Ela custava em acreditar. Como alguém poderia simplesmente pegar 12 anos e jogar no lixo como se fosse um copo descartável? Não era possível tamanha irresponsabilidade. Ou melhor dizendo, tamanha falta de caráter.
Ela prometeu a irmã que ficaria atenta aos sinais e que investigaria as saídas dele. Ao desligar o telefone, ela só não chorou porque a comida chegou. Enquanto comia, tentava buscar os sinais. Coisas que ela não conseguia ver porque estava cega demais. Durante aquele jantar, ela quase não conseguiu comer, pois ficava enjoada a cada vez que lembrava de quando ele voltava com um perfume diferente, com balas para o hálito e manchas de tons diferentes em sua roupa. Além, é claro, das madrugadas que ela passava em claro esperando por ele.
Como tinha sido tão idiota? Estava tão cega pelo trabalho que não enxergava o óbvio? Quando foi que ela tinha se tornado essa mulher boba e desleixada?
Nessa mesma noite, ela retornou para o quarto e finalmente o encontrou.
— Amor! Onde você estava? Fiquei preocupado.
— Eu é quem deveria te perguntar. Era pra essa ser nossa lua de mel, Victor!
Ele finalmente sentiu o peso do silêncio.
Havia passado o dia todo com sua segunda amante, Janie, uma jovem ruiva de encantadores olhos azuis. Victor não enjoava dessas mulheres que tinham um corpo tão fértil e quase virgem. Com o passar do tempo, ele tinha se tornado um pouco mais exigente em suas preferências, mas no fundo ele ainda tinha algum apreço pela mulher com quem dividia a cama há 12 anos.
— Eu sei, me desculpe. É que conheci uma galera aqui, super legal. Eles me convidaram pra um mergulho hoje, depois ficamos bebendo a tarde toda.
— Eu acho que você devia voltar.
— O quê? Como assim?
— Se não quer aproveitar as minhas férias comigo, por que está aqui?
— Sou seu marido, ora. Queria que outra pessoa estivesse aqui? Um amante talvez?
Ela deu um sorrisinho, pensando que talvez fosse melhor se outra pessoa estivesse realmente ali, ao lado dela, mas era cedo demais pra pensar nele daquela forma.
— Quer saber, faça como quiser. Eu vou aproveitar os meus dias aqui. Se você prefere outras companhias, que seja. Mas aviso logo, não venha chorar depois pelas consequências de seus atos.
Celine caminhou para o banheiro, com o choro preso na garganta.
— O que quer dizer com isso? Celine, volte aqui e me explique!
Victor segurou em seu braço, com certa força.
— Victor, me solte.
— Quero saber que tom de ameaça foi esse. De que consequências você está falando?
— Me solte se não quiser a porra de um chute no seu saco agora!
Victor se espantou, soltando os dedos lentamente. Tinha ficado apenas um pouco avermelhado e, talvez, se ela não tivesse sido tão incisiva e furiosa para soltá-la, ele teria apertado mais. Frustrado e sentindo uma onda de culpa invadi-lo, Victor se afastou, sussurrando um pedido de desculpas.
Celine não respondeu, pois estava com tanta raiva que teria o mandado tomar bem no meio de seu orifício anal, em resposta ao seu pedido de desculpas medíocre.
Ela entrou no banheiro e fechou a porta com força. Era uma mistura de dor, raiva e frustração. Ela nem mesmo podia imaginar que uma coisa daquelas iria acontecer no seu segundo dia na ilha. Parecia que nada tinha que dar certo naquele dia. Se ela ao menos soubesse como encontrar o estranho misterioso...
Victor ficou remoendo suas últimas ações, arrependido do ponto em que tinha chegado. Jamais fora agressivo em sua vida. Mas Celine tinha lhe tirado completamente o juízo e o bom senso. Para ele, a irritação de sua mulher tinha o atingido com tanta força, que dobrou toda a fúria existente dentro dele e quase o fez explodir, implicando naquela besteira.
Porém, no fundo ele sabia que estava dando bandeira demais e talvez precisasse segurar um pouco a onda. Ninguém disse que seria fácil administrar aquela vida tripla, lidando com uma esposa e duas amantes. Ele só não contava que Celine fosse ficar tão brava, já que ela tinha adotado uma medida de silêncio na noite anterior. Contudo, ao sentar na cama, com o corpo e a mente calma, ele riu, pois devia ter esperado exatamente aquele tipo de reação. Antes de uma explosão, sempre vem um momento de calmaria e com sua esposa não seria diferente. Porém Victor estava acostumado a uma Celine menos explosiva e ameaçadora. Aquilo sim tinha sido uma novidade.
Celine não se sentiu segura o suficiente para dormir ao lado do marido naquela noite, então após um banho, regado a lágrimas tão quentes quanto a água, ela deitou na cama que ficava na sacada. Trancou a porta que tinha e adormeceu como um anjo, ainda que um anjo em sofrimento.
No dia seguinte, ela acordou cedo e foi tomar seu café. Não fazia questão alguma de trocar qualquer palavra com Victor. E para sua surpresa, quando ela apertou o botão do elevador para subir, uma voz conhecida chamou sua atenção.
— Ei! Celine!
— Steven! Que bom te ver.
— Nossa, que sorte te encontrar logo cedo. Eu estava mesmo querendo saber de você.
— Eu vim tomar um café cedo hoje. Mas por que não apareceu ontem?
— Não passei muito bem durante o dia. Acho que foram as Vieras.
Ele deu uma pequena risada. Ela não estava tão animada quanto poderia, mas conseguiu dar um sorriso.
— Então está melhor?
— Sim, me sinto bem agora. Vai... Espera, o que é isso?
Chase tocou sua pele delicada, bem onde tinha uma marca avermelhada. Tinha sinais de dedos ali. Seu sangue ferveu antes mesmo de saber o que tinha acontecido.
— É complicado, mas estou bem.
— Foi o Victor? Ele fez isso? Eu vou ter uma conversinha com esse cara.
As mãos de Chase se fecharam e ele deu um passo em direção ao elevador, mas as mãos de Celine pararam em seu peitoral, na intenção de contê-lo.
— Ei, está tudo bem. Não se preocupe.
Ele parou, a respiração ficou lenta de imediato, ao perceber o quão próximo estavam.
Celine olhou em seus olhos e, pela primeira vez em mais de dez anos, desejou beijar aqueles lábios finos e explorar cada canto da sua boca com a língua. Estranhamente, suas pernas ficaram um pouco mais fracas e o meio delas, mais úmido, só de pensar em ter o corpo dele colado ao seu. Ela precisou fechar os olhos por alguns segundos e se afastou, dando dois passos para trás. Ainda não era seguro o suficiente, mas era o melhor que podia no momento.
Chase tinha tido uma noite difícil. Quase não dormiu, de ansiedade. Por isso, levantou cedo, se arrumou e foi ao hotel onde ela estava. A sorte parecia ao seu favor, porque ainda naquela manhã, conseguiu encontrá-la rapidamente e ainda sentir seu toque. Ele só esperava que ela não tivesse notado os batimentos acelerados e o tremor do corpo. A única coisa que tinha estragado seu dia, era ver aquele machucado, mesmo que mínimo, em seu braço.
— Você... Tem certeza disso? Está se sentindo segura?
— O Victor ficou um pouco inseguro e irritado ontem, mas já está tudo bem. Ele não é tão louco quanto parece.
Victor tinha usado as escadas, dessa vez, para descer até a área de serviço e, ao caminhar em direção até a área, Chase o viu passar. Ele poderia ter ido ter a um acerto de contas com o homem, mas ainda tinha uma árdua missão a cumprir. Por isso, ele pegou seu celular quando ela terminou de falar.
— Ahn... Se você tem certeza disso... Tudo bem, não vou insistir.
Ele mandou uma mensagem rápida para o amigo, informando onde estava e qual a última posição que ele sabia sobre Victor Meyer.
Travis estava degustando de frutas cítricas deliciosas quando recebeu a mensagem do amigo. Ele teve tempo apenas de pegar uma camisa, carteira e celular, que estavam em uma cômoda ao lado da cama, antes de ir correndo em direção ao elevador. Com rapidez, ele chegou ao térreo, mas também saiu pelos fundos. Como o hotel era próximo, bastou ele dar uma pequena corrida para alcançar Victor. Ele logicamente reconheceu o homem de barba levemente grisalha e intenso olhos azuis das fotos que o amigo tinha mandado antes.
Victor começou a fazer seu trajeto. Primeiro ele pegou um carro até a cidade. Fez algumas compras e foi até um dos cais, onde pegou uma lancha que levava alguns casais até outra ilha próxima. Travis o acompanhou em cada trajeto. Durante as compras, aproveitou para comprar um óculos de sol e um boné. Evitava de ser reconhecido e se protegia do sol escaldante que fazia.
— Mas olha, se acontecer de novo, não respondo por mim.
— Você é um cavalheiro.
Ela o observou mandando mensagem e olhando para trás dela o tempo todo, mas decidiu ignorar aquilo.
— Eu tô falando sério. Não se faz isso com ninguém.
— Ele é um idiota, eu sei.
— Que bom que percebeu.
— Por que acha que ele é?
— A briga. O motivo da briga de vocês foi claramente infantil demais.
— É, tem razão. Mas enfim, o que vai fazer hoje?
— A pergunta é, o que nós vamos fazer hoje?
— Eu não sei se quero sair. Essa coisa toda com o Victor...
Na verdade suas intenções eram justamente vigia-lo e saber onde ele estava indo e se realmente tinha conhecido pessoas bacanas ali, porém não podia revelar isso pra todo mundo. O que ela não sabia, era que bastava de dois segundos de distração pra que Victor colocasse seu plano de fuga em prática.
Se tinha uma coisa que sempre intrigava Chase, era o modo como homens com aquele tipo de comportamento, que mentia e enganava constantemente, não pensava. Um simples dia o homem resolvia sair, durante as férias da sua esposa e sua suposta segunda lua de mel, para encontrar a amante. E faz isso de modo constante e contínuo, como se ela ou alguém próximo não fosse desconfiar, no mínimo, de algo estranho.
— Esqueça ele, você precisa de diversão. E eu sei o que devemos fazer.
Enquanto Chase a conduzia a uma nova aventura, Aiden acordava, dessa vez com disposição para fazer alguma coisa e mudar o ritmo do jogo. Ele precisava encontrar uma maneira de achá-la. Devia a ver alguma coisa que ela gostava de fazer, provavelmente experimentava das águas quentes da praia e da areia quase branca. Obviamente que esse era um dos pontos altos das Maldivas, mas havia muitos esportes aquáticos que poderiam ser feitos, no entanto, ele se perguntava se ela estaria ou não acompanhada do marido. Atividades como aquelas seriam muito mais interessantes se praticadas a dois. Então ele necessitava de saber se Victor estava saindo do quarto. Mas como fazer isso se ele nem mesmo podia sair do hotel?
Talvez sua solução fosse Travis, que podia sair do hotel sem problemas. Claro que ele jamais iria ajudá-lo e prejudicar seu amigo, mas se ele jogasse um pouco do seu charme, talvez o rapaz deixasse escapar alguma coisa.
Ele resolveu que enquanto tentava encontrar e tinha como objetivo seduzir Celine, ele complicaria mais sua vida acrescentando a ideia de seduzir Travis, que inocentemente, lhe revelaria alguma informação preciosa.
Depois do café da manhã, ele tomou um banho longo e relaxante, a fim de tirar parte do estresse de ter perdido o dia anterior. Em seguida, perfumou-se e saiu para bater na porta de Travis. Ele bateu algumas vezes, até que ninguém atendeu. Frustrado, retornou para seu quarto, onde passou as horas seguintes enfiado, vendo TV e comendo besteiras. Lá pelo fim da tarde, ele resolveu arriscar e bater novamente na porta de Travis, que desta vez atendeu.
— Oi Aiden. O Chase não voltou ainda.
Aiden estava com as tranças do cabelo um pouco bagunçadas, afinal tinha se arriscado sem muitas esperanças, então ele ajeitou a postura quando Travis abriu a porta e tentou manter um sorriso calmo e atraente no rosto.
— Imagino que não. Mas aí, o que acha de irmos comer algo? Tô cansado de ficar sozinho nesse hotel e não sei que horas o Chase volta.
Travis tinha conseguido um grande feito naquele dia. Então a primeira parte da missão que Chase havia lhe proposto estava completa, certamente que seu melhor amigo não se importaria se eles saíssem por alguns instantes.
— Tá, pode ser. Vou pegar um casaco.