Celine ainda retornou ao seu quarto, pra colocar uma roupa mais confortável. E mais uma vez seu marido não estava lá. Alguns poderiam achar justo. Ela estava saindo pra se divertir com outro homem. Mas aquilo era consequência. Se Victor não estivesse tramando alguma coisa ou sendo tão babaca, eles estariam curtindo cada segundo naquela ilha, juntos, como deveria ser. Mas ele preferia outras companhias e, independente de quais fossem, ela não iria simplesmente ficar no quarto de hotel olhando pras paredes enquanto ele se divertia. Ela mais do que ninguém merecia aquele tempo. Aquela oportunidade incrível de ver algumas maravilhas no mundo. E não se culparia por isso.
Ela colocou um biquíni e uma saída de praia branca, pegou uma pequena bolsa com dinheiro e documentos e saiu.
No saguão, Chase segurou a mão dela e a arrastou pela ilha, caminhando em passos ansiosos. Próximo do hotel, tinha um local que organizava a prática de diversos esportes. Do mais calmo ao mais agitado. Ele alugou um caiaque de acrílico, que permitia que pudessem ver as águas cristalinas do mar abaixo de seus pés.
— Não fique com medo, eu estou aqui.
Eles pararam em frente ao caiaque. Celine ficou encarando aquela versão transparente e que ao mesmo tempo podia ser incrivelmente maravilhosa, também poderia ser angustiante. Ela respirou fundo e decidiu ir. Não iria permitir que mais nada, muito menos o medo, atrapalhasse suas férias.
Eles entraram e começaram a remar devagar, pelas águas calmas e cristalinas.
— Você quer conversar? Pode ajudar a relaxar.
Ele sugeriu, vendo que ela ainda estava com o corpo tenso.
— Sim, sim.
— Então, de onde você é, afinal?
— Sou Mexicana. Mas fui pros Estados Unidos quando era bem pequena. Meu pai arranjou um emprego lá, mas... começou a beber muito. Ele se tornou agressivo. Minha mãe começou a trabalhar pra ajudar nas contas e sustentar minha irmã e eu.
— Nossa. Eu não imaginava. Como foram as coisas? Como se tornou CEO?
— Sabe Steven, pra algumas pessoas é fácil. Geralmente nascer em berço de ouro encurta o caminho e é natural você vê homens no comando. Eles estudam em grande faculdades, não precisam trabalhar, podem se dedicar mais aos estudos e quando querem, alcançam um sucesso invejável. Mas acontece que pra uma mulher, isso é muito mais difícil. Principalmente, se ela tiver que lutar por isso.
Ela remava devagar, de um lado a outro, buscando respirar sempre. Sua mente começou a mergulhar em profundas lembranças de sua vida e, naquele momento, os movimentos simples do remo estava ajudando a moldar seu passado.
— Como eu disse, minha mãe estava trabalhando pra nos manter, porque meu pai gastava o dinheiro com bebida e drogas e, em algum momento, ele parou de trabalhar. Não queriam mais ele. Minha mãe quase não tinha tempo pra mim e minha irmã, mas apesar disso, sempre a amamos muito. Selma e eu temos uma união muito forte também. Quando eu fiz 18 anos, me tornei monitora da escola, pra ajudar minha mãe em casa. Aos 23 anos, dava aulas particulares e também cuidava de uma adolescente chamada Grace. Ela era uma mulher adorável. A família Barnes me acolheu muito na época.
Chase estremeceu quando ela citou o sobrenome de sua família. Ao mesmo tempo em que tinha um medo irracional de ser descoberto, ali, em águas internacionais e límpidas, também estava curioso pra saber qual a perspectiva da família dele na vida dela. Qual a real relação dela com Alberto e como aquele contato afetou sua vida e suas emoções.
— Eu estava ajudando minha mãe que estava doente e também a minha irmã a pagar a faculdade de medicina. Foram anos difíceis e, um tempo depois, minha mãe faleceu. Eu entrei em um luto profundo e me dediquei aos estudos e ao trabalho. Durante anos não fiz nada além de estudar, trabalhar e viver enfurnada dentro de casa. Com quase 28 anos me formei em administração. Iniciei um estágio em outra empresa e comecei a faculdade de decoração e arquitetura. Me formei com 31 anos. Entrei de cabeça no ramo de decoração. Aí o Barnes me ofereceu um emprego na empresa. Comecei de baixo, trabalhando duro pra conquistar algo melhor, mesmo tendo várias formações e especializações, foi difícil. Foram sete anos de trabalho, até que Alberto decidiu se aposentar e me colocar em seu lugar.
Chase não fazia ideia de que ela tinha dado tão duro. Isso explicava muita coisa. Era óbvio que não tinha acontecido nada. Celine havia chegado até lá por mérito próprio. Por esforço, merecimento. Ela era uma mulher que definitivamente conseguia o que queria porque corria atrás e não desistia. Era um esforço que a maioria como ele não tinha, justamente por nascer bem de vida e não se importar tanto por achar que é seu por direito. De fato, era dele por direito de nascença, mas ele estava muito longe de ser merecedor.
— Por que acha que ele te escolheu?
— Honestamente, eu não sei. Mas eu conhecia aquela empresa tanto quanto ele. Tirando os sócios e alguns figurões, eu era a mais velha trabalhando pra ele. E Alberto sabia que eu podia comandar aquilo. Não apenas isso, que podia expandir, abrir a caixinha da criatividade e fazer aquela empresa se tornar algo muito maior do que já era. Não acho que ninguém de fora saberia da complexidade das coisas que lidamos e da seriedade do nosso trabalho.
— É uma responsabilidade muito grande. Nem todos estão preparados.
— Mas eu estava. Eu tinha como meta alcançar o topo, ou pelo menos quase. Meu objetivo era ser vice diretora executiva, mas não podia imaginar que Alberto iria se aposentar. Acho que ele queria curtir a vida e a família.
Aquela última frase fez Chase parar de remar e pensar. Celine estava a sua frente, então ela demorou até perceber a pausa dele.
Sua mente ficou vagando e se martirizando, se perguntando como ele podia ser capaz de estar mais preocupado com uma aposta de merda do que com os últimos dias de seu pai. Alberto estava literalmente morrendo e ele lá, se divertindo nas Maldivas, deixando Aiden seguir seus passos com um comportamento tão mesquinho e irresponsável quanto o seu. No fundo, ele sabia que se arrependeria de estar ali, mas não conseguia mudar aquela realidade. Posteriormente, teria de conviver com essa escolha dolorosa.
— Steven? Você está bem? Steven?
Ela se virou, olhando pra ele calmamente. Estavam em águas rasas, então não tinha motivos pra ficar em pânico por movimentos. Na verdade, aquela conversa toda tinha tornado aquilo tudo muito natural e confortável. Celine estava se sentindo bem e à vontade naquele momento.
— Ah, oi. Sim, eu tô bem. Tô ótimo. Só fiquei um pouco chocado. Quer dizer, ninguém que te olha vê o quão difícil foi pra você chegar no topo.
— É difícil pra maioria das pessoas. Não tenho nada de especial.
— Você é especial. Pela sua luta, pela sua coragem, pela sua força e persistência. Admiro muito isso em você.
Celine deu um sorriso largo e voltou a remar, devagar, enquanto admirava cada detalhe transparente do caiaque e tudo que ele transmitia, assim como os peixes que passavam de vez em quando por eles.
— Bom, sua vez.
Chase ficou imóvel, sentindo que tinha entrado em um baita problema. Como poderia dizer alguma coisa a ela? Mesmo não sendo íntimos, ela conhecia alguns dos maiores problemas que a família Barnes tenha enfrentado nos últimos anos. E ele não tinha uma trajetória de força e luta como a dela. Havia passado a última década se lamuriando e se reprimindo por causa do luto. Além de ter nascido com os privilégios que ela corria atrás.
— Steven? Me conta sobre você. Como veio parar aqui. Como se tornou um homem de viagens.
Chase só conseguia pensar em uma única história que não envolvia mentir. Mas essa seria ainda mais difícil de contar.