Capítulo 27
Ponto de Vista — Angélica
Saímos juntas do apartamento.
O dia já estava completamente claro, o sol refletindo nos prédios de São Paulo e trazendo aquele calor típico que fazia tudo parecer mais cansativo antes mesmo de começar.
Diana trancou a porta e me olhou de lado enquanto descíamos as escadas.
— Você tem certeza que está bem?
Assenti rapidamente.
— Tenho.
— Tem mesmo? — insistiu ela, desconfiada.
Forcei um pequeno sorriso.
— Já falei, Diana. Foi só um susto.
Ela não pareceu totalmente convencida, mas resolveu não insistir.
— Tá… mas se aquele Rafael aparecer perto de você de novo…
— Você mata ele, eu sei — interrompi, revirando os olhos.
Ela sorriu de canto.
— Exatamente.
Pegamos um Uber, já que estávamos um pouco atrasadas. O trânsito da manhã estava intenso, como sempre. Buzinas, motos passando entre os carros, gente apressada nas calçadas.
Tudo tão… normal.
Tão diferente da noite anterior.
Encostei a cabeça no vidro do carro e fiquei olhando a cidade passar.
Por fora, tudo parecia igual.
Mas por dentro… eu não era mais a mesma.
Chegamos ao restaurante poucos minutos antes do horário de a******a.
Descemos correndo do carro.
— Corre! — Diana gritou, rindo.
Entramos apressadas, passando pela cozinha até chegar ao vestiário.
Troquei rapidamente de roupa, colocando o uniforme de sempre.
Aquele avental simples.
Aquele ambiente que eu conhecia tão bem.
Era como voltar para o meu lugar no mundo.
Ou pelo menos… o lugar onde eu sempre achei que pertencia.
Assim que saímos para o salão, Dona Marta já estava organizando tudo.
— Até que enfim! — ela falou, olhando para nós duas. — Achei que iam se atrasar hoje.
— Quase — Diana respondeu.
Comecei a arrumar as mesas.
Talheres.
Copos.
Cardápios.
Tudo automático.
Mas minha mente… não estava ali.
De vez em quando, sem querer, eu lembrava.
Dos olhos dele.
Do toque dele.
Do jeito que me carregou como se eu fosse… importante.
Balancei a cabeça.
— Para com isso, Angélica — murmurei para mim mesma.
— O quê? — Diana perguntou.
— Nada!
Ela estreitou os olhos, desconfiada.
Mas antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, os primeiros clientes começaram a chegar.
E então… o caos começou.
O horário de almoço foi simplesmente insano.
Mesas lotadas.
Pessoas falando alto.
Pedidos acumulando.
— Mesa 5 precisa de mais uma água!
— Pedido da mesa 3 saiu!
— Angélica, leva isso aqui!
Eu m*l parava.
Andava de um lado para o outro com a bandeja nas mãos, desviando das pessoas, equilibrando pratos, tentando não errar.
O calor da cozinha invadia o salão.
O barulho era constante.
E minhas pernas…
Já estavam começando a reclamar.
Mas eu não podia parar.
Eu precisava daquele dinheiro.
Precisava das horas extras.
Faculdade.
Contas.
Meu irmão.
Tudo dependia de mim.
No meio da correria, Diana passou por mim.
— Tá viva ainda? — ela brincou.
— Por enquanto — respondi, ofegante.
Ela riu.
— Aguenta firme. Já já melhora.
Mas não melhorou.
O movimento só aumentou.
Parecia que todo mundo da cidade tinha decidido almoçar ali naquele dia.
Minhas pernas começaram a doer de verdade.
Cada passo era mais pesado que o anterior.
Mas eu continuei.
Sempre continuei.
Porque parar nunca foi uma opção na minha vida.
Por volta das quatro da tarde, o movimento finalmente começou a diminuir.
O restaurante ficou mais silencioso.
Menos gente.
Menos correria.
Encostei por um segundo perto do balcão, respirando fundo.
— Cansada? — Diana perguntou, se aproximando.
— Morta.
Ela riu.
— Eu vou sair daqui a pouco.
Assenti.
— Vai para a boate?
— Sim.
Fiz uma careta.
— Cuidado lá.
Ela cruzou os braços.
— Quem tem que tomar cuidado é você.
— Eu estou trabalhando.
— E ontem também estava, olha no que deu — ela respondeu, direta.
Não tive argumento.
Apenas suspirei.
— Vai ficar até que horas?
— Até fechar.
Ela me olhou com um pouco de preocupação.
— Você está exagerando.
— Eu preciso.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
Sabia que eu não estava mentindo.
— Tá… mas não se mata.
— Pode deixar.
No começo da noite, Diana foi embora.
Antes de sair, me abraçou.
— Qualquer coisa me liga.
— Pode deixar.
E então fiquei sozinha.
Ou melhor… sozinha na parte que realmente importava.
O restaurante continuava funcionando, mas a energia era outra.
Mais tranquila.
Mais lenta.
Mesmo assim… cansativa.
O tempo parecia passar mais devagar quando o corpo já estava no limite.
Minhas pernas doíam.
Minhas costas também.
Mas eu continuava.
Um passo de cada vez.
Um pedido de cada vez.
Já era noite quando comecei a limpar algumas mesas.
O cansaço pesava nos meus ombros.
Mas dentro de mim… algo ainda estava inquieto.
Algo que não tinha nada a ver com trabalho.
Sem perceber, parei por um segundo e olhei para a porta do restaurante.
Como se esperasse alguém.
Como se…
Balancei a cabeça imediatamente.
— Para com isso.
Victor não fazia parte da minha realidade.
Não devia fazer.
Mas mesmo assim…
Uma pequena parte de mim não conseguia parar de pensar nele.
E isso…
Era perigoso.
Fechei is olhos, respirei fundo e falei para mim mesma, — Chega de pensar naquele homem ele não é do seu mundo, depois fui até os clientes que começaram a chegar.