sábado a noite

1004 Words
Capítulo 6 Angélica Era sábado à noite. O calor parecia ainda mais sufocante do que nos outros dias. O verão em São Paulo tinha esse costume de deixar o ar pesado, quase denso, como se até respirar exigisse esforço. As janelas do meu quarto estavam abertas, mas a brisa que entrava era fraca demais para aliviar o calor — ou o nervosismo que queimava dentro de mim. Eu já tinha revirado o guarda-roupa inteiro. Vestidos estavam jogados na cama, blusas espalhadas pelo chão, sapatos desalinhados perto da porta. Nada parecia certo. Nada parecia bonito o suficiente. Nada parecia adequado para a casa dos Ferraz. — Droga... eu não tenho nada pra vestir — resmunguei, sentando no chão entre a bagunça. Cruzei as pernas e fiquei olhando meu reflexo no espelho. O cabelo ainda preso num coque desleixado, a pele sem maquiagem, as olheiras discretas de quem trabalha demais e dorme de menos. Suspirei. Por que eu tinha aceitado aquele convite? Por que eu acreditava, lá no fundo, que poderia me misturar com gente como eles? — O que aconteceu aqui, um furacão? — a voz de Diana me arrancou dos pensamentos. Ela entrou no quarto, analisou o caos ao redor e soltou uma risadinha divertida. — Nada serve em mim... — murmurei, frustrada, abraçando os próprios joelhos. Ela revirou os olhos, caminhou até mim e estendeu a mão. — Ai, garota… vem cá. Vou te emprestar um vestido. Vai ficar linda, você vai ver. Balancei a cabeça. — Ah, não sei, Diana… Acho que nada vai servir. Eu sou muito gorda comparada a você... As palavras saíram antes que eu pudesse impedir. Eram pensamentos que eu carregava em silêncio há anos. Ela parou na minha frente, segurou meu rosto com as duas mãos e falou com firmeza: — Para com isso, Angélica. Você não é gorda. Você tem curvas. E isso é lindo. Só porque você não é igual às meninas da faculdade não significa que não seja bonita. Engoli em seco. Ela foi até o próprio guarda-roupa e começou a mexer nos cabides até puxar um vestido preto. O tecido era leve, com um caimento delicado, mas tinha presença. Não era vulgar, nem simples demais. Era elegante. — Esse aqui. Em mim ficou meio largo. Em você vai ficar perfeito. Fiquei de pé, ainda insegura. Ela me ajudou a vestir. O tecido deslizou pelo meu corpo, ajustando-se às minhas curvas como se tivesse sido feito sob medida. Quando me virei para o espelho… eu parei. O vestido marcava minha cintura, valorizava meu colo e abraçava meu quadril de um jeito que me fez corar. Ficou um pouco curto, é verdade, mas nada exagerado. — Uau… — sussurrei, dando uma voltinha lenta. — Ficou… lindo. — Eu te disse. — Ela sorriu satisfeita. — Agora senta aí que eu vou fazer sua maquiagem. Sentei na cama enquanto ela organizava os pincéis. Eu a observava com atenção. Diana sempre foi vaidosa, sempre soube realçar o que tinha de melhor. Eu nunca me importei muito. Sempre achei que não adiantava tentar competir. Mas naquela noite… eu queria. Queria ser notada. Queria ser desejada. Queria que Rafael me olhasse diferente. — Você não gosta que eu vá nessa festa, mas vai me deixar bonita? — perguntei, sorrindo de lado. — Justamente porque eu não gosto. — Ela começou a aplicar a base com cuidado. — Se você vai entrar num ninho de cobras, pelo menos entra deslumbrante. Fechei os olhos enquanto ela trabalhava. O toque suave do pincel, o cheiro leve da maquiagem, o cuidado nos detalhes. Quando ela terminou e me entregou o espelho, meu coração quase parou. Eu não me reconheci. Meus olhos pareciam maiores, mais intensos. O batom vinho dava contraste à minha pele. O cabelo, solto em ondas naturais, caía bonito sobre os ombros. Eu parecia… mulher. — Meu Deus… eu tô bonita. — Você sempre foi. Só nunca acreditou nisso. O comentário me atingiu fundo. — Ainda dá tempo de desistir — ela disse, agora séria. Olhei para meu reflexo mais uma vez. — Depois de todo esse trabalho? Nem pensar. Ela suspirou. — Eles fizeram bullying com você o ano inteiro. Agora te convidam pra festa? Parece suspeito. — Talvez tenham se arrependido… — falei, mesmo que uma parte de mim duvidasse. — Talvez só queiram se redimir. Ela não parecia convencida. Mas não discutiu mais. Peguei minha bolsa pequena, conferi o celular e respirei fundo. Desci pelo elevador sentindo o coração acelerar a cada andar que o visor marcava. Era como se eu estivesse descendo rumo a algo maior do que eu conseguia entender. Quando as portas se abriram, Seu João levantou os olhos da bancada e abriu um sorriso. — Nossa, Angélica! Você está linda! Senti minhas bochechas esquentarem. — Obrigada, Seu João… — O Uber já chegou. Agradeci e saí quase tropeçando nos próprios passos. O carro estava parado na frente do prédio. Entrei e fechei a porta com cuidado, tentando controlar o tremor nas mãos. — Casa dos Ferraz, né? — perguntou o motorista. Assenti. Enquanto o carro avançava pelas ruas movimentadas da cidade, eu observava as luzes refletindo no vidro da janela. Meu reflexo me encarava de volta — bonita, arrumada, diferente. Mas por dentro, eu ainda era a mesma garota insegura. “É só uma festa”, tentei me convencer. “Talvez hoje tudo mude.” Talvez Rafael me puxe para dançar. Talvez ele me apresente aos amigos com orgulho. Talvez eu finalmente pare de ser motivo de piada. Mas, no fundo, uma voz sussurrava: E se for uma armadilha? Engoli em seco. Apertei o tecido do vestido entre os dedos como se ele fosse um amuleto de proteção. Meu coração batia tão forte que eu conseguia ouvir nos próprios ouvidos. Eu não sabia o que me esperava naquela mansão. Só sabia que, naquela noite, eu estava disposta a acreditar. Mesmo que isso me custasse caro. Mas eu tinha um sonho de ser aceitar, de ser amada, talvez eu fosse apenas uma garota sonhadora.
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