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778 Words
Nos últimos seis anos, a vida de Eva mudara completamente. Ela deixara de ser a menina frágil e sonhadora que passava as tardes no jardim da mansão dos Di’Angelo ao lado de Carlos, esperando que ele cumprisse sua promessa. Com o tempo, as lembranças daquele dia ficaram mais distantes, mas nunca desapareceram completamente. Ela ainda podia sentir a mão dele segurando a sua, a firmeza de sua voz ao prometer que voltaria. Mas Carlos nunca voltou. O mundo seguiu em frente. A guerra entre os Di’Angelo e os Portinari se tornara apenas um sussurro no submundo. Dom Vittorio se fora, a mansão dos Di’Angelo permanecia fechada e esquecida, e a fortuna que um dia fora símbolo de poder havia simplesmente desaparecido. A única certeza era que Carlos não existia mais. Ou, pelo menos, era isso que todos diziam. Luca Portinari não era apenas um marido dedicado a Sofia. Ele era um homem que, desde o primeiro momento, amara Eva como sua própria filha. Quando a conheceu, ela era uma garotinha triste, assombrada por um passado que ninguém conseguia apagar. E, talvez, tenha sido essa tristeza que o fez se apegar a ela tão rapidamente. Luca a criou, cuidou dela, protegeu-a e, com o tempo, tornou-se o pai que ela nunca teve. Mas, apesar do carinho e da nova vida que levaram juntos, Eva nunca conseguiu se libertar completamente das sombras do passado. Agora, aos dezessete anos, ela era uma jovem linda, inteligente e reservada. Sua beleza delicada, quase etérea, chamava atenção por onde passava, mas era seu silêncio que a tornava um mistério. Ela não era fria nem distante, mas raramente se abria para alguém. Talvez por isso não tivesse muitos amigos. Luca tentara de tudo para fazê-la sorrir mais. Ele a incentivava, tentava distraí-la e até usara seu poder e influência para buscar qualquer vestígio de Carlos. Mas tudo parecia um beco sem saída. Carlos Di’Angelo não existia mais. E, depois de tanto tempo, até Luca começou a acreditar que talvez fosse melhor assim. Agora, estavam deixando a Itália para trás de vez. Era um pedido de Sofia, e ele não podia negar nada à mulher que amava. Ela queria uma vida longe da máfia, um recomeço. Com anos de trabalho e investimentos bem feitos, Luca conseguiu sair daquele mundo sem carregar dívidas de sangue. E, para Eva, isso significava mais do que uma nova casa. Significava uma nova vida. Ela fora aceita na Excelência Academia, uma instituição de elite localizada no interior do estado de Washington. Era um lugar onde apenas os herdeiros mais poderosos do mundo estudavam: filhos de diplomatas, membros da realeza, futuros CEOs de impérios bilionários. A academia era quase uma cidade própria, um mundo distante do resto da civilização. Para muitos, era uma oportunidade de ouro. Para Eva, era apenas mais um destino desconhecido. Luca teve dificuldades para conseguir uma vaga para ela, pois, apesar de sua fortuna, não era um homem absurdamente rico. Mas Eva era excepcional — uma aluna brilhante, fluente em inglês, francês e japonês. Ainda assim, a escola a rejeitou, até que, um dia antes da viagem, uma ligação mudou tudo. Havia ocorrido uma desistência. Eva seria aceita. E agora, estavam todos no aeroporto, prontos para embarcar rumo à América. Eva olhou ao redor do aeroporto movimentado. O anúncio de voos ecoava pelos alto-falantes, pessoas apressadas passavam de um lado para o outro, malas deslizavam pelo chão de mármore. Ela não estava nervosa, mas sentia uma estranha melancolia se instalar em seu peito. Mesmo que sua infância não tivesse sido perfeita, a Itália ainda era sua casa. Era ali que suas lembranças estavam. Era ali que Carlos estava. Ou, pelo menos, onde ele deveria estar. “Está pronta?” Luca perguntou, sorrindo para ela. Ele sempre tentava parecer tranquilo, mas Eva sabia que, no fundo, ele estava ansioso. Afinal, essa mudança não era apenas sobre ela. Era sobre todos eles. Sofia segurou a mão do marido e sorriu. Ela parecia feliz. Depois de anos convivendo com o medo da máfia, agora ela finalmente teria paz. Eva assentiu lentamente. “Sim.” Mas não tinha certeza se era verdade. Antes de seguir para o portão de embarque, ela lançou um último olhar para o aeroporto, para as pessoas, para o país que deixaria para trás. E, no fundo, por mais irracional que parecesse, ainda esperava encontrar Carlos ali, em algum canto, esperando por ela. Mas ele não estava. Ele nunca estava. E talvez nunca mais estivesse. Com um suspiro, ela apertou a alça da mochila e seguiu seus pais pelo corredor. A Itália ficaria para trás. E com ela, tudo o que um dia foi sua vida.
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