Era uma manhã cruel e fria, para Celine. Mais uma vez, ela abriu os olhos e o chuveiro já estava ligado. Ela podia ter ido se juntar a seu marido, mas estava irritadiça naquela manhã e não tinha qualquer força para levantar e correr atrás de uma rapidinha no banheiro.
Então, ela fez bastante esforço para levantar e ir até a cozinha. Depois do café da manhã, ela tomou seu banho no banheiro do andar de baixo e saiu. Ali, ela e Victor nem mesmo se encontraram para um beijo de bom dia.
Rumo à empresa, ela recebeu vários currículos de interessados em ser seu novo estagiário, mas Alberto Barnes estava pessoalmente em sua sala, aguardando uma indicação particular.
— Bom dia, senhor Barnes.
O cumprimentou, ao vê-lo parado na porta.
— Esqueça as formalidades, já conversamos sobre isso, Avis.
— Eu sei, mas não quero exagerar na frente dos funcionários. Eles podem...
— Pensar que transamos e por isso você está aí? Nós dois sabemos que você é boa demais pra precisar disso.
Ambos entraram, com um sorriso amigável no rosto. Celine caminhou em seu salto alto em passos rápidos até sua cadeira, enquanto Alberto fechava a porta.
— A maioria não pensava isso há sete anos. Mas me diga, o que o traz aqui?
— Tenho um sobrinho que gostaria muito de trabalhar com você. É um pouco distante, o parentesco, na verdade, mas foi um favor que pediram.
— Pra qual cargo seria? Tenho que conferir o quadro de funcionários.
Ela digitou a senha no computador, a fim de abrir a pasta com os cargos vagos naquele mês. Ainda não tinha colocado a de estagiário, o que não impediu que todos já soubessem, principalmente o dono da empresa.
— Parece que a vaga para seu estagiário está vazia.
Sugeriu, deixando os cabelos de Celine em pé. Ela meneou a cabeça, em negação.
— Ah, Alberto, tenho muito respeito por você, mas isso...
— Eu sei, eu sei, entendo que é seu espaço pessoal e você quer pessoas competentes ao seu lado, mas ele não dará trabalho algum.
Celine levantou e tirou seu sobretudo preto, permitindo que seu terninho azul escuro fosse revelado.
— Não sei. Preciso pensar.
— Será somente três meses. Pra ter experiência. Olha, ele tem um bom currículo.
Alberto entregou um papel com um currículo com informações duvidosas. A parte das habilidades eram reais. Tinha feito faculdade de Designer de Interiores e depois Arquitetura, trabalhando na área por pouco tempo. Quando a mãe faleceu, dedicou-se a passar o tempo em festas e viagens, deixando parte de sua paixão de lado.
Celine deixou o sobretudo em sua cadeira e deu uma olhada básica no currículo do rapaz. Parecia, de fato, promissor, mas ele era um homem de 37 anos e aquele cargo geralmente era ocupado por pessoas mais jovens. Apesar de que, aos 34 anos, ela estava ocupando aquele cargo, porém de onde tinha vindo, oportunidades como aquela não eram dispensáveis e, exatamente aquilo, fez ela se tornar quem era e chegar onde chegou.
— Não acha que ele deveria procurar algo que pague melhor? Quer dizer, apesar de dizer que ele é solteiro e sem filhos, um homem de quase 40 poderia querer algo mais.
— Ele passou por um período muito difícil e longo e não quer nada que vá sobrecarregá-lo agora. É um homem que ainda não cresceu conforme sua idade.
Alberto sentou, cruzando as pernas e abotoando seu terno.
— Entendo. Bom, você disse três meses, não é? Acredito que posso fazer isso. Mas se ele fizer alguma coisa que atrapalhe na rotina da empresa, serei obrigada a mandá-lo embora.
— É claro.
Ele concordou, acenando com a cabeça.
— Eu sei que você é o dono e naturalmente manda em tudo, mas esse é exatamente o tipo de coisa que atrapalha o crescimento de uma empresa.
— Eu entendo perfeitamente seu ponto e respeito. Você conhece essa empresa melhor do que eu e confio totalmente em você para tomar as decisões.
Celine deu um sorriso singelo, pois sabia que mesmo com os outros julgando e sempre trazendo questões do tipo à tona, ambos tinham uma relação verdadeira de amizade e respeito.
Alberto podia ser muitas coisas, um homem que precisava ser saciado, ouvido, ter seus desejos atendidos com urgência, controlador e um pouco egocêntrico, mas sabia quem devia enfrentar e quais armas usar. E por melhor que fosse nos negócios, ninguém poderia comandar aquela empresa como Celine fazia, por isso necessitava que seu filho aprendesse com a melhor, sem ela saber, é claro, já que suas intenções era fazer com que ele a substituísse.
— Bom, vou fazer com que ele venha aqui depois do almoço, para uma entrevista formal.
Ele se levantou, arrumando o terno, para não mostrar qualquer amassado.
— Perfeito. Estarei aguardando. E mande um beijo pra Grace.
— Mando sim. Ela está com muita saudades.
— Vou marcar pra gente se ver na próxima semana.
— Vai demorar tanto pra esse milagre acontecer que vocês só vão se ver no meu enterro.
Ele deu uma risada, e ela o acompanhou, sem saber que ele estava falando mais sério do que parecia.
Confiava bastante nela, mas não queria que mais ninguém soubesse da sua doença. Não até que Chase tivesse estabelecido uma base de confiança na empresa e tivesse uma experiência particular com a melhor. Depois que tudo acabasse, ele poderia contar a ela, afinal, Selma fazia parte de sua vida e dos seus filhos há mais de 20 anos. Parecia até uma espécie de traição não lhe revelar que estava à beira da morte. E que tinha feito uma piada horrível com isso sem que ela soubesse.
Alberto saiu da sala de Celine e ligou para Chase. Ele estava sentado na sacada do quarto, olhando para além do que a paisagem transparecia, com um copo de Gin na mão, quando o telefone tocou.
— Oi pai.
A princípio, Alberto ignorou a voz melancólica e mais grossa do que o normal do filho.
— Tem uma entrevista marcada com Celine Whitney essa tarde. Não se atrase.
— É claro. A-algo mais?
Alberto conhecia aquela voz lenta e desconcertada, como se estivesse em outro mundo.
— Chase, você está bêbado a essa hora da manhã?
— Quem está sã uma hora dessas?
— Ah, puta merda. Você vai estragar tudo, como sempre. Onde está agora?
— Em...
Ele soluçou, deixando Alberto ainda mais irritado do outro lado da linha.
— ...casa.
— Fica exatamente onde está.
Alberto entrou no carro e pediu para o motorista acelerar até em casa.
Ele bufou, quando desligou o telefone, e começou a se perguntar porque tinha permitido que os filhos chegassem àquele ponto.
Mas ele sabia que não conseguia tirá-los de lá, no começo, porque também estava afundado dentro de sua dor, como uma criança em posição fetal, chorando dentro de uma caverna fria e escura, que não consegue sair de jeito nenhum. Não tinha forças o suficiente para se levantar e ir embora do buraco que tinha se enfiado e, se na época, Celine não fosse sua estagiária e tivesse segurado tanto a barra, não fazia ideia do que teria acontecido com sua empresa e toda sua vida, já que todo o luxo provinha do lucro que ela dava.
Ele demorou pra perceber, levou alguns anos até que se deu conta de que não tinha mais energia e a mesma força de vontade de antes e precisou deixar alguém no comando da empresa. E lógico, não podia colocar um desconhecido em seu lugar ou qualquer um dos acionistas gananciosos. Tinha que ser alguém de sua extrema confiança. E apesar dos comentários de que ele era apaixonado por ela ou que Celine precisou transar com ele pra alcançar o topo, ambos não se importaram e mantiveram a parceria ao longo dos anos. E em três anos com ela de CEO, filiais de sua empresa estavam espalhadas por todo o mundo, graças ao talento para o sucesso que Celine emanava.
Alberto respirou fundo. Sabia que parte do que acontecia era culpa dele e não podia exigir demais dos filhos agora, estando tão perto da morte. Não era nenhum pouco saudável e muito menos traria o que ele mais precisava naquele momento, a paz.
Chase colocou a garrafa no chão, depois de pôr a última gota no copo e bebê-la de vez.
Não estava se importando com a entrevista, com seu futuro, não quando seu pai estava morrendo. Ele precisava atender seu pedido, mas como fazer isso quando a morte está tão perto?
Ele se levantou, cambaleando. Pegou o telefone e se jogou na cama.
— Travis? Preciso conversar.
— Oi Chase! Eu tô no meio do expediente, mas posso dar uma escapada no almoço. Onde te encontro?
— Larga essa porra aí e vem aqui em casa. Eu pago sua diária.
Travis segurou a risada, estava quase entrando novamente na cozinha. Tinha parado pra fumar por dois minutos quando o melhor amigo ligou.
— Falando desse jeito parece que sou seu amante.
— Você bem que gostaria.
Chase sussurrou, dando um injeção de ânimo no amigo que, se não soubesse que ele estava bêbado e carente, certamente seria obrigado a fazer uma visitinha na casa dos Barnes.
— Quem sabe em uma circunstância onde você não esteja bêbado. Tô quase sentindo o bafo de álcool daqui. O que tá acontecendo?
— Deixa, não quero mais falar com você.
— Você tá mal mesmo.
— Vai a merda.
— Tenha um bom dia querido.
Chase desligou e jogou o celular na parede. Completamente irritado, ele se levantou resmungando. Não falava coisa com coisa, enquanto procurava uma roupa, porque ainda estava sem roupas.
Ele conseguiu sentar, depois de quase cair, pra pôr as calças. Alberto abriu a porta logo quando ele fechou o botão.
— Precisa de um banho, agora mesmo.
— Não... Preciso beber, isso sim.
— Escuta filho, eu sei que essa notícia deve ter te abalado muito, mas precisa criar responsabilidades. Eu não vou estar mais aqui pra cobrir suas merdas, entende? Tá na hora de virar homem, Chase.
Chase ficou calado, a mente girando e o corpo suado e trêmulo.
— Vem, vou te levar pro chuveiro.
Alberto segurou o filho pelos ombros e o ajudou a entrar no banheiro. Chase sentou na banheira e deixou que seu pai ligasse o chuveiro.
Enquanto as gotas de água caíam sobre a cabeça de Chase, a mão de seu pai segurava a sua. Ele era um garoto crescido, mas que estava prestes a sofrer mais uma grande perda, e por mais natural que isso seja, não há como tratar isso com naturalidade ou simplesmente aceitar como se não machucasse a alma.
Eles ficaram ali por algum tempo, até que Alberto sentiu que precisava sair do banheiro e deixar o filho a sós. E foi nesse momento, que Chase aproveitou pra chorar e tentar aliviar a dor que sufocava seu peito.
Tinha de ser um homem forte e cumprir com o desejo de seu pai, que não era nada mais do que ele realmente devia fazer. Era o filho mais velho e tinha mais afinidade com a empresa do que os irmãos e era necessário aprender como administrar aquilo, de forma que seu pai pudesse sentir orgulho, independente de onde estivesse.
Depois de mais algum tempo, ele deixou que a água levasse suas lágrimas e levantou com a cabeça no lugar, ainda que martelando. Ao sair do banheiro, seu pai estava de pé na sacada. Chase vestiu uma calça e foi até seu pai, que encarava o horizonte.
— Eu sei que não é fácil. Acredite, pra mim também é doloroso partir e deixar vocês. Mas é a ordem natural da vida. Um ciclo que todos nós vamos seguir e o único que não há forma de romper. A morte é o destino final de todos nós, meu filho. Mas o que fazemos em vida pode ser eternizado pra muito além de nossa partida. E o legado de nossa empresa, é a minha forma de ser eterno.
— Pai...
— O que fazemos, Chase, é mais do que organizar eventos, garantir a segurança e o bem estar de todos os convidados e anfitriões. Nós damos a essas pessoas, os melhores momentos de suas vidas. Ela jamais vai esquecer o dia do seu casamento ou o aniversário de 30 anos. Damos as pessoas memórias. E isso, é a única coisa que levamos quando morremos. E também, o que sobra para quem fica. Quando eu me for, só restará memórias. E eu quero lembrar do dia em que você se tornará um Barnes de verdade e assumirá a empresa como deve. E quando esse dia chegar, o seu primeiro evento vai ser um casamento. O seu casamento.