Mia deixou a porta aberta pra ele acompanhá-la. Chase levantou e a seguiu. Estava curioso para saber de onde poderia vigiar sua chefe passar todo dia. Esperava ser uma visão com ângulo para seu quadril largo e um pouco abaixo dele.
Mas a sala era bem pequena, na verdade. Uma estrutura mini. Não devia esperar muita coisa, sendo estagiário, mas ainda sim, era bem pequena. Tinha uma mesa pequena, uma cadeira pra ele e outra pra algum visitante. E um armáriozinho também. Na mesa tinha um computador, lápis, caneta e papéis. Muitos papéis.
— Se precisar usar a impressora, pode usar a minha. Ela está conectada ao computador. Tem um banheiro no final do corredor, além de um bebedouro. A minha mesa fica bem em frente a sala, então se precisar de ajuda é só chamar.
Ele tinha uma sala privativa, mas ela tinha um enorme balcão, com computador, impressora, gavetas na parte de baixo da mesa e outras coisinhas. Não que estivesse reclamando, mas...
— Obrigado, senhorita Hopkins. Não vai me mostrar a empresa?
— Pode me chamar de Mia. E não, essas são minhas únicas instruções, preciso voltar pra minha mesa. Boa sorte.
Ela saiu, deixando-o sozinho na salinha. Chase passou a mão em sua mesa, levemente empoeirada, olhando pra aquele ambiente fechado e com um leve ar de mofo. Não tinha nem mesmo uma janelinha na sua sala, apenas um ventilador de teto aparentemente velho. Lhe dava a impressão de que ela não era usada fazia algum tempo.
Ele olhou pra cadeira com couro rasgado e sentou, agradecendo por pelo menos ser confortável. Arrastou as rodinhas até a borda da mesa e ficou com as costas inclinadas na cadeira, girando o corpo bem de leve de um lado a outro, enquanto o tempo passava.
Ficou pensando nas palavras do amigo, sobre como deveria ir com mais calma desta vez. Para Chase, a arte da conquista envolve usar um pouco de charme, as vezes com mistério, ter criatividade e um pouco de paciência. Na maioria das vezes, mais paciência do que qualquer outra coisa. Quanto mais você espera e se proponhe verdadeiramente a ouvir o outro, conhecer e se tornar interessante o suficiente pra pessoa, mais chances terá de atingir seu objetivo final, seja ele qual for.
Chase tinha paciência e tempo, sabia que nesse caso ambos andavam lado a lado, no entanto, temia que não fosse o bastante. Essa não seria uma conquista onde se desse errado, ele só voltaria pra casa com tesão acumulado. Seu futuro estava em jogo.
Celine era uma mulher casada e isso dificultava, porque ela não teria interesse algum nele a princípio. Além disso, eles estavam tendo um relacionamento profissional e ela não deixaria que as coisas saíssem disso facilmente. Aqueles dois pontos traziam à tona as maiores dificuldades que ele teria inicialmente.
O que fazer para quebrar aquilo? A ideia de fazê-la descobrir sobre as traições do marido acabaria com o casamento e a resistência a novos parceiros. Ela não tinha o perfil de uma mulher que aceitaria seu marido depois de tantas traições e, mesmo que fosse o caso, ele teria tempo suficiente para persuadi-la a transar com ele antes deles reatarem o relacionamento. Mas como romper a barreira profissional?
O som de passos interrompeu os pensamentos de Chase, que estavam muito longes de cessarem. Ele saiu do estado de transe e viu o quadril largo passar por ele, ainda que não fosse o ângulo que ele gostaria. Ela tinha outros dois homens em seu encalço, o que lhe daria algum tempo para acessar seu e-mail e anotar o que precisaria pra ter o cálculo que precisava.
— Senhor Neil? A diretora mandou chamá-lo.
Mia apareceu na porta, de repente. Chase começou a tremer e a sentir o suor descer lentamente pelo seu corpo.
— Ah, claro, estou indo.
— Melhor ir logo.
— Sim, sim. Já vou.
Ele não podia fazer mais nada que desapontasse sua chefe, pois isso colocaria tudo a perder. Por mais que quisesse acabar com aquela farsa de trabalho e usar suas habilidades reais, em conjunto a sua beleza angelical e a todo seu poder aquisitivo, não poderia desapontar seu pai. Dessa forma, a empresa não ficaria em suas mãos. Vencer a aposta seria inútil, caso ele não atingisse o objetivo de seu pai, mesmo que ele tivesse um espírito muito competitivo para permitir que o irmão ganhasse mesmo sabendo não adiantaria de nada.
Ele terminou o cálculo com rapidez, torcendo para estar tudo certo, e se dirigiu até a sala de Celine. Desta vez bateu na porta e aguardou um "entre". Não havia mais ninguém na sala além dela.
— Demorou.
— Desculpe, tive que resolver uma questão de família.
— Está tudo bem? Foi com o Alberto? Ou a Grace?
Ele engoliu em seco, balançando a cabeça positivamente. Sempre ficava intrigado com o fato dela lembrar do pai dele, aparentemente com mais apego do que a própria Grace, que ajudou a cuidar por tantos anos.
— Tudo bem, estão todos bem. Todos ótimos.
— Ah, que alívio.
— Sim, é, aqui estão os cálculos que pediu. Foi bem simples, na verdade.
— É, tô pegando leve com você. Vamos fazer coisas básicas por enquanto. Mas se quiser entender a complexidade de tudo isso, vai ter que se dedicar bastante.
— Estou aqui pra aprender, senho... Diretora. Diretora Whitney.
Ela lançou um olhar curioso para ele, com a testa levemente enrugada. Alguma coisa nele soava familiar aos seus olhos e ouvidos, mas ela não tinha a menor ideia do que poderia ser.
Chase abaixou a cabeça, sentindo algo ferver em seu íntimo com o olhar petrificado de sua chefe, e passou a mão de leve em seus cabelos.
— Bom, vou lhe mandar algumas coisas para você estudar. Quero ver como pode pôr em prática. Terá uma semana para analisar os arquivos. O desfile acontecerá em 10 dias e o casamento em 15 dias.
— Dará tempo de organizar tudo?
— Se fizermos um trabalho simultâneo, sim. Olha, para alguns, parece fácil, mas acredite, administrar uma empresa com essa dimensão, com eventos acontecendo praticamente todos os dias e com filiais espalhadas por dezenas de países, bom, se quiser manter a qualidade e eficiência de nossos serviços, é um esforço que exige cada gota do seu sangue.
— E do seu casamento também.
Ele percebeu que falou demais depois que as palavras escapuliram da boca.
Celine enrugou mais a testa, levantando lentamente de sua cadeira, com o olhar irritado.
— O que quer dizer com isso, senhor Neil?
— Nada, eu...
— Eu não sei o que escutou na última hora, mas espero que não pense que pode falar sobre minhas escolhas ou minha vida pessoal.
— Desculpe, diretora. É que certa vez meu pa... Meu tio, comentou que a senhora trabalha demais e nunca tirou férias desde que começou a trabalhar aqui.
— Isso não é da sua conta, rapaz, ou do Alberto. Ele sabe que isso aqui é a minha vida, minha paixão verdadeira. Eu nasci pra isso, e não à toa cheguei onde queria. E às vezes, alguns sacrifícios são necessários para um bem maior.
— Sim, é claro, tem toda razão...
— Eu espero que contratá-lo não tenha sido um erro.
— Não, por favor, não me demita. Eu preciso muito disso.
Ela cruzou os braços, o encarando com um semblante curioso.
— Por que? Olha, você poderia conseguir um cargo melhor. Que pague mais, por exemplo, com seu currículo.
Chase não poderia perder aquela vaga. Seu pai o mataria e ele perderia a aposta antes mesmo de ter a empresa em suas mãos. Seria necessário, mais uma vez, convencer a dama a sua frente, do porquê precisava estar ali sem lhe revelar a verdade.
— Alberto Barnes é como um pai pra mim, Diretora Whitney. Sempre quis muito agradecer por algumas das coisas que ele fez por mim. Ele e sua esposa, é claro. Uma mulher muito meiga, divertida e inteligente. E quando ele falou da vaga, achei que pudesse ser a oportunidade perfeita para deixá-lo com orgulho. Trabalhando com alguém que ele admira e confia, mostrando pra ele que sou capaz de fazer algo digno dele e da família. E bom, como eu falei antes, aqui vocês criam memórias e não acho que tenha algo mais realizador do que fazer parte, mesmo que indiretamente, da vida de tantas pessoas.
Celine o olhou intrigada, não totalmente convencida, mas tocada, de alguma forma.
— Você fala do Alberto com muito carinho. É curioso porque nunca falaram sobre você antes.
Chase engoliu em seco e precisou usar um pouco da sua arte de enganar. Coisa que aprendeu e praticou com dezenas de homens e mulheres nos últimos anos.
— Tivemos um período difícil na família. Meio distante. Não sei bem o porquê. Mas as coisas melhoraram há pouco tempo. E sempre valorizei muito qualquer tipo de afeto do tio Alberto.
Ela ainda não tinha entendido bem como aquele estima todo havia começado na família Barnes, mas certamente não era de sua conta. Se Alberto o queria ali, era seu dever fazer o possível para mantê-lo, mesmo que isso a irritasse um pouco.
— Se fosse qualquer outro, estaria na rua agora. Você tem sorte.
Ele respirou aliviado, quando ela sentou novamente em sua cadeira e se voltou para o computador.
Teria que segurar um pouco mais a língua se quisesse sobreviver por aqueles meses.
Chase foi liberado e resolveu sair para comer alguma coisa. Acabou indo parar no restaurante do melhor amigo, Travis.
Enquanto ele degustava seu almoço e levava um pouco mais de sermão, Mia se preparava pra entregar o café da chefe, que certamente estaria quase arrancando os cabelos de preocupação.
Todos na empresa concordavam que ela era boa demais para o marido mulherengo que tinha. E infelizmente, precisaria de mais do que alguns fofoqueiros para fazê-la acreditar no que estava diante de seus olhos.
Ela bateu na porta e entrou, com uma bandeja com dois copos de café. Celine estava com a cabeça entre os braços, apoiados na mesa. Os cabelos espalhados pelos papéis. Seu coração se partia em milhares de pedaços ao vê-la daquela forma.
— Diretora? Seu café.
Ela ergueu a cabeça devagar e enxugou uma lágrima.
— Obrigada, Mia.
— Ah, não fique assim. Diretora, sabe que odeio vê-la desta forma.
Mia deixou a bandeja na mesa e sentou, segurando a mão da chefe. Anos de trabalho permitia que ela tivesse aquele contato, o mais íntimo que ela consentia dentro daquela empresa.
— Eu sei, mas... Ah, eu nem sei onde aquele idiota está. Eu fico pensando...
— Não pense demais. Pode ficar mal de tanto pensar.
Celine pegou o copo de café e tomou um gole grande. Depois botou o copo no lugar de volta e soltou a respiração pesada.
— Alberto tem razão.
Desabafou, melancólica.
— Alberto?
— Selma também.
— Não estou entendendo.
— Preciso de férias.
Declarou, finalmente. Mia balançou a cabeça em concordância, ainda segurando a mão da chefe.
— Ah, bom, é verdade. Trabalha demais. Nesses anos todos nunca vi a diretora saindo para se divertir ou tirando uma semana sequer de férias.
Cabisbaixa, ela concordou.
— É, acho que preciso mesmo disso. Minha preocupação é quem cuidará disso tudo. Sinto que esse lugar não funciona sem mim.
— Eu dou conta. Seguro as pontas pela diretora.
Os olhos cansados de Celine se ergueram, olhando para sua funcionária com um vislumbre de esperança.
— Faria isso? Mia, seguraria as pontas por mim?
— É claro que sim.
— Não, é muita responsabilidade pra você. Não posso permitir que carregue esse fardo. Jamais ficaria tranquila sabendo que você estaria aqui sozinha.
— Mas...
— Não, nada de férias. Esqueça essa ideia.
A diretora puxou a mão delicadamente e passou por seu rosto, respirando fundo.
Mia esperava por uma oportunidade como aquela. Observava, estudava sua chefe durante todo aquele tempo, aprendendo com a melhor, para um dia poder ajudá-la de verdade, fazer além do que lhe permitiam. Ela tinha essa capacidade e no fundo Celine sabia, mas estava tão presa a ideia de permanecer trabalhando que não conseguia se desvencilhar. Precisaria de mais do que um momento de fraqueza pra poder mudar de ideia.