— O quê?
Enquanto o filho estava no banheiro, Alberto começou a pensar nas coisas que lhe trouxeram mais responsabilidades quando era jovem.
Na época em que conheceu Winnie, ele também era descuidado e irresponsável, mas quando se apaixonou perdidamente por ela, precisou mudar para provar que era digno dela. Isso tinha sido outra época, é claro, 40 anos antes, mas se tinha algo que podia trazer algum nível de responsabilidade, era um casamento.
Chase tinha tido suas decepções amorosas e por isso não tinha qualquer planejamento de se casar, ele sabia disso, mas como deixaria a empresa nas mãos dele? Ele achava que uma pessoa que não conseguia nem mesmo ter um compromisso de casamento não podia ter responsabilidade suficiente para administrar uma empresa. Um pouco antiquado, ele tinha plena consciência disso, mas não se importava. Para Alberto, ambas as coisas exigiam um nível de intimidade e dedicação que não se ensinava em escolas ou faculdades.
— Chase...
— Você não está propondo o que estou pensando, não é?
— Seria apenas por um ano. Um contrato de casamento por um ano, e depois pode se divorciar e ficar com a empresa.
— Ninguém em sã consciência toparia uma merda dessas!
— Na verdade, eu conheço a pessoa certa. Mas pra isso acontecer, você precisa colaborar.
Chase saiu da sacada, dando risada e andando de um lado a outro. Aquela ideia era absurda demais. Como o pai podia pensar em algo assim?
— Não, eu me recuso. Eu vou naquela entrevista idiota e fico três meses como estagiário, mas de jeito nenhum vou me casar.
— Vai deixar seu pai morrer sem realizar o desejo dele?
— Não posso fazer todas as suas vontades porque está morrendo, papai!
— É isso? Não pode fazer um mero sacrifício por mim? Isso não vai te matar! Depois do tempo passar, pode se divorciar e fazer o que quiser da sua vida. Não estarei mais aqui mesmo.
Alberto andou até a saída do quarto. Chase massageou as têmporas, com a dor lancinante, fazendo sua cabeça girar novamente, e com o coração em frangalhos. Não podia deixar de atender aquele pedido. Nenhum de seus irmãos tinham se casado e ele não pediria a eles, mesmo sabendo que ambos provavelmente cederiam àquela loucura na hora, sem pensar muito.
Alberto abriu a porta e olhou para o filho.
— Não precisa ir a entrevista.
— O quê? Por que?
— Sem casamento, sem empresa.
— O que é isso? Chantagem?
— O único jeito de você criar alguma responsabilidade é se estiver casado. Além do mais, não poderia permitir que alguém sem qualquer experiência e com menos de 38 anos assumisse a empresa, estando solteiro.
— Eu não entendo o que uma coisa tem a ver com a outra.
— Regras da empresa. E também uma questão de criar responsabilidade, coisa que você não tem.
Chase sabia que o pai não voltaria atrás. E mesmo que fosse direito dele assumir a empresa, Aiden e Grace não teriam qualquer problema em ocupar o cargo. Ele continuaria tendo alguma porcentagem, claro, mas nem de longe seria a mesma coisa que ser o CEO e responsável legal pelas ações que o pai detinha. E seria apenas um ano, não é? Passaria mais rápido do que ele sentiria. Quando piscasse, estava solteiro de novo.
— Não cancele a entrevista. Eu irei.
— Isso significa que aceitou minha proposta?
Ele revirou os olhos e concordou, envergonhado de dizer aquilo em voz alta.
— É, pai. Irei me casar. Mas só depois que conclui o estágio. Pelo menos posso me divertir até lá.
— Perfeito. Vou marcar um jantar de noivado pra que você a conheça e marcaremos a data.
Alberto saiu, com um sorriso de vitória em seu rosto.
Sabia que Chase jamais deixaria aquela oportunidade passar e se tornar CEO era um de seus desejos ocultos que ele não revelava porque não tinha forças para lutar por ele. Mas com a morte dele se aproximando, não tinha outra opção. Precisava fazer algum esforço pelo que desejava ter, totalmente o contrário do que houve nos últimos anos.
Chase deitou na cama e resmungou, se perguntando que tipo de merda ele estava fazendo com a sua vida.
Não estava tudo perfeito, os últimos anos tinham sido uma bagunça, uma coisa repetitiva e sem graça, que parecia um ciclo sem fim. Não importava qual bebida tomasse, qual droga usasse ou qual mulher ou homem se deitasse, nada fazia sentido. Estava tudo vazio. Oco. Como um coco seco.
Mas se casar com alguém que ele nunca tinha visto na vida e não sentia absolutamente nada? Isso era demais até pra ele.
Depois do almoço, ele tomou outro banho e colocou um traje formal. Ao sair do banheiro, seu pai tinha deixado uma peruca e óculos grandes pra que ele usasse e mantivesse um disfarce. Por algum motivo estranho, ele não queria que nem mesmo a Celine, alguém que ele confiava tanto e que tivera convivência durante anos com seus irmãos, soubessem quem ele era.
O bom é que ela não o reconheceria, porque ele quase nunca aparecia em reuniões e festas dadas pelo pai. Além do mais, na época em que ela era babá da Grace, ele não parava em casa, então não tinha como ela reconhecê-lo.
Mas para evitar ser reconhecido pelos funcionários e os diversos clientes famosos, ele teria de usar uma peruca horrorosa e óculos enormes.
Chase ajeitou seu cabelo de verdade e com muita dor no coração, pôs a peruca. Ele tinha um cuidado exagerado com o cabelo, chegando a gastar milhões de dólares por ano com cuidados especiais com as madeixas.
— Se horas usando essa porcaria de peruca der algum prejuízo ao meu cabelo, o senhor pagará cada centavo pela recuperação.
— Relaxa, ninguém nunca morreu por usar peruca. Pelo menos eu acho.
Chase bufou e saiu até a garagem, se deparando com um carro aparentemente velho, para o estilo que eles usavam.
— O que é isso?
— Um carro, ora essa. Não quer chegar no trabalho usando um carrão ou chegando de motorista, não é? A ideia é se passar por alguém necessitado e não o filho do dono.
— Ah, mas que merda.
Ele pegou a chave e tornou a dirigir até a empresa.
A essa altura, Celine nem mesmo fazia ideia das horas, já que não tinha parado pra fazer absolutamente nada além de beber água e café com leite.
Alguém bateu na porta e ela deu permissão para entrar.
Mia colocou a cabeça para dentro da sala e comunicou.
— Diretora Whitney? O senhor Raymond está aqui para vê-la.
Alberto tinha providenciado absolutamente tudo sobre o Chase, inclusive seu nome falso, Raymond Neil Barnes, um homem de 37 anos, saudável, solteiro, morando com os parentes e sofrendo de uma terrível morte na família, assim como da sua própria vida que não tinha qualquer autonomia.
— Quem?
— O cara da vaga do estágio.
— Ah, claro. Mande entrar.
Mia saiu. Celine tentou organizar sua mesa, mas ela estava tão bagunçada quanto sua mente.
— Não sei pra quê vou contratar um estagiário. Eu dou conta de tudo sozinha. Quase tudo, pelo menos.
Comentou consigo mesma, levantando e vendo o desastre da sua mesa na visão de cima.
— Oi oi, posso entrar?
Chase abriu a porta e indagou, olhando a mulher que encarava os papéis de pé.
— Sim, claro.
Ele não podia negar, quando pisou os pés na sala, a energia diferente tomou conta de seu espírito. De repente, ele gostava mesmo da ideia de trabalhar ali, principalmente porque a mulher poderosa que sentava na cadeira, tinha curvas sensuais demais e que nem mesmo aquele terninho não era capaz de esconder.
— É uma honra conhecê-la, senhora Whitney.
Ele se aproximou, tendo um grave problema de controlar a excitação crescente entre suas pernas, ao visualizar melhor a postura, os seios fartos e o olhar matador que ela estava lançando pra ele naquele momento.
Celine odiava aquele senhora Whitney por tudo que era mais sagrado no mundo, mas quando saiu da boca dele, pela primeira vez em anos, não parecia uma ofensa. Ainda sim, ela tinha de manter a postura rígida que demonstrava com todos no escritório.
— Senhora está proibido aqui. É diretora Whitney ou diretora executiva. Seu tio devia ter lhe dito isso.
— Meu tio?
— Alberto Barnes. Sua indicação valiosa.
— Ah, isso, claro. Alberto Barnes é meu tio.
Ela deu um sorriso curto, se sentando novamente.
— O que você fazia quando era criança?
— Como assim?
— Não me importo muito com seu currículo, senhor Neil. Gosto de conhecer as pessoas de verdade. Não quero um monte de gente que pensa que por ter estudado em uma escolha melhor ou uma faculdade particular lhe dá o direito de se achar melhor do que eu ou qualquer um dos meus funcionários, tá entendendo?
Ele balançou a cabeça, concordando. E já anotando aquele formato de entrevista. Certamente usaria aquilo quando precisasse fazer suas próprias contratações.
— Sim, claramente. É uma ótima abordagem e forma de manter pessoas legais por perto.
Aquela ideia era algo que o deixava ainda mais empolgado. Escutar as respostas ao invés de responder lhe parecia muito mais interessante e estimulante.
— E então?
— Eu gostava de desenhar.
— Continue.
— Minha mãe me levava para o parque da cidade. Eu brincava com as crianças e estava sempre fazendo casas e qualquer coisa que viesse a mente com montinhos de terra. A praia era meu lugar preferido, porque lá podia construir qualquer coisa. E quando ia pra casa no lago, eu passava horas desenhando nas paredes dos quartos. Isso porque eu acabava minhas folhas de desenho muito rápido, então precisava de outro lugar pra fazer.
Seu pai nunca lhe dissera que não podia contar a verdade sobre si mesmo, ocultando os detalhes que demonstrava o poder aquisitivo. Apesar de que ser sobrinho de um homem como Alberto Barnes devia transformá-lo automaticamente em uma pessoa com dinheiro e poder. Mas aparentemente, ele era distante demais para ter esse tipo de sorte.
Celine tinha ficado realmente interessada com aquela pequena narrativa do homem. Sua mente estava divagando muito naquela manhã e em boa parte daquela tarde, mas por algum motivo estranho, quando ele começou a falar, ela não queria que ele se calasse.
Sua aparência era incomum, com óculos enormes que talvez pudesse ser substituídos por lentes e um cabelo que se cortado podia lhe dar uma aparência mais madura. No entanto, ela não julgava as escolhas do homem e tinha algo nele que era charmoso demais para ela simplesmente não notar.
— Então você gostava mesmo de desenho. Por que não estudou arte?
— Sinceramente, não sei. Fiz Arquitetura primeiro. Achava muito interessante. Depois fui pra designer de interiores. De certa forma, uma coisa casou com a outra.
— Bem, é verdade. E já que dizem que arquitetura é uma forma de arte, então fez uma excelente escolha. Mas por que quer trabalhar com eventos?
— Uma vez me disseram que o que vocês fazem aqui é mais do que eventos, é criar memórias. E isso é a única coisa que carregamos conosco quando morremos. Então eu gostaria de ajudar as pessoas a criar as melhores lembranças de suas vidas.
Celine se sentiu tocada com aquelas palavras. Havia tantas memórias em sua mente, tantas coisas boas vividas em família, com sua mãe e seu pai, e sua irmã. Bom, a maioria com sua mãe e sua irmã. Seu pai não tinha lhe trazido muitas alegrias na vida, já que passava a maior parte do tempo irritado, bebendo e descontando sua raiva nos objetos. E sua mãe, mesmo precisando trabalhar quase 16 horas por dia para sustentá-las, já que o dinheiro que seu pai ganhava era sempre pra jogos e bebida, ela arranjava algum tempo para ficar com as filhas.
Ela piscou, rapidamente, sentindo um pouco daquela melancolia e saudade se apossar.
— Está tudo bem, Diretora?
Celine abaixou a cabeça, fechando os olhos por um instante, com lágrimas quase escapando por seu rosto. Ela colocou a mão no rosto e respirou fundo.
Chase ficou visivelmente preocupado e tocado, com a emoção que tinha causado em sua nova chefe. Sem nem saber, devia ter lhe causado lembranças boas ou ruins. Talvez ambas.
— Quer que eu chame alguém? Precisa de um copo de água? Eu posso...
— Não, não é necessário.
Ela ergueu a cabeça, soltando o ar lentamente, e dando um sorriso singelo.
— Senhor Raymond, sua indicação já tinha lhe garantido uma vaga, mas gostaria de conhecer melhor com quem vou trabalhar de perto e acredito que tenha paixão verdadeira pelo que fazemos. Se não tem, ela vai acender.
— Tenho certeza que algo acendeu dentro de mim hoje, senhora Whitney.