Capítulo 13
Ponto de Vista — Angélica
Passei o resto do domingo praticamente escondida dentro do meu quarto.
Depois que acordei do pequeno cochilo que tinha tirado pela manhã, fiquei ali, olhando para o teto, tentando organizar meus pensamentos. Mas era inútil. Minha cabeça parecia um emaranhado de lembranças e emoções que eu não conseguia separar.
De um lado, havia a vergonha.
Vergonha de tudo que tinha acontecido na festa. Das risadas. Das palavras cruéis. Das mãos que me tocaram sem permissão. Só de lembrar, meu estômago embrulhava.
Do outro lado… havia ele.
O homem misterioso que tinha aparecido na minha vida como um furacão.
Fechei os olhos e revirei na cama.
— Para com isso, Angélica… — murmurei para mim mesma.
Mas não adiantava.
Cada vez que eu tentava esquecer, alguma lembrança voltava.
O jeito como ele me olhava.
O cuidado quando pensou que eu estava machucada.
O sotaque estranho que eu ainda não conseguia identificar.
Suspirei profundamente e me sentei na cama.
Precisava parar de pensar nisso.
Levantei e fui até a cozinha pegar alguma coisa para comer. Meu estômago estava vazio desde a noite anterior, mas eu m*l tinha percebido.
Assim que abri a porta do quarto, ouvi o som da televisão na sala.
Diana.
Congelei por um segundo.
Meu primeiro impulso foi voltar correndo para o quarto, mas ela já tinha me visto.
— Olha só quem resolveu aparecer! — disse ela, levantando uma sobrancelha.
Forcei um sorriso.
— Oi…
Diana me analisou da cabeça aos pés com aquele olhar investigativo que eu conhecia muito bem.
— Você sumiu ontem.
— Eu… fui dormir cedo.
Ela cruzou os braços.
— Angélica.
— O quê?
— Você acha mesmo que eu sou i****a?
Suspirei.
— Diana, por favor…
Ela me observou por alguns segundos em silêncio. Depois suspirou também.
— Tá bom. Não vou pressionar agora.
Fiquei surpresa.
Ela normalmente não desistia tão fácil.
Fui até a cozinha, peguei um pão e comecei a comer em silêncio enquanto ela voltava a assistir televisão.
Mesmo assim, eu conseguia sentir os olhos dela me observando de vez em quando.
O resto do dia passou lentamente.
Passei horas dentro do quarto, mexendo no celular, assistindo vídeos aleatórios, tentando ocupar a mente.
Mas toda vez que minha mente ficava livre… eu voltava a pensar nele.
No homem misterioso.
E no quanto eu provavelmente nunca mais o veria.
No começo da noite, ouvi Diana se arrumando para ir trabalhar no restaurante.
— Você não vai hoje? — ela perguntou da porta do meu quarto.
— Não… pedi folga.
Ela assentiu.
— Tudo bem. Descansa.
Quando a porta do apartamento se fechou, soltei um longo suspiro de alívio.
Eu estava fugindo dela.
Sabia disso.
Porque, se começasse a perguntar… eu não sabia se conseguiria mentir.
A noite passou devagar.
Acabei dormindo tarde, depois de muito tempo rolando na cama.
Quando o despertador tocou na manhã seguinte, quase joguei o celular contra a parede.
— Droga…
Levantei com dificuldade, sentindo meu corpo pesado.
Fui até o banheiro, lavei o rosto e tentei parecer o mais normal possível.
Mas algo dentro de mim ainda estava diferente.
Quando saí do banheiro e fui até a cozinha…
Diana estava sentada à mesa.
Com uma caneca de café nas mãos.
E um olhar que eu conhecia muito bem.
O olhar de quem estava esperando.
— Bom dia — ela disse calmamente.
— Bom dia…
Peguei uma xícara e comecei a preparar café, tentando parecer ocupada.
Mas o silêncio entre nós ficou pesado.
Até que ela falou.
— Então…
Continuei olhando para a cafeteira.
— Então o quê?
— Vai me contar o que aconteceu?
Suspirei.
Sabia que esse momento chegaria.
— Não tem nada para contar.
Ela soltou uma risada curta.
— Angélica… você chegou em casa ontem de manhã com a maquiagem borrada, cabelo bagunçado e usando uma camisa que claramente não era sua.
Meu coração deu um pequeno salto.
— Eu…
— Além disso — ela continuou — você passou o dia inteiro trancada no quarto.
Virei de costas para ela.
— Eu só estava cansada.
Diana ficou em silêncio por alguns segundos.
Então falou mais suave.
— Foi na festa do Rafael, o que aconteceu lá?
Aquela pergunta fez meu peito apertar.
Fiquei alguns segundos sem responder.
— Eu não quero falar sobre isso — disse finalmente.
Ela se levantou da cadeira e caminhou até mim.
— Angélica…
— Eu disse que não quero falar.
Minha voz saiu mais firme dessa vez.
Ela parou.
Ficamos em silêncio.
Eu sabia que Diana só estava preocupada.
Ela sempre esteve ao meu lado.
Mas eu simplesmente… não conseguia contar.
Não ainda.
Depois de alguns segundos, ela suspirou.
— Tá bom.
Olhei para ela, surpresa.
— Sério?
— Sim. — Ela pegou a bolsa sobre a mesa. — Mas saiba de uma coisa.
— O quê?
Ela me encarou com seriedade.
— Quando você quiser falar… eu estou aqui.
Meu coração apertou um pouco.
— Obrigada.
Ela assentiu e caminhou até a porta.
— Vamos nos atrasar se não sairmos agora.
Peguei minha bolsa rapidamente.
Saímos juntas do apartamento e entramos no elevador.
Durante o caminho até o restaurante, o silêncio permaneceu entre nós.
Mas não era um silêncio r**m.
Era o tipo de silêncio que existe entre pessoas que se conhecem bem demais.
Mesmo assim, minha mente estava longe dali.
Muito longe.
Porque, sem que Diana soubesse…
Meu pensamento continuava voltando para o mesmo lugar.
Para os olhos azuis daquele homem.
Para o toque dele.
E para a estranha sensação de que aquela história ainda não tinha terminado.
Mesmo que eu não tivesse ideia de como nossos caminhos poderiam se cruzar novamente.