Concentrei o máximo que pude nas aulas. A professora Shawn nos pediu para representar Hamlet no palco. Uma cena de Ofélia e Hamlet. Meu par era um rapaz expansivo, de cabelos muito loiros e pele bronzeada. Seus olhos verdes reluziam e parecia realmente talhado para ser um modelo. Se ele tinha talento para representar? Um pouco.
Depois, a aula de canto fora algo um pouco sofrível. Nem todos sabiam cantar. Minha voz era mediana, mas não perfeita para a professora Shawn. Cantei em frente ao piano, pois era o único instrumento que sabia tocar na sala de música.
Saí daquele prédio, depois de quatro horas intermináveis. Não era por não querer estar lá. Na verdade, eu queria estar. Mas, havia pessoas demais observando, com olhares avaliativos e prestando atenção em mim. Éramos concorrentes um dos outros e era óbvio que seria assim. Era cada um por si.
Passei pela rua asfaltada e cheia arborizada e lembrei do cara de cabelos escuros e sua triqueta. Queria saber se ele estava ali ainda, mas não estava. Escutei passos atrás de mim, na calçada e virei a cabeça por cima do ombro. O cara loiro da minha aula estava passando, junto com o cara moreno de cabelo curtíssimo.
- E aí, Agnes - ele disse - Está indo para onde?
- Vou até ao prédio central. É lá que fica o refeitório? - perguntei.
- Huhum - respondeu - Quer companhia? Eu te mostro tudo aqui.
Não queria ficar perto dele. Queria que ele sumisse.
- Não, obrigada - neguei com a cabeça.
- Vamos, lá, eu não mordo não - ele disse.
O amigo dele riu, como se fosse engraçada a piada.
- Não, obrigada - neguei mais uma vez e sai andando.
Mas, ele continuar a andar, atrás de mim, conversando com o amigo dele sobre a fraternidade. E uma festa que iria acontecer naquela noite, na casa de um dos veteranos. Escutei toda a conversa, até chegar ao refeitório e comprar algo para comer. Busquei uma mesa bem longe dele. O meu telefone tocou na bolsa e puxei, sem olhar o identificador de chamadas.
- Você vai me ignorar? - a voz melosa de Tomas ecoou do outro lado.
- Você não entende que acabou? - revidei, largando o iogurte que havia comprado.
Ele suspirou, do outro lado da linha.
- Não sei lidar bem com rejeição - ele disse, em tom sombrio - E não gosto que me ignore, Agnes. Venha até minha casa.
- Vai pro inferno - desliguei o telefone com força e guardei na bolsa.
Depois que comi, fui para a biblioteca da faculdade. Queria procurar alguns livros para ler, indicações da professora Shawn. E naveguei na internet, com meu notebook. Peguei uma mesa mais reservada, perto da janela. Automaticamente meus dedos digitaram o site Mystikistís. Fiquei muito feliz de ver que meu comentário no post de Red In The Sky havia sido respondido. A resposta não me agradou, no entanto.
"Não há final. É só isso"
Eu quase gritei: "O quê?". Como não havia final? Que espécie de escritor aquele cara era? Kaelus era um i****a. E sem visão de roteiro. A história era boa, muito boa mesmo. Havia coisas que não estavam respondidas. De que raça eram os seres daquele reino? Eram humanos ou elfos? E o que aconteceu com a filha renegada do primeiro rei? Será que ela iria trazer o m*l para todos os reinos, por não ter a pele azul? As perguntas desfilavam em minha cabeça, sem cessar. E fiz todas essas perguntas a Kaelus. Pedi, não, exigi que ele continuasse a história.
Atualizei várias vezes a página, mas não havia uma resposta sequer. Eu estava pirando, era isso. Peguei meu livro Hamlet e comecei a ler. Fez anotações sobre meu personagem, Ofélia e tentei pensar como ela. Eu precisava me comunicar com o cara loiro, era um fato. Ele era meu parceiro naquela d***a de peça. Quer dizer, não era uma d***a a peça, mas era só r**m o fato de estar perto de um cara como ele.
Quando percebi que já estava ficando tarde e precisava ir para meu emprego de meio período, eu vi o cara dos cabelos escuros e da tatuagem da triqueta entrar na biblioteca. Eu queria falar algo, alguma coisa, mas não disse nada. Recolhi minhas coisas e passei por ele, na saída.
- E ai? - ele disse, me fitando com seus olhos estranhos.
- Oi - respondi, voltando minha visão para frente.
- Te vejo amanhã? - perguntou, antes que eu me afastasse.
- Que? - exclamei.
Ele deu de ombros e se sentou em uma mesa vazia. Balancei a cabeça e segui meu caminho. Peguei o carro no estacionamento e a moto preta continuava lá, intocada. Parecia não ter saído do lugar. Rumei para o café Fleur, no centro.
Alyssa estava no balcão, recebendo pedidos e seus cabelos loiros estavam desarrumados, como sempre.
- Oi - ela disse, cansada.
- Oi Aly, o que foi? - perguntei, levantando a tampa do balcão para passar para cozinha.
O café estava vazio naquele momento. O movimento maior, que era do meio dia as duas havia passado. Só havia um cliente em uma das mesas, digitando freneticamente em seu notebook.
Fui para a área dos funcionários e abri meu armário, colocando minha bolsa lá dentro e puxei meu avental de cor rosa com bege. Um bordado Café Fleur estava no centro do avental. Amarrei os cabelos e coloquei a touca de cor bege na cabeça e deixei meu celular dentro do bolso. Voltei para o balcão, encontrando Alyssa com a mão apoiada no queixo e o cotovelo sobre a madeira do balcão.
Olhei a loja, observando tudo. Tudo que estava fora do lugar. O café era cheio de flores e suculentas decorando. Havia até mesmo plantas no teto. O conceito era um pouco estranho, mas as pessoas iam lá para tomar seu café, independente disso.
Observei que faltava guardanapos na mesa, açúcar e adoçante. Algumas cadeiras estavam fora do lugar e o chão de madeira estava sujo.
- Alyssa, cadê o Jake? - perguntei - E por que está tudo bagunçado? - gesticulei com as mãos.
Ela me fitou, com cansaço.
- Ele saiu, simplesmente e não voltou ainda - respondeu.
- Vamos arrumar isso tudo e depois vemos o que fazer com Jake. A gerente vai chegar logo e não quero que nós tenhamos problemas.
Ela assentiu e começamos a organizar tudo. Fazia semanas que Alyssa estava prostrada. Seu namorado havia a largado e ela não parecia ter animo para nada. Eu bem que tentei anima-la, mas nada parecia resolver seu dilema.
Com tudo pronto, assei salgados no mini forno e servi alguns cafés para alguns clientes que entraram. A tarde foi passando e Jake não voltava. A gerente, Mia, estava descabelando os cabelos, pois não conseguíamos dar conta de tudo sozinhas. Mas, precisamos fazer isso. Já era sete horas, quando o café iria fechar e ele não voltara. Deixamos tudo pronto e partimos. Saímos as três juntas, para o caso de algo r**m acontecer com uma de nós. Dei carona para elas, deixando-as em suas casas, que não era distante do meu bairro e segui adiante para casa.
A garoa era fina na estrada, até em casa. Minha cabeça lateja e meus dedos enrijecidos, por fazer café na máquina por tanto tempo. Sorte minha que a máquina de lavar louça estava funcionando daquela vez, se não eu teria que lavar toda louça. Minha vista estava embaçada e tentei dirigir com o máximo de cuidado. O sono parecia me consumir por dentro.
Um baque no capô me despertou e o carro deslizou pela pista. Apertei o freio com o é e puxei o freio de mão, no reflexo. O veículo girou e girou até parar dentro de um barranco. Minha cabeça batera no volante e me sentia tonta. O coração acelerado parecia querer sair pela boca.
Abri a porta, com as mãos tremulas. Sai do carro e pude ver um gato sobre o capô do carro, na parte frontal. Meu coração doeu. Eu tinha atropelado o animal? Por Deus. Eu fiquei em estado de desespero, respirando rapidamente. Mas, se eu tivesse atropelado, não estaria em cima do capô, estaria? Ainda assim, era h******l. O animal estava aparentemente morto e eu não sabia o que fazer.
- Ei - alguém estava com uma lanterna, vindo em minha direção.
A luz era forte, me fazendo ver pontinhos brancos no olho e não enxergar nada por alguns segundos. Fechei os olhos e abri, focando a visão no escuro. A luz da lanterna iluminava o carro e pude vir a silhueta de um cara.
- Você está bem? - ele perguntou, se aproximando de mim.
Sua lanterna iluminou o chão e pude ver seu rosto. Era o cara da faculdade. Mas, como ele estava ali?
- Estou - respondi - Só o gato que não.
Ele levantou a lanterna e olhou. Voltei a iluminar o chão e me fitou. Eu não conseguia ler sua expressão.
- Parece que você teve um dia de azar - ele disse.
- Pois, é. Mas, mais azar para o gato - apontei.
- Verdade - ele concordou - Quer que ajude a empurrar o carro?
Eu assenti. Ele me pediu para entrar no carro e dei a ré. O carro deslizava pelo barranco e ele empurrou com toda força. Logo estava na estrada asfaltada mais uma vez. Parei o carro no acostamento e sai. O cara estava parado, olhando para o gato no capô.
- O que vai fazer com ele? - apontou com a lanterna.
- Não sei. O que posso fazer?
- Vamos enterrar - ele sugeriu.
Franzi o nariz. Eu não queria encostar na carcaça do gato.
- Você...hum...- tentei dizer.
- Pode deixar, eu pego ele - ele disse.
Ele me passou a lanterna e tirou o casaco. Pegou o gato, sem sentir qualquer repulsa e embrulhou no casaco.
- Pronto, agora vou levar ele comigo.
Aquele cara era estranho.
- Ahn...você veio de carro? - perguntei. O que ele fazia ali na rua? Será que estava dirigindo por ali? Não vi qualquer carro parado, nem ao menos vi um atrás de mim.
- Eu moro aqui perto - ele respondeu.
- Ah...- eu não sabia o que dizer.
- A gente se vê.
Ele saiu andando e me lembrei de perguntar algo.
- Ei, qual é seu nome? - eu gritei.
Ele não virou para trás, segurando a lanterna. Fiquei frustrada. Gritei algumas vezes e ele não voltou. Até mesmo o segui e não o vi mais pela rua, o que era de fato muito esquisito. Voltei para o carro, congelando. A garoa era persistente agora. A umidade entrava pelas roupas, como uma maldição, enregelando o corpo, até os ossos. Dei partida no carro, mas ele não estava funcionando.
- Vamos, funciona - disse, sentindo o estresse me consumindo. Bati no volante, com a palma aberta, extravasando a a raiva - Vamos, d***a. Funciona.
Dei partida mais uma vez com a chave na ignição, mas ele estava morto. Meu Chevy não queria ligar. Suspirei, cansada, colocando a testa no volante, sentindo a impotência.
Tentei mais algumas vezes ligar o carro, mas nada o fazia dar partida. Estava começando a sentir o frio de verdade tomar conta do meu corpo. Dormência e uma leve sonolência me dominava. Não podia dormir ali com aquelas roupas, ou iria pegar uma hipotermia. Na última tentativa de dar partida no carro, eu consegui. Respirei fundo, dirigindo com o máximo de cuidado possível até minha casa. Entrei silenciosamente, sem encontrar Caitlyn acordada. Já passava das nove horas da noite.
Com o corpo dolorido e sentindo calafrios intensos pelo corpo, fui direto para o chuveiro. A água quente ajudou, mas comecei a sentir o nariz entupido. Ótimo, teria um gripe em breve. Depois de secar os cabelos e colocar uma roupa quente, fui para cama e liguei o notebook. Eu queria uma resposta de Kaelus. Precisava que ele me dissesse com terminava a sua história.
Quando abri o site, lá estava a notificação do comentário respondido em seu post. O que li não me agradou tanto.
"Deveria parar de tentar decifrar algo que não é da sua conta"
Eu simplesmente me senti pasma. Aquele cara existia mesmo? Era só a d***a de uma história. Mas, mesmo assim, me instigou a querer saber mais. Respondi o comentário e******o dele, com raiva, apertando as teclas forte demais.
"Se não quisesse que as pessoas perguntassem algo simples para você e não queria dividir a história, não devia ter postado, b****a!"
Respirei fundo, com o corpo tremulo pela raiva e fechei a tampa do notebook e tentei dormir. Mas, tive uma mistura de sonho e pensamentos estranhos, sobre uma mulher de vermelho segurando um cetro, andando por um corredor medieval, decora com tapeçarias azuis e armaduras de soldados. Vi o rapaz de cabelos escuros e olhos negros da faculdade e um pingente de triqueta no pescoço e ele tentava falar comigo, mas não entendia uma palavra sequer. Depois, só o vazio e silêncio na mente.