá pegar o Léo? — Sim, isso mesmo. — Confirmei contendo um riso nervoso e com a minha visão periférica percebi Matteo nos observando. — Oi Matteo, tudo bem? Ele ergueu o rosto e estudou a senhora com uma calma estudada, o homem agachado era quase da minha altura, misericórdia, ele sorriu e Léo lambeu o seu rosto pela milésima vez, ele gesticulou para que me aproximasse, mas o animal não me deu muita atenção e fiquei feliz por isso. — Oi Ana, como está? — Bem, obrigada. Ele não comeu tá. — Ok, nos vemos no domingo? — Ah, bem... — Ela balbuciou claramente nervosa. — No domingo é minha folga, a Andressa irá receber o Léo. O rosto de Matteo se fechou como p céu de São Paulo em uma tempestade de verão, até mesmo Léo parecia saber que era hora de se aquietar e sabiamente sentou-se sobre as patas traseiras, Matteo se ergueu segurando a guia. — Ela tem que arrumar outra pessoa, Ana. Esse não foi o combinado. — Vou falar pra ela. — Ótimo, estamos indo. Tenha um bom dia. Dei um sorriso constrangido para Ana e me despedi, tive de acelerar o passo porque Matteo já estava acomodando o cachorro no banco de trás. — É... tem ração na sua casa? — Perguntei tentando puxar conversa para aliviar o climão. — Tenho sim, deixei tudo preparado para receber meu garotão. Disse e acariciou a cabeçorra do cachorro enquanto o elogiava e ele se derretia todo. Será que alguém além de meus pais sentiu por mim metade da devoção que esse homem demonstrava por esse animal? Sabia a resposta, gostaria de apagar esse saber da minha memória, percorremos o caminho para a casa em silêncio, uma chamada de número desconhecido entrou no multimidia do carro quando viramos a direita já na rua em que ele morava, Matteo não entrou na garagem, estacionou o carro na rua, logo atrás do meu e pediu que eu desse uma volta no quarteirão com o Léo enquanto ele atendia ao telefonema, provavelmente era sobre o assunto da entrega, foi o que supus ao ver a expressão tensa no seu rosto, desci do carro e sorri quando Léo pulou já abanando o r**o, Matteo me tranquilizou e me instruiu a não deixar a guia muito longa, teria de manter a rédea curta ou monstrinho iria me puxar, se ele fizesse isso ele me disse para dar uns puxões até que Léo sincronizasse os passos e andasse ao meu lado, arregalei os olhos e ele me garantiu que o cachorro não seria enforcado por que usava uma coleira que prendia o peito e não somente o pescoço, quando terminou de me dar uma série de instruções me estendeu um punhado de saquinhos para coletar as fezes, subi a rua com Léo trotando alegremente à minha frente. ... Haviam se passado quase meia hora, meus braços doíam de tentar conter o cachorro, -poderia muito bem ser um touro, pelo menos ele tinha a força de um- me esforcei para ser o mais lenta possível para dar tempo e privacidade a Matteo, mas quando descemos a rua e olhei para o carro, percebi através do vidro escuro que ele ainda estava no telefone, caminhei até chegar em frente à casa e me sentei no meio-fio com Léo ao meu lado, ele tinha uma enorme mancha branca no peito e lindos e meigos olhos azuis, cedi a sua carinha pidona e acariciei sua cabeça, ele abaixou as orelhas e colocou a cabeça em meu colo, m*l tive tempo de abaixar a saia, sorri e fiquei acariciando sua orelha enquanto esperávamos Matteo finalizar o telefonema. Devaneei admirando a rua tranquila e familiar, era uma ladeira levemente íngreme e Matteo morava no final da rua, xinguei ao perceber que teria de trocar de marcha no meio da ladeira na volta, trocar de marcha em subidas era um terror para mim e tentei não pensar na volta para casa, havia mais duas casas na rua dele, com jardins bem cuidados, mas eram distantes uma da outra o que garantia privacidade, a casa em que iria morar com Marcos não ficava longe, nesse mesmo condomínio apenas duas ruas a acima, era para mim estar lá hoje com a decoradora decidindo os últimos detalhes para embelezar o nosso doce lar, fiz uma nota mental para enviar uma mensagem e conferir se Marcos havia cancelado a visita, seria desagradável ter de cancelar tudo se ele já não tivesse feito, poderia ser pior, foi um livramento, lembrei a mim mesma, e se tivesse descoberto tudo apenas depois de nos casarmos? Tudo seria pior, muito pior. — Ele gostou de você. Me espantei quando Matteo se sentou tranquilamente ao meu lado na calçada, não o escutei se aproximar. — Ele é um amor. — Sorri ao apertar Léo no colo, Matteo sorriu timidamente sem quase mover os lábios, só percebi que era um sorriso pela movimentação de suas bochechas e estreitar dos olhos. — Está tudo bem? Ele soltou um suspiro longo e desanimado. — Não, ela não quer pagar alguém apenas para receber o Léo no domingo. Tenho certeza de que só está fazendo isso para me atormentar, mas tenho um evento muito importante no domingo e não poderei ir lá. Não se envolva Valentina, não é problema seu, apertei os lábios tentando me impedir de abrir a boca, sei que ele não está falando isso para me manipular para oferecer ajuda, vi as caixas na casa, ele m*l se instalou no lugar, a vida dele deve estar tão conturbada quanto a minha, sabia como isso era difícil e nem tinha outra criatura dependendo de mim ou um processo nas costas, isso graças a ele. Olhei para o mesmo ponto invisível que ele encarava, é só um favor, não é nada demais, não irei me envolver mais que isso, além do mais estou em dívida com ele. — Posso vir aqui rapidinho e levar o Léo, se quiser. — Ofereci sem jeito e seu rosto se fechou. — Valentina, não falei isso para te persuadir. — Sei que não. — Suspirei resignada por ele achar que sou tão manipulável. — Não tenho mais nada para fazer, o trânsito é tranquilo no domingo, posso ir e vir em uma hora, dá tempo de pedir uma pizza e chegar para recebê-la. Mentira. Eu poderia muito bem ficar em casa assistindo a Netflix ou lendo algum romance dark para me fazer esquecer dos meus problemas, realmente odiava essa necessidade que tinha de agradar as pessoas, na minha vida pessoal isso era um problema sério, profissionalmente era ainda pior, foi o que a minha demissão me ensinou, quando fazemos algo para alguém temos de estar preparados para a ingratidão, esse era meu lema e por isso insisti, ele ainda estava fazendo careta, provavelmente por causa da minha declaração nada fitness sobre meus hábitos alimentares. — Tudo bem, não será um incômodo, nem irei cobrar hora extra. — Sorri, mas ele não, Matteo continuou me encarando como se eu fosse um enigma sem solução. — Digo, o meu pagamento será alguns minutos com esse garotão... Esfreguei a cabeça e Léo fechou os olhos apreciando o carinho, em parte o carinho foi para desviar a atenção de Matteo, ele me deixava nervosa quando me encarava por muito tempo. — Enlouqueceu se acha que fará algo para mim sem que a pague. — Ele bufou contrariado e levantou-se com uma graça surpreendente para um homem daquele porte, depois estendeu a mão para me ajudar. — Vamos, irei mostrar a casa para vocês.
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