Sonhos nunca iriam me derrubar e por isso mesmo havia acordado cedo para o primeiro dia da faculdade. Havia deixado o ensino médio para atrás e estava muito feliz por isso. Com uma bolsa de estudo, consegui entrar na faculdade de artes cênicas e fazer aquilo que mais gosto, representar. Poderia ter problemas sérios em minha mente, mas sabia representar emoções com profundidade. O único escape que tive foi o teatro e a escrita. Várias histórias vinham a minha mente, inclusive os sonhos estranhos que tive. Então, tudo isso eu jogava no papel e já criei roteiros curtos, para representar no palco. Eu tinha amigos na minha outra cidade em Lígo, apesar de todos os meus problemas sérios. E sentia falta deles, inclusive aqueles que participavam do teatro comigo.
Dasha, uma das garotas que fazia teatro comigo sempre me visitava em Asteri e contava novidades sobre a cidade pacata em que vivia. Ainda não haviam esquecido o fato de eu ter ateado fogo a sala de aula e nunca mais queriam que eu pisasse meus pés lá. Eu pensei que também nunca mais queria voltar para lá.
- Está pronta para seu novo começo? - ela me perguntou, por telefone, enquanto eu me arrumava. Deixei no viva voz o telefone, para poder me trocar e falar com ela.
- Você não tinha que estar a caminho da Califórnia, Dasha? - perguntei.
- Uhhh estou indo, dirigindo como louca, já passei Sacramento - ela disse, entusiasmada - Pensa em quantos quilômetros rodei, para sair de Lígo.
- Uns 3 mil quilômetros? - chutei.
- Quase isso - ela respondeu - Agora, me diga, o que vai fazer com Tommy?
Tommy havia aparecido na minha casa, a semana toda, mas eu não atendi ele. Pedi para Caitlyn dizer que não estava também, o que ela fez de bom grado. Ela nunca gostou dele, de maneira alguma e quando contei sobre o seu uso de drogas, ela quase entrou em colapso nervoso.
- Você não vai ver esse rapaz nunca mais - ela dissera, com um olhar irritado e preocupado - Não quero saber dele nessa casa, entendeu?
- Sim, Caitlyn, mas isso não é minha culpa, você sabe.
- É sua culpa, menina tola - ela retrucara - Se tivesse me ouvido quanto a sair com rapazes. Não conhecemos nem a família dele.
Eu ignorei seus comentários ácidos. Era o que sempre fazia.
- Então, me conta como vai ser na universidade de Asteri, quando terminar a aula - pediu Dasha - Vou desligar, tá? Estou chegando em Davis. Beijos.
Desliguei o telefone e terminei de me vestir. Apesar de ser início do outono, o frio começara mais cedo do que o esperado. Precisei colocar uma blusa de lã, com gola alta, cachecol e botas com cadarço. Estava bem comum, mas minha intenção não era aparecer. Queria estar despercebida, ao entrar na faculdade. Mais uma ligação de um número estranho tocou no meu telefone. Desliguei, pois sabia que Tommy continuava tentando.
Peguei minha bolsa e coloquei um caderno dentro e canetas. Eu sabia que não ia precisar anotar muitas coisas, mas queria aprender tudo que pudesse naquela faculdade. Era minha chance de me tornar atriz. Quem entrasse na faculdade de Asteri, no curso de Artes Cênicas poderia ter a chance de ir para Los Angeles, se tivesse notas altas. Olheiros haviam de monte e com certeza eu iria conseguir alguma coisa. Meu sonho era ficar no teatro, apesar de tudo. Mesmo podendo ter a oportunidade de estrelar em um filme ou série. Gostava do palco e da representação que fazia, na frente das pessoas, diante de vários espectadores. Quando entrava no palco, encarnava um personagem totalmente diferente de mim. Eu era mais ousada e confiante. Na vida real, só gostava de estar tranquila, sem muitas pessoas ao meu redor.
Peguei o meu Chevy Nova 1968, de cor azul cromado, na garagem. Era o único bem que tinha conseguido, através de trabalhos depois da escola. Eu era garçonete em meio período desde sempre e algumas peças de teatro deram alguma bilheteria. Eu amava aquele carro e se tudo ficasse péssimo com Caitlyn, eu poderia fugir com ele e até mesmo morar no carro. Era uma péssima ideia, mas eu precisava ser realista. Caitlyn só estava comigo por obrigação. Quem me amou foi Katherine. Por que ela tinha que morrer em uma colisão de carro? Era algo que eu não entendia. Mas, acidentes com carros sempre acontecem em todo mundo. Eu só tinha azar, no final das contas.
Dei partida no carro e percorri as ruas pacatas de Asteri. Aquela parte da cidade não tinha tanta violência e havia mais policiamento e segurança por ali. Não era como nos bairros de classe baixa, onde viviam gangues e o tráfico era forte. Gostava do meu bairro, pois as casas eram com cercas brancas, com quintais enormes e jardins muito bem cuidados. Além das ruas serem arborizadas e com alguns parques bonitos pela região. Tudo era muito perfeito em Asteri e isso me dava medo. Dois anos sem problemas, onde fui aceita na escola próxima minha casa para terminar o ensino médio. Fiz alguns amigos por lá, sem ter qualquer incidente estranho. Não falei do meu passado, e ninguém quis saber. Não falei sobre as fadas, nem sobre o elfos. Não havia com o que me preocupar. Eu poderia ser normal ou quase normal. Eu tinha minha excentricidades, devido aos meus gostos peculiares, mas nada muito estranho. Tantos nerds na minha escola parecia muito mais estranhos do que eu. Então, tudo estava bem.
Deixei que Nights In White Satin, da banda The Moody Blues tocasse no toca fita. Havia gravado aquela música, quando escutei com Katherine. Era a música favorita dela, então, era a minha também. Eu sempre estive pronta para agradá-la e tudo que ela fizesse, eu achava incrível. Sentia falta da nossa amizade e de ter uma família. Johnny era seu namorado na época e quis me adotar, mas Caitlyn não deixou. Eu não sei por que ela fez isso, pois Johnny era legal e gente boa. Por que tinha que ficar com alguém que não gostava de mim? Eu não entendia isso e nunca iria entender.
Quando cheguei na universidade de Asteri, no centro, o local estava fervilhando de pessoas. O prédio era algo entre moderno e antigo. Havia mais cursos naquele campus e muitos alunos viviam nos dormitórios e apartamentos para quem não era mais calouro. Eu não precisava disso, pois morava muito perto e não tive o direito de ficar com um dormitório. Eu queria muito, pois assim ficaria longe de Caitlyn e sua presença nociva. Mas, não havia como, não quando eles tinham meu endereço no cadastro. Nada de dormitório para mim.
Estacionei o carro, ao lado de uma moto grande e preta. Sai do carro e caminhei até a entrada a universidade. A fachada era branca, ou quase isso. Estava um pouco amarelada. Vários alunos iam e vinham, como seu eu não existisse. O que era muito reconfortante. Não seria uma sensação no primeiro dia de aula. Rumei para a administração, pedindo informações sobre onde ficava o prédio da ala leste, onde eu teria aula de Atuação para Cinema e Canto. Peguei a informação com uma recepcionista mau humorada e sai do prédio central.
Andei um bom pedaço em uma rua asfaltada, dentro dos limites da universidade e vi um cara estranho vindo em minha direção na calçada. Ele parecia fora do contexto ali. Era como se não fizesse parte do lugar. Tinha cabelos compridos e pele muito pálida, quase azulada. Pisquei algumas vezes, para ver se não estava imaginando coisas. E esbarrei nele, derrubando a bolsa no chão, assim como os livros que ele carregava.
- Desculpe - pedi, juntando minhas coisas no chão.
Ele recolheu os livros, me fitando com um olhar estranho. Seus olhos eram negros. Não pareciam ter pupilas e usava um piercing no lábios inferior e no cílio. Podia ver em sua garganta tatuagens. Símbolos celtas. Reconheci um deles como a triquetra celta. Que pode significar o círculo das existências. O primeiro círculo seria a representação do nada no Universo e no caso de Deus. O segundo seria a migração das almas, onde seria a parte em que o ser humano vive e morre e o terceiro e último círculo seria a o círculo da felicidade, é para onde aqueles que morreram e cumpriram com sua missão vão. Pois ele é digno de passar para Gwynfyd (Terra da Juventude) e viver a imortalidade livremente. Ou pode representar os elementos mar, terra e fogo interligados. Até mesmo que tudo esta interligado e que não tem começo, nem fim.
Ele não parecia irritado comigo, por ter esbarrado nele, muito menos parecia se importar comigo. Me levantei, sem a ajuda dele, me apoiando nos joelhos. Limpei a mão na calça jeans.
- É nova por aqui? - perguntou.
Sua voz era leve e rouca. E seus lábios eram finas e o nariz afilado.
- Ahn, sim - balbuciei.
Ele assentiu, olhando para mim, de cima a baixo. Parecia estar procurando algo e me senti insultada por seu exame minucioso.
- Legal - ele disse - A gente se vê por ai.
Ele saiu com os livros na mão esquerda e alguns metros, apoiou os livros em um banco de praça e puxou um maço de cigarro do bolso, acendendo um com um zipo. A fumaça acre vinha até mim, com cheiro de cravo. Continuei a andar para meu prédio e senti que ele ainda me olhava. Olhei para trás e o encontrei parado, fumando o cigarro com uma mão e a outra segurando os livros. O contraste era incrível. Ele tinha a pele pálida e suas roupas negras ressaltavam isso e em volta dele, as árvores com folhas escuros e o céu nublado o deixavam de certa forma um pouco sinistro. Mas, não conseguia parar de olha-lo. Engoli seco e voltei a andar.
Passando aquela sensação estranha, do seu magnetismo sobre mim, eu entrei no prédio onde teria aula e entrei no anfiteatro. Seria minha primeira aula, com pessoas que nunca vi. Mas, seria meu recomeço de novo. Uma vida nova, algo novo para mim.
Só que a triqueta e os olhos escuros daquele cara não saiam da minha mente.