Capítulo: 26
Ponto de Vista — Angélica
Quando o sedan preto finalmente parou em frente ao meu prédio de fachada descascada, o contraste era quase cômico. Aquele carro exalava um poder silencioso que não pertencia ao meu bairro. Senti um misto estranho de alívio por estar em casa e um nervosismo agudo que subia pela espinha, como se eu estivesse deixando para trás uma bolha de proteção perigosa.
O motorista desligou o motor. O silêncio que se seguiu foi denso. Ele virou um pouco o rosto, mantendo os olhos fixos no retrovisor, a postura impecável de quem estava acostumado a lidar com segredos.
— Chegamos, senhorita.
— Obrigada — respondi, minha voz saindo um pouco mais trêmula do que eu gostaria. Tentei transparecer uma calma que, honestamente, eu não possuía. Por dentro, eu era uma bagunça de adrenalina residual e cansaço.
Abri a porta e saí rapidamente. O ar da manhã de São Paulo estava fresco, mas o asfalto já começava a exalar aquele cheiro típico de cidade que desperta. Antes que eu pudesse fechar a porta, a voz do motorista me deteve:
— Tenha um bom dia, senhorita. E... tente descansar.
Assenti com um sorriso curto, quase invisível.
— Obrigada. E, por favor... agradeça ao Victor por mim. Por tudo.
Ele apenas inclinou a cabeça, um gesto respeitoso e impenetrável, e partiu. Fiquei ali parada por alguns segundos, observando as luzes de freio desaparecendo na esquina. O sol já cortava os prédios, iluminando o caos urbano que começava a ganhar vida. Respirei fundo, sentindo o ar poluído queimar levemente os pulmões. Era hora de guardar a “borboleta” em uma caixa e voltar a ser apenas a Angélica.
Subi as escadas do prédio em passos largos. Cada degrau parecia aumentar a pressão no meu peito. Eu sabia que, do outro lado da porta do 402, o interrogatório me esperava. E eu não estava errada.
Assim que a chave girou na fechadura, a porta foi escancarada por dentro. Diana surgiu como um furacão de cabelos desgrenhados e olhos injetados. Ela estava com os braços cruzados sobre o pijama de flanela, e sua expressão oscilava entre o puro terror e a fúria absoluta.
— ANGÉLICA! — O grito ecoou pelo corredor vazio.
Fechei a porta devagar, tentando ganhar tempo. — Oi, Di...
Ela avançou no meu espaço pessoal antes que eu pudesse respirar. — Onde. Você. Estava? Você sumiu do trabalho! Eu fui no seu quarto às três da manhã e a cama estava intocada! Liguei mil vezes, deixei mensagens, quase chamei a polícia, Angélica! Você tem noção de que quase me matou do coração?
Passei a mão pelo cabelo, sentindo a textura do laquê desfeito da noite anterior. — Calma, Diana, respira...
— CALMA? — Ela jogou as mãos para o alto, andando de um lado para o outro na sala apertada. — Você some depois de um turno em uma boate cheia de criminosos e quer que eu tenha calma?
Eu precisava de uma âncora. Uma mentira que tivesse um fundo de verdade para que ela não percebesse a hesitação nos meus olhos. Eu não podia contar sobre a mansão, sobre os seguranças armados, ou sobre o fato de que eu passei a noite sob o teto de um homem que exalava perigo e sedução na mesma medida.
— O Rafael... ele me atacou — soltei de uma vez.
O efeito foi imediato. Diana congelou no lugar. O fogo da raiva se transformou em um gelo protetor.
— O quê? Aquele verme?
— Na boate — continuei, sentindo um nó real na garganta ao lembrar do asco que senti. — Ele tentou me encurralar perto do depósito quando eu estava servindo as mesas. Ele estava bêbado, Di. Foi horrível.
Ela se aproximou, pegando minhas mãos. — O que aquele desgraçado fez com você? Você está machucada?
Engoli seco, a culpa pela omissão pesando. — Ele tentou me agarrar, me forçar... mas não conseguiu terminar o que queria. Um amigo apareceu.
Ela franziu a testa, os olhos semicerrados em dúvida. — Que amigo? Você não conhece ninguém naquele lugar além dos garçons.
— Um... conhecido do Ângelo — menti, usando o nome do meu irmão como escudo. — Um contato antigo dele que estava por lá.
— Do Ângelo? — Ela piscou, confusa. — Você nunca mencionou que ele tinha amigos frequentando aquele tipo de lugar.
— Porque eu nem sabia que ele estava em São Paulo até ontem à noite — improvisei, sentindo o suor frio na nuca. — Ele me viu em apuros e interveio. Tirou o Rafael de cima de mim e me levou para um lugar seguro.
Diana me observou em silêncio por um tempo que pareceu uma eternidade. Ela era esperta demais para cair em qualquer história, e eu sabia que minha aparência — o vestido amassado que não era meu, o olhar distante — não ajudava.
— E esse “amigo” te levou para onde, exatamente? Por que não te trouxe direto para casa?
— Eu estava em choque, Diana! — Minha voz subiu um tom, uma defesa instintiva. — Eu estava tremendo, m*l conseguia falar. Ele me levou para a casa dele, me deu um chá, um lugar para sentar longe daquela música alta. Eu acabei pegando no sono de exaustão nervosa.
Ela levantou uma sobrancelha, o ceticismo ainda presente. — E ele tem nome, esse cavaleiro branco?
— Victor — respondi, e só de pronunciar o nome dele, senti um calafrio percorrer meu corpo.
— Victor... — Ela repetiu, testando o som da palavra. — Nome de quem tem dinheiro. Ou de quem manda.
— Ele só ajudou, Di. É o que importa.
— Se eu encontrar o Rafael, juro por tudo que é mais sagrado que arranco os olhos dele com uma colher de café — ela bufou, descruzando os braços e me puxando para um abraço apertado. — Não faz mais isso. Quase morri achando que tinham te jogado em um porta-malas.
Sorri contra o ombro dela, sentindo o calor da sua amizade. — Você sempre exagera.
— Exagero nada! Se alguém mexe com a minha “irmã”, mexe com uma colmeia inteira. Agora, olha pra você... está um desastre completo. Vai tomar banho. O turno no restaurante começa em duas horas e a vida não para porque um herói misterioso te salvou.
Corri para o quarto antes que as perguntas recomeçassem. Tranquei a porta e encostei as costas nela, soltando o ar que nem percebi que estava prendendo. Eu odiava mentir para ela, mas a verdade sobre Victor era um incêndio que eu ainda não sabia como apagar.
Caminhei até o espelho do banheiro. A maquiagem estava borrada, dando-me um ar sombrio, mas o que me chocou foi o brilho nos meus olhos. Eu não parecia uma vítima. Eu parecia alguém que tinha visto um mundo novo e proibido.
Passei os dedos pelos lábios, e a memória do beijo de Victor voltou com uma força avassaladora. O cheiro de sândalo e fumo caro parecia ainda impregnado na minha pele.
— Angélica, acorda — sussurrei para o reflexo. — Ele é o tipo de problema que garotas como você não conseguem resolver.
Entrei no chuveiro e deixei a água quente levar o cansaço, mas não as lembranças. Vesti meu “uniforme de sobrevivência”: jeans surrado, blusa básica e o cabelo preso em um r**o de cavalo prático. A garçonete estava de volta. A estudante que contava moedas para a mensalidade estava de volta.
Mas enquanto eu pegava minha bolsa, a imagem daqueles olhos azuis profundos me perseguiu. Victor não era um amigo do meu irmão. Ele não era um “conhecido”. Ele era algo muito mais vasto e perigoso. E, no fundo, eu sabia que aquele não era o fim da nossa história. Era apenas o prólogo.