eu nunca deixei ela ir de verdade

1079 Words
Capítulo 18 Ponto de Vista — Victor Tolyatti Eu não conseguia tirá-la da minha cabeça. Aquilo me irritava. Fazia anos que nada me afetava daquela forma. Mulheres sempre foram algo simples na minha vida. Uma distração. Um passatempo. Nada mais. Mas aquela garota… Angélica. Agora eu sabia o nome dela. Depois que ela saiu da minha casa naquela manhã, eu tentei voltar à minha rotina normal. Tentei agir como se aquela noite tivesse sido apenas mais uma. Mas não tinha sido. Dois dias depois, enquanto eu estava no escritório da cobertura que aluguei em São Paulo, Vladimir entrou na sala com aquele olhar que eu conhecia bem. O olhar de quem tinha descoberto alguma coisa. — Achei — ele disse, jogando uma pasta sobre a mesa. Eu nem precisei perguntar sobre o quê se tratava. Abri a pasta lentamente. Fotos. Documentos. Informações pessoais. Nome: Angélica Sousa. Dezenove anos. Estudante universitária. Trabalhava em um restaurante. Morava em um apartamento pequeno com uma amiga chamada Diana. Passei os olhos pelas páginas em silêncio. Havia também informações sobre a família. Os pais mortos em um acidente. Um irmão preso. Meu maxilar se contraiu. — Vida difícil — comentou Vladimir. Fechei a pasta. — Eu não pedi isso. Ele levantou uma sobrancelha. — Não pediu, mas eu sabia que iria querer. Levantei da cadeira e fui até a janela. A cidade de São Paulo se espalhava abaixo de mim, barulhenta e viva. — Eu não vou atrás dela. Vladimir cruzou os braços. — Tem certeza? — Sim. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — Você pensou nela todos os dias desde aquela noite. Não respondi. Porque ele estava certo. — Victor — continuou ele — você já enfrentou guerras, matou homens perigosos e construiu um império. Não faz sentido ter medo de uma garota. Soltei uma pequena risada sem humor. — Eu não tenho medo dela. — Então tem medo do que ela faz você sentir. Virei para encará-lo. — Acabou a conversa. Ele levantou as mãos em sinal de rendição. — Como quiser. Depois disso, decidi fazer o que realmente tinha vindo fazer naquele país. Trabalho. Um dos nossos parceiros no Brasil estava desviando dinheiro da organização. Uma quantia grande demais para ser ignorada. E eu não tolerava traição. Nunca. Algumas informações indicavam que certos homens ligados a ele frequentavam uma boate específica na zona sul da cidade. Então foi para lá que fomos naquela noite. A boate era luxuosa, cheia de gente rica tentando parecer ainda mais rica. Música eletrônica pulsava nas paredes. Luzes coloridas iluminavam rostos sorridentes e corpos dançando. Eu estava sentado em um dos sofás da área VIP com Vladimir, observando tudo ao redor enquanto conversávamos. — O contato deve chegar em meia hora — disse ele. Assenti, girando lentamente o copo de whisky entre os dedos. — Quando ele chegar, vamos descobrir quem mais está envolvido. — E depois? Dei um pequeno sorriso frio. — Depois eles vão desejar nunca ter roubado de mim. Vladimir assentiu, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Para nós, era. Foi então que algo chamou minha atenção. Um movimento. Uma figura caminhando entre as mesas com uma bandeja nas mãos. No começo eu não percebi quem era. Mas quando ela entrou completamente no meu campo de visão… Meu corpo inteiro ficou rígido. Angélica. Meu coração deu uma batida forte no peito. Ela estava diferente. Muito diferente. Usava um vestido preto justo que abraçava cada curva do corpo. O tecido m*l parecia suficiente para cobrir suas pernas. O decote nas costas deixava sua pele exposta de uma forma que fez algo dentro de mim se contrair. A maquiagem estava mais carregada que na noite em que a conheci. Mas os olhos… Os olhos eram os mesmos. Por alguns segundos eu apenas fiquei olhando. Como se não acreditasse que ela realmente estava ali. — Victor? A voz de Vladimir me trouxe de volta. — O que foi? Eu não respondi. Meu olhar continuava fixo nela. — Ah… — Vladimir murmurou ao perceber — então é ela. Angélica caminhava com cuidado entre as mesas, equilibrando a bandeja. Parecia nervosa. Deslocada. Como se aquele mundo não fosse realmente o dela. E não era. Mas então algo aconteceu. Um homem se levantou de um dos sofás próximos e se colocou na frente dela. Jovem. Arrogante. Eu reconhecia aquele tipo imediatamente. Ele segurou o braço dela. O sangue dentro das minhas veias pareceu ferver. Meu maxilar se apertou com tanta força que meus dentes rangeram. — Victor… — Vladimir começou. Mas eu já estava de pé. Eu não sabia exatamente por quê. Talvez fosse o jeito que ele segurava o braço dela. Talvez fosse o sorriso arrogante no rosto dele. Talvez fosse o simples fato de que alguém estava tocando nela. Na minha borboleta. Cada passo que dei em direção a eles fez algo primitivo crescer dentro do meu peito. Raiva. Quando me aproximei o suficiente, ouvi parte da conversa. — Hoje você não vai fugir — o garoto disse para ela. Foi o suficiente. — Solta ela — falei. Minha voz saiu calma. Controlada. Mas mortal. Ele virou irritado. — E você é quem? Dei mais um passo. — Eu disse para soltar ela. Ele apertou ainda mais o braço dela. — E se eu não soltar? Foi aí que minha paciência acabou. Meu punho se moveu quase sozinho. O impacto contra o rosto dele foi forte o suficiente para jogá-lo direto no chão. O som do golpe pareceu cortar o ar. Algumas pessoas olharam. Mas ninguém se aproximou. Talvez porque reconheceram perigo. Talvez porque simplesmente não quiseram se envolver. O garoto estava no chão agora, segurando o nariz sangrando. Eu olhei para ele com desprezo. — Eu avisei. Então virei meu olhar para ela. Angélica me encarava com os olhos arregalados. Surpresa. Confusa. Talvez um pouco assustada. Mas também havia algo mais ali. Reconhecimento. — Você … — ela murmurou. Um pequeno sorriso surgiu no canto da minha boca. Então ela lembrava. Bom. Dei um passo mais perto dela. — Então você lembra de mim, borboleta. O apelido saiu naturalmente. Ela corou imediatamente. Atrás de nós, o garoto ainda tentava se levantar enquanto seus amigos o ajudavam. Mas eu não estava mais prestando atenção nele. Meu foco estava completamente nela. A garota que eu tinha tentado esquecer. A garota que agora estava novamente na minha frente. E naquele momento eu percebi uma coisa. Talvez eu nunca tivesse realmente conseguido deixá-la ir.
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