VALENTINA
Não consegui prestar atenção em absolutamente nada da aula hoje. Meus pensamentos estavam ocupados com um certo delegado i****a, dono de um ego maior que o bíceps e um olhar que dá calor até no Ártico.
Acredito que seja porque não vou mais vê-lo. Aleluia. Glória a Deus.
O sinal toca e me arranca daquele devaneio forçado. Junto minhas coisas e sigo até o estacionamento para buscar meu carro.
No caminho até a escolinha do Enzo, noto algo estranho assim que me aproximo: viaturas. Muitas. E policiais armados até os dentes.
A movimentação está a menos de cinco metros da escola. Meu coração dispara.
— Bom dia, Seu José! — falo, me aproximando do porteiro da escola. — O senhor sabe o que tá rolando por aqui?
— Parece que estão fechando uma boca de fumo ali naquela casa da frente — ele responde, ajeitando o boné.
— O quê? Uma fábrica de drogas bem na frente da escola? Em que país a gente tá vivendo, hein?
— O mundo tá perdido, minha filha...
— Não, Seu José... o mundo não. As pessoas. Elas é que tão ficando cada vez mais podres.
Cheguei cedo demais para buscar o Enzo, mas não ligo. Gosto de conversar com o Seu José — ele me lembra o meu pai. Um pouco mais rabugento, mas com o mesmo coração bom.
Dou mais uma olhada no movimento… e aí, pronto. A visão do apocalipse: Brian.
O delegado gostoso, insuportável, e agora também uniformizado com colete e uma pistola na mão. O combo completo da desgraça. Ele algema um suspeito com uma facilidade indecente, passa instruções para outro policial e… vem na minha direção.
Ai. Lá vem merda.
— O que você está fazendo aqui no meio da rua? — ele pergunta, autoritário e todo “macho fardado”.
— Rua? — arqueio a sobrancelha. — Querido, essa é a calçada. Estuda topografia antes de vir falar comigo, tá bom?
Ele bufa, e eu quase sorrio.
— Isso aqui é uma operação policial. É perigoso.
— Ah, jura? Eu achei que fosse uma festa temática de ‘Tropa de Elite’. E, pra sua informação, eu vim buscar o meu filho.
Os olhos dele se arregalam.
— F-filho? Você tem filho?
— Sim. Algum problema? Crianças costumam vir ao mundo por vias normais, sabia?
— É que… você parece nova demais pra ser mãe.
— Oi? É hoje que a polícia vai investigar a minha certidão de nascimento? Me poupe.
— Espera aí… eu te conheço. Você é a maluca que esbarrou em mim na faculdade semana passada!
— Sim, sou eu. Mas a louca é a sua avó, querido.
Ele dá um passo à frente, irritado.
— Olha como fala comigo, garota, ou vou acabar te prendendo por desacato à autoridade.
— Vai me prender por quê? Por estar esperando meu filho, quieta, na calçada, e ter respondido à altura um machão fardado que veio me chamar de louca?
— Você é muito atrevida pra uma garota tão bonita.
— E você é muito babaca pra um homem com crachá.
Ele ri, balança a cabeça como se tivesse achado graça. E eu sigo afiada:
— E antes que comece com insinuações, não sou casada. E sim, eu sou mãe solteira. Existe, tá? E se continuar falando comigo nesse tom, eu te denuncio por assédio. Cê vai sair daqui direto pra um boletim de ocorrência.
Dou meia-volta com um sorriso vitorioso e entro na escola pra buscar meu filho.
Quem ele pensa que é? Só porque tem uma arma na cintura e um maxilar esculpido, acha que pode dar carteirada?
Spoiler: não pode.
— Mamãe! — Enzo corre até mim, sorrindo, com os bracinhos abertos.
— Meu amor! Vamos pra casa?
— Vamos!
Pego ele nos braços, sentindo aquela paz que só ele me traz. Saímos juntos, e antes de entrar no carro, olho de canto e vejo o delegado ainda ali. Sério. Me encarando.
Dou um leve sorriso sarcástico, coloco o Enzo na cadeirinha, entro no carro e sigo para casa.
E quer saber?
Babaca gostoso.
Fim.
(***)
BRIAN SANCHES
A operação foi um sucesso.
Cercamos a casa, arrombamos a porta e demos voz de prisão aos desgraçados. Uma fábrica de drogas montada em frente a uma escola infantil. A audácia me dá nojo.
— Todo mundo na parede, mãos nas costas! Primeira gracinha, eu atiro!
Algemamos todos. Comecei a organizar o transporte dos presos, até que meus olhos captaram uma silhueta do outro lado da rua.
Não. Não pode ser.
Mas é.
A mulher. Cabelos escuros. Pele clara. Altura média. Postura debochada. Tudo nela me lembrava ela. A dançarina mascarada. A mulher que me deu um tapa e ficou grudada na minha cabeça desde então.
Peço ao Lucas que continue com a operação e vou até ela.
E quando abro a boca, me arrependo em dois segundos. Porque ela me responde com sarcasmo e acidez na mesma medida.
Ela não recua. Me enfrenta com os olhos e com a língua afiada. Me insulta com educação. E me enlouquece ainda mais.
Tem algo nela que me irrita… e excita.
Uma mistura que não consigo controlar.
Quando ela menciona um filho, fico surpreso. E mais ainda quando ela praticamente me chama de “babaca institucionalizado”.
Ela entra na escola sem olhar pra trás.
E eu fico ali, como um i****a, desejando uma mulher que já me chutou duas vezes — e sorriu enquanto fazia isso.
Na delegacia, Lucas me chama pra comemorar o sucesso da operação. Diz que quer voltar à boate.
Mas não tô no clima.
Recuso com um aceno e ele me chama de babaca, rindo.
Mal sabe ele que o verdadeiro problema não tá na boate...
Tá andando de salto, com batom e um filho no braço.
E tá me deixando louco.