VALENTINA
O dia m*l começou e eu já estou com o corpo moído, a cabeça pesada e a alma em pedaços.
Já amanheceu. E eu? Me sinto horrível.
Sem ânimo.
Sem energia.
Sem vontade de absolutamente nada.
Levanto-me arrastada da cama e vou direto para o banheiro. Faço minha higiene matinal tentando não encarar muito meu reflexo no espelho.
O cheiro do café começa a invadir o pequeno apartamento. Faço tudo no automático. Preparo a mesa, suspiro fundo... e vou cumprir o segundo ritual da manhã: acordar a dorminhoca.
— Bom dia, Cris! Bora levantar, já são quase sete!
— Ahhh, não! Só mais cinco minutinhos, Val... — ela geme, se enfiando no travesseiro.
— Menina, faz um ano que você trabalha na cafeteria e ainda não aprendeu a acordar cedo? Pior funcionária premiada do Rio!
Puxo o lençol e ela se senta com uma cara péssima.
— Você é uma amiga péssima! — reclama, saindo da cama como se tivesse sido agredida.
— Também te amo, miga — digo rindo, enquanto sigo para o quarto do meu pequeno.
Abro a porta devagar. Enzo dorme tão sereno... me dá até um aperto no peito ter que acordá-lo. Mas não tem jeito.
— Amor da mamãe... tá na hora de levantar, bebê.
Ele se mexe, esfrega os olhinhos e sorri ainda com a boquinha torta de sono. Só isso já melhora meu dia um pouquinho.
No caminho até a faculdade, a cena da noite anterior não sai da minha cabeça. Brian. A arrogância em forma de homem. Um cretino de marca maior.
Mas que cretino gostoso, c*****o.
Suspiro, irritada comigo mesma.
— Espero nunca mais cruzar com aquele filho da p**a.
Estaciono o carro e sigo pelos corredores da universidade. Me esforço pra parecer bem.
— Oi, Valentina! Tudo certo? — diz Caio, vindo em minha direção com aquele sorriso fofo.
— Oi, Caio! Tudo sim — sorrio de volta.
Caio é um amor. Um colega da faculdade que tá sempre por perto. Eu sei que ele tem uma quedinha por mim, mas finjo que não percebo. Ele não merece ser magoado.
Conversamos tanto que quase perdemos a hora da primeira aula. Mas, sinceramente? Era disso que eu precisava hoje: distração.
—
BRIAN SANCHES
Noite de merda.
Não dormi quase nada. A p***a daquela dançarina não saiu da minha cabeça. Fecho os olhos e vejo os dela. Ou melhor, os que consegui ver por trás da máscara. Intensos. Desafiadores.
Acordo de mau humor, exausto, e tomo um banho gelado pra ver se acordo de verdade. Me visto rápido, preparo um café forte, bebo sem nem adoçar e saio.
Hoje é dia de ação.
Temos que fechar um ponto de fabricação de drogas que estamos monitorando há meses. E esses filhos da p**a ainda tiveram a audácia de instalar o laboratório em frente a uma escola infantil.
Desgraçados.
Chego na delegacia e cumprimento os agentes de plantão com um rápido "bom dia". Vou direto para minha sala.
Não demora muito e o Lucas entra sem bater, como sempre. Maldito.
— E aí, irmão, dormiu bem?
— Dormi o c*****o, Lucas. Tô um caco — resmungo, jogando uns papéis na mesa.
— Ih, que mau humor é esse? Vai me dizer que a ruiva da boate não deu no couro?
— Pelo contrário. Meu amigo nunca decepciona — digo com um sorriso canalha. — Aliás, esqueceu daquela noite em que te mostrei como ele funciona?
— Vai tomar no cu, Brian! — ele ri. — O viado aqui é você, c*****o!
— Cala a boca, seu i****a. E pra responder sua pergunta... o problema foi ela.
— Ela quem?
— A p***a da dançarina. A Esmeralda.
Lucas franze o cenho.
— Você ainda tá pensando nela?
— Aquela mulher não me sai da cabeça. E o pior... tem algo nela. Não sei. É como se eu a conhecesse de algum lugar.
— Cara... você tá obcecado. E isso não combina contigo.
— Não é obsessão. É... raiva.
Raiva por ela ter me virado as costas. Por ter me feito sentir que fiz algo errado. Por ter me deixado... sem controle.
Balanço a cabeça, irritado.
— Mas f**a-se. Deixa essa louca pra lá. Vamos focar na operação. Tá tudo pronto?
— Tudo certo. É só dar o comando.
Me levanto, coloco o colete, pego a pistola e verifico as munições. O sangue começa a circular com mais força.
— Hoje vamos acabar com esses merdas.
E quem sabe...
Esquecer uma dançarina de máscara que me fez sentir coisas que nenhuma mulher jamais causou.