Capítulo 3

3072 Words
Valentina O nervosismo era inevitável ao encarar o condomínio luxuoso, já fazia algum tempo que não entrava ali, antes eles permitiam que as pessoas caminhassem num determinado percurso, até mesmo autoescolas usavam o espaço para aulas, mas conforme o condomínio se expandia eles fecharam esse acesso e os caminhantes mudaram o trajeto para a obra do rodoanel onde um viaduto passava logo acima do lugar, as casas não eram padronizadas, ao menos não de maneira arquitetônica, mas havia uma que se destacava ainda mais, uma que conhecia muito bem. Costumava parar para observá-la por que ficava bem no final do percurso de 1,5km, numa esquina do cruzamento que levava a uma curva que circundava uma área preservada com uma nascente, ela ficava logo depois de uma saída a esquerda que levava a segunda portaria do condomínio onde as casas eram mais suntuosas, mas ela se destacava porque era uma estrutura diferente das outras, uma casa de dois andares, tijolos aparentes, uma janela do teto ao chão nas paredes frontal e lateral, ela ia desde o térreo até o segundo andar, era possível ver a cozinha e o quarto de cima, ela me cativou desde o início, o quintal imenso, a luz natural, todo o verde ao redor, amava aquele lugar, quantas e quantas vezes sonhara com aquela casa enquanto corria, agora estava prestes a finalmente entrar nela, assobiei impressionada. — É. O homem tem dinheiro. — Pode acreditar, a casa dele é enorme e apesar do metro quadrado não ser o mais caro da cidade, não está entre os mais baratos. — Meu Deus. — Murmurei em pânico, aquilo era muito opressor e achei que o lugar seria desvalorizado por estar localizado próximo a um bairro de baixa renda, o bairro onde eu vivia. — Certo, irei desligar Mel, não consigo dirigir e falar com você ao mesmo tempo. — Sério? — É, sério. — Grunhi e ela sorriu. — Tudo bem. Desculpe por furar com você, logo que terminar irei levar os aparelhos aí, mantenha-me informada sobre qualquer problema, estou com o celular o tempo todo. Depois poderíamos sair para beber, o que acha? — Perfeito, até mais e deseje-me sorte. — Tchau, você faz a sua sorte gata. Beijo! Vesti o terninho que reservava para entrevistas de emprego ainda dentro do carro, como Mel sugeriu, optei por usar preto e branco, meu visual tradicional era jeans e camiseta, mas acho que um dono de hotel de luxo não ficaria contente com essa vestimenta, apesar de não saber o que um Bodybuilder pensaria, mas como não sabia com qual dos dois lidaria fiz um esforço e peguei uma saia lápis da Mel que já estava há meses lá em casa, ela diz que isso é mais elegante e feminino. A minha definição de elegância consistia em camisa branca, blazer e uma calça social, mas eu era apenas uma visitante no mundo dos ricos e poderosos, Marcos sempre dizia que deveria me vestir melhor, principalmente quando nos casássemos, era ridículo que ainda levasse isso a sério, mas engoli a raiva que aquilo despertava em mim, nisso ele estava certo, então optei por seguir o conselho, embora já tenha começado a me arrepender, não havia calculado o excesso de peso que ganhei no último mês e a maldita roupa fazia as minhas coxas roçarem uma na outra e vez por outra em tinha que abaixar a peça, pois subia com o mínimo movimento, após ser liberada na segunda portaria, estacionei porcamente na rua em frente à casa, saí do carro segurando a maldita saia. — Deveria ter ao menos passado vaselina nas coxas, vou ficar toda assada. — Resmunguei e fechei a porta. Tranquei o carro e me encaminhei para o portão de madeira escura no meio de um muro verde repleto de flores que eu não soube identificar, tentei não me deslumbrar, mas aquela casa era completamente encantadora. Apertei o interfone. — Pois não? — Bom dia, me chamo Valentina Alves, tenho uma entrevista agendada com o Sr. Ricci. — Ah sim, estava te esperando, irei abrir o portão. —Ouvi uma ululação eletrônica, o portão abriu devagar. — Pode subir a escada à sua frente á direta da garagem, deixei espaço pra você guardar o carro. Pensei na dificuldade que teria em estacionar na tal vaga, era até que grande e ficava abaixo do que supus ser a varanda da casa sustentada por quatro pilares ao redor da tal vaga, melhor evitar uma humilhação certa. —Obrigada, mas prefiro deixar na rua, tem algum problema? — Não, tudo bem. — Me virei para observar o carro que estava distante o suficiente do meio-fio para estar quase no meio da rua, como se ouvisse meus pensamentos ele acrescentou. — Essa rua é larga e bem isolada, geralmente o único movimento é o carro da empresa de segurança que faz a ronda de tempos em tempos, estou te esperando no primeiro andar. Um barulho eletrônico soou e logo em seguida o click metálico da fechadura quando o portão se fechou às minhas costas, passei por um jardim abandonado, mas que ainda preservava algumas roseiras e plantas ornamentais, havia orquídeas grudadas em algumas árvores do quintal, um pouco de cuidado e aquele lugar seria uma floresta élfica. Subi uma escada de ferro, havia uma porta de mogno escuro enorme, por que os ricos gostavam tanto de portas imensas? Hesitantemente empurrei a porta e entrei, estava levemente curiosa, mas o nervosismo estava sobrepondo a curiosidade e a maldita saia não parava de subir, o barulho do meu salto no piso de madeira estava me irritando, parei ao encontrar a sala vazia, havia apenas uma escrivaninha próxima a uma janela, havia um notebook de última geração em cima dela e uma cadeira de couro preto, nada de Tv gigante ou de sofá, nem mesmo uma poltrona, onde diabos as pessoas se sentavam quando recebia visitas? Adentrei mais na casa avistei o balcão da cozinha, mas uma movimentação a direita me assustou e me surpreendi quando através de uma porta de correr envidraçada vi uma silhueta enorme ofuscada pela iluminação que entrava através do janelão de vidro que sempre me encantou. Alisei a saia mais uma vez, segurei a bolsa ao lado do quadril e respirei fundo, vamos Tina, você consegue! Minha barriga fez um barulho horroroso, grunhi, isso acontecia sempre que ficava nervosa, não consegui tomar café, mas agora gostaria de ter feito, vai saber que horas ele me deixaria almoçar, será que seria muito deselegante trazer uma marmita? Não importa. Bem, era agora ou nunca. Caminhei em frente, havia uma mesa branca de plástico de seis cadeiras, percebi que ele usava uma bermuda esportiva, camisa Dry Fit azul-escura que deixava em evidência os músculos do trapézio e dorsal que eram pra lá de definidos, era como um triângulo invertido, um triângulo bem grande, mas ele não tinha quadris estreitos como a maioria dos homens musculosos, quer dizer eles eram proporcionalmente mais estreitos que os ombros, mas ele tinha quadris bem desenvolvidos e b***a grande, Jesus Cristo, era um rabão lindo acompanhado de coxas enormes e panturrilhas definidas, ele tinha um porte bonito, robusto, mas refinado, estava observando a rua ou o quintal, o olhei de cima a baixo uma última vez, ele com certeza era o maior homem que já tinha visto, Marcos era alto com seus 1,80m, mas esse cara devia ser uns bons 20 cm mais alto, ele era mesmo bodybuillder? Será que entendi direito? Talvez ele fosse jogador de basquete, mas ele era corpulento demais para isso, talvez futebol americano? Bati no vidro para anunciar a minha chegada, ele se virou de supetão e o meu estômago caiu nos meus pés. — Bom dia, Valentina. — Cumprimentou com um meio sorriso encantador, é claro que isso teria tido algum efeito em mim se não estivesse chocada demais, eu conhecia aquele sorriso. — Você. — Murmurei ao encarar através da porta de vidro o segurança que foi meu cúmplice semanas atrás. — Você é o senhor Matteo? Ele sinalizou afirmativamente, um curto maneio de cabeça e no mesmo movimento sinalizou para que entrasse, meu corpo se mexeu sozinho e perdi o fôlego quando dei de cara com a porta. Merda! Que humilhação. Meu nariz bateu com tudo, foi como levar uma bolada na cara, cambaleei para trás e um instante depois a porta se abriu e ele se aproximou de mim me segurando pelo cotovelo. — Você está bem? Passei a mão no nariz para ter certeza de que estava intacto, estava morta de vergonha, o que eu estava fazendo aqui? Que merda estava acontecendo? O universo definitivamente me odiava. Alisei a saia ganhando tempo para me recompor. — Estou bem, obrigada. Ele sorriu. Droga, como é que não percebi o quanto ele era bonito? Não bonito-lindo, mas bonito-bonitão, o que se espera de pessoas altas é que possuam feições desproporcionais e bruscas, mas o rosto dele não era assim, os cabelos pareciam pretos, mas de perto percebi que eram castanho-escuros, os olhos eram de um castanho lindo, um tom caramelo com alguns salpicados de verde ao redor da pupila, ele tinha um risco na sobrancelha direita, mas não era algo proposital, parecia que ele havia sofrido um corte e apenas não cresciam pelos na cicatriz, a cicatriz era destacada pois as sobrancelhas eram fartas e escuras, muito bem aparadas, assim como a barba rala escura emoldurando o maxilar quadrado, lábios cheios, uma curva suave destacava o lábio superior, o inferior era ligeiramente mais grosso, carnudo. — Não parece feliz em me ver. — Murmurou e percebi que estava fazendo careta enquanto o analisava, mas não era porque estava infeliz, quer dizer, era uma situação infeliz, mas a visão dele não tinha nada a ver com isso. — Desculpe. — disse ao endireitar os ombros. — Geralmente não me apresento precocemente para os meus chefes, não antes de saber formalmente que irei trabalhar para eles. É um tanto quanto constrangedor estar aqui depois da forma como nos conhecemos. — Desculpe, mas não cheguei a me apresentar, e, se tivesse me apresentado naquele momento, você recusaria o emprego, provavelmente. —Provavelmente. Mas era melhor do que ter me deixado pensar que era um segurança do hotel. — Bem, em minha defesa a senhorita chegou a essa conclusão sozinha. — Ergui a mão para esfregar os olhos e lembrei da maquiagem no meio do movimento, sem saber como agir cocei testa, frustrada. Ele se empertigou e me fitou, notei tardiamente que ele ainda segurava meu cotovelo, ele o soltou e me estendeu a mão num aperto cordial. —Vamos começar de novo. Me chamo Matteo Gonçalves Ricci, é um prazer. — Ricci? Era um sobrenome italiano, mas ele não era estrangeiro, notei o leve sotaque paulista. Sorri relutantemente e tentei apertar aquela mãozona com firmeza e quase fiquei boquiaberta, a minha mão era minúscula sobre a dele, era como se fosse a de uma criança a ponta dos dedos tão distantes do meu polegar que pareciam habitar hemisférios diferentes, não deixei que isso me abalasse, pois, aquele homem deveria ser maior que grande parte da população brasileira, talvez até do mundo. — Valentina Alves Gutierrez, é um prazer conhecê-lo. Sr. Ricci. — Me chame de Matteo. Por favor. Vamos entrar. — Certo. Sugeriu e quase dei um pulo quando sua mão encostou na minha lombar e ele me conduziu para dentro da sala e puxou uma cadeira para mim, de onde esse lorde saiu? — Obrigada. Então o senhor é o dono do hotel? — Perguntei ao alisar a saia para me sentar, mas não consegui relaxar, sempre que me sentava em cadeiras de plásticos tinha a impressão de que elas poderiam quebrar comigo a qualquer momento, era isso que dava estar acima do peso durante toda uma vida. — Não há de quê e sim, acabei de comprar o hotel. — Agora tudo faz sentido. — Ele sorriu ao sentar-se ao meu lado, estreitei os olhos, geralmente os entrevistadores sentavam-se á frente dos candidatos, meu corpo relaxou um pouco com a atitude dele, mas me lembrei que ele me viu vandalizando um carro, meu estômago se contraiu e fiquei enjoada. — Jesus, estou em dívida com o senhor. — Suspirei. — Esqueça isso. O que aconteceu não afetou o meu julgamento sobre seu caráter, acredite. Agora me fale de você. — De mim? – Questionei alarmada, o que mais ele queria saber? Se me recuperei da traição ou se fui processada? — Sim, a respeito da sua formação, suas habilidades... — Oh, certo. — Tentei ignorar o rubor no rosto, posicionei as mãos no colo tentando me recompor e parecer profissional. — Fiz curso de secretariado pela Fatec, trabalhei por três anos como secretária para o dono de uma rede de lojas de roupa bem famosa, sou graduada em Direito e me formei dezembro passado em Enfermagem, planejo cursar uma especialização em breve. — Perfeito, em qual área? — Ainda não me decidi, estou em dúvida entre Urgência e Emergência e UTI, talvez curse as duas. — Que legal. Mas você sabe que o horário é integral, não é? — Sim, claro. Como isso irá funcionar? A Melina me disse que precisava de uma assistente pessoal ou algo parecido, mas o senhor também é dono do hotel, então com quem irei trabalhar? Com o dono do hotel ou com o atleta? — Com ambos. — Disse simplesmente. — O quê? — Deixei escapar e reformulei. — Perdão, não entendi. — Irá trabalhar como a minha assistente pessoal, tanto para gerenciar a minha vida quanto para o resto. Fui meticuloso quando selecionei a equipe que irá administrar o hotel, isso é o de menos e o mais importante é minha carreira no fisiculturismo, mas ainda será necessário comparecer a reuniões mensais e receber relatórios sobre o hotel, então quanto mais capacitada for, melhor será, o seu conhecimento em direito veio a calhar. — Certo, isso é muito... abrangente. — Admiti um pouco intimidada, não sabia direito como era a rotina de um fisioculturista, mas tinha certeza de que isso envolvia viagens, treinos e ocasionalmente fama, apesar de não me lembrar de conhecer seu rosto, mas eu não acompanho o mundo maromba, fora que ser assistente de um dono de hotel já é complexo o suficiente. — Não entre em pânico, tenho um mentor que me ajuda muito. Você irá cuidar da casa, isso inclui agendar as diaristas e a entrega de compras, lavandeira e etc., tudo relacionado a manutenção da casa e dos carros passará por você, também irá gerenciar as minhas mídias sociais e... — Ele franziu o cenho de repente. — Você tem família? — Sim. Pai, mãe e irmã. — Eles moram com você? — Não, e eles moram no Nordeste e eu moro sozinha. — Certo. — Ele me encarou um pouco mais do que o necessário, tinha certeza de que ele iria perguntar sobre meu noivo, mas se empertigou e cruzou as mãos em cima da mesa e tive que desviar os olhos dos antebraços musculosos. — Então viajar não é um problema, certo? — Não. — Respondi disposta a não perder aquela vaga, mas ciente de que não teria tempo para mais nada, teria que cursar uma pós-graduação em EAD e comecei a ficar com medo desse trabalho me engolir de tal forma que me fizesse esquecer dos meus sonhos, mas o que era um sonho diante da necessidade de pagar as contas? — Também irei precisar que dirija para mim em algumas situações, o trânsito dessa cidade é horrível e perde-se muito tempo parado, então pode ser que tenha que me levar para o treino ou me pegar em alguns momentos, coisas do gênero. Meu brilho sumiu. Eu dirigia muito m*l. Quer dizer, eu não dirigia m*l, sabia dirigir, mas o medo acabava comigo e eu ficava até com dor de barriga quando tinha que sair de carro, ele deve ter visto isso no meu rosto. — Isso será um problema, Valentina? Merda. Claro que era um problema, ele não podia contratar um motorista? Pegar um Uber? O encarei, as roupas esportivas de marca, o tênis caro, merda, claro que ele não pegaria um Uber, e... p***a, eu estava ferrada, mas talvez não, o carro podia ser automático, mas não iria perguntar isso nem ferrando. — Não senhor. — Matteo. — Corrigiu e me senti intimidada pelo olhar penetrante dele. — Não, Matteo. — Tem certeza? — Seu olhar se estreitou, provavelmente ele deve ter lembrado das minhas tentativas frustradas de sair do estacionamento do hotel. — Absoluta. — Respondi com uma confiança que nem sabia possuir, mas eu precisava do trabalho. Ele anuiu e enumerou quais seriam as minhas tarefas, que se resumiam a ser governanta/assistente pessoal/secretária, cuidaria de tudo, a agenda, a comida, as roupas e assuntos bancários... eu já havia sido assistente pessoal de um presidente de empresa, foi meu último emprego, ocasionalmente resolvia algumas coisas para ele, consultas médicas, pegar roupas na lavandeira, levar os cachorros no Pet Shop mas isso... esse cara estava me dando uma cópia da chave da casa, um notebook com suas senhas salvas, acesso ao seu cartão de crédito, chave do carro, a dimensão daquela responsabilidade me deixou preocupada e intimidada. — Tudo bem? — Mais ou menos, quanto a parte da comida... podemos negociar isso? São muitas coisas para fazer e cozinhar leva tempo, posso cozinhar em alguns dias e encomendar comida em outros? — Tudo bem, mas não como qualquer coisa. Minha dieta é rígida, não como alimentos processados, se encontrar alguém que trabalhe com ingredientes orgânicos, podemos fazer dessa forma. — Irei pesquisar e te informar, quando decidirmos a respeito disso irei cozinhar uma vez na semana e no fim de semana, o que acha? — Tudo bem. — Ele deslizou um contrato pela mesa. — Esse é o contrato, leia com atenção. Tem um termo de confidencialidade também, peço desculpas, mas meu advogado insistiu nisso devido a certas circunstâncias do passado. — Certo... — Muito bem, preciso te dar um breve resumo da minha atual situação. Estou num processo conturbado de separação, com a minha ex-noiva e estamos envolvidos em um processo judicial. Sabia, estava bom demais para ser verdade. Nós poderíamos dar as mãos e sair andando rumo ao fundo do poço, mas acho que o fundo do poço dos ricos era um pouco melhor porque eles ainda tinham o dinheiro para se consolar.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD