O aviso vermelho no celular ainda pulsava quando Romeu endireitou a gravata, limpou do rosto qualquer traço de tempestade e abriu a porta da sala. O corredor pareceu engolir o seu silêncio. Ele caminhou como quem coloca o mundo no trilho.
— Reúnam o conselho e os principais acionistas de volta. Agora. — A voz dele não pediu; determinou.
Em menos de cinco minutos, a mesa oval estava novamente ocupada. Telões reacesos, pastas reabertas, atenção alinhada. Julie deu dois passos atrás, o coração em compasso trocado, não de medo do mercado, mas do homem que ela acabara de empurrar para a própria luz.
Romeu assumiu a cabeceira. O aço nos olhos voltou a ser ferramenta, não muralha.
— Vamos retomar do ponto certo. — Ele tocou o tampo com a ponta dos dedos.
— Comunicação e cultura vêm antes do Excel. Esta transação se sustenta em pessoas. E é por isso que a narrativa da aliança será conduzida… — ele buscou Julie com o olhar.
—... pela senhorita Avelar.
Houve um segundo de surpresa coletiva. O CFO pigarreou, a diretora jurídica ajustou os óculos, o marketing mordeu a tampa da caneta. Julie sentiu o peso de dezenas de olhos, mas, antes que a respiração vacilasse, Romeu completou:
— As diretrizes dela estão corretas. E são elas que evitam ruído, retêm talentos e garantem execução. Quem discordar, traga dados, não vaidades.
Ele lhe ofereceu o centro da tela com um gesto. Não havia condescendência no movimento; havia respeito. Julie avançou. O laser vermelho desenhou o caminho no slide; sua voz, firme, guiou a sala de volta ao lugar onde a estratégia encontra pele. “Transição socio-organizacional”. “Promessas cumpridas”. “Pertencimento”. Palavras que, na boca de outros, seriam piegas; na dela, viravam estrutura.
Ao final, silêncio. Daqueles que valem milhões.
— Excelente — disse um acionista veterano.
— Objetivo, humano, vendável.
Romeu assentiu uma vez, seco:
— Implementem. E um aviso: qualquer comunicação externa passa por Julie. Ponto.
A reunião se dissolveu em prazos e concordâncias. Julie recolheu as pastas sob o olhar lateral de alguns diretores; curiosidade, respeito, um quê de medo. Quando a sala esvaziou, restaram cadeiras desalinhadas, o zumbido da tela em descanso e o batimento do coração dela, alto demais para um ambiente tão grande.
Romeu não falou de imediato. Contornou a mesa devagar, como quem escolhe a palavra certa dentro de um dicionário de ferros. Parou a um passo.
— Era isso que você queria — disse, baixo.
— Eu, CEO. Você, livre. E sob minha proteção.
— Eu queria você inteiro — corrigiu, sem baixar o queixo.
— E queria poder escolher ficar.
Os olhos dele escureceram num brilho que misturava perigo e rendição.
— Então fica.
O ar vibrou. Julie recuou meio passo por reflexo; ele avançou meio passo por instinto. Encontraram-se na linha exata em que a vontade vira eletricidade. Não havia porta para trancar, nem vela para instalar. Havia o som do ar-condicionado e o calor de dois corpos decidindo a gramática do agora.
— Não aqui — ela sussurrou, ainda que nenhum “aqui” fosse suficiente para segurar o que começava.
— Aqui é perfeito — ele devolveu, a voz de gravidade baixa.
— Porque foi aqui que você me obrigou a ser o que eu sou.
O gesto veio simples: a mão dele subiu até o rosto dela, sem pressa, nas costas dos dedos tocando de leve a linha do maxilar. Um toque mínimo, mas que incendiou de dentro para fora. O polegar roçou a curva do lábio inferior, não um beijo, uma pergunta. Julie parou de respirar por um segundo inteiro. O corpo inteiro respondeu ao contato como se aquele milímetro de pele fosse um mapa secreto.
— Romeu… — o nome desfez-se em suspiro.
Ele encurtou outro centímetro. O perfume dele: vetiver, calor e homem; a embriagou num gole. A palma deslizou da face ao pescoço, pousando no oco onde o pulso canta. O dedo indicador encontrou a borda da manga, e a asa da borboleta surgiu, em relevo, como se a própria tinta pedisse ar. Ele a tocou com uma reverência que doeu.
— Eu não devia — murmurou, a boca tão perto que ela sentiu o sopro.
— Eu também não — ela respondeu. Mas as mãos dela já haviam subido, colando na lapela do terno, puxando um nada, como quem decide e não decide. A pele sob a camisa dele era calor prometido; o coração, um tambor.
O toque que não devia existir virou dois: a mão dele no pulso tatuado; a mão dela na nuca dele, dedos enroscando-se no cabelo em um convite mudo. As bocas não se encontram, ainda. Ficaram a um suspiro. As retinas se dilataram. O tempo, viscoso, alongou-se.
— Se eu cruzar essa linha — ele sussurrou —, eu não volto.
— Nem eu.
O quase os manteve acesos, ferozes, inteiros. A língua do corpo já sabia o que dizer; a da alma precisava ouvir primeiro. Ele encostou a testa na dela, um gesto íntimo, antigo, de quem pede e promete ao mesmo tempo. O nariz roçou de leve. O canto da boca encostou no canto da boca; um beijo que não é beijo, um fogo que se acende por capilaridade.
Quente. Deliberadamente quente.
Julie soltou um som que não era palavra. O polegar de Romeu voltou ao lábio inferior, e ela o recebeu com um arrepio que correu a espinha como relâmpago. A mão dele desceu para a cintura, firme, possessiva do jeito que a assustava e a acalmava. Puxou-a um pouco. O corpo dela cedeu um pouco. Nunca foi tão difícil obedecer ao próprio “ainda não”.
— Diga que quer — ele pediu, quase contra a própria regra.
— Eu quero — ela disse. — Mas quero também que você continue sendo o homem que me respeitou lá dentro.
— Os dois existem — garantiu, a voz rouca. — O CEO e o homem que te deseja.
O celular vibrou sobre a mesa, um solavanco que rachou a bolha em que estavam. Ambos pararam. Os olhos ficaram presos. As mãos continuaram onde estavam, porque nem todas as guerras perdoam retirada.
— Não atende — ele pediu, baixíssimo.
Julie sorriu, aquela curva de insolência que já era só deles.
— Se for Freud, é melhor atendermos. — Ela se afastou o necessário para alcançar a bolsa. Pegou o aparelho. A tela não mostrava o nome do segurança. Mostrava um número desconhecido. Uma mensagem curta, fria, metálica:
“Borboletas morrem sob luz fria.”
O sangue voltou a ser gelo. Romeu tomou o aparelho, leu, gelou junto. A mão que prendia a cintura dela apertou um pouco mais; proteção, não algema. Ele ergueu o rosto, o CEO já de volta ao olhar.
— Sala segura. Agora.
— Eu vou ...— disse Julie, firme .
—... mas você não me tira da linha de frente.
— Eu não sei te tirar de nenhum lugar — ele confessou, num sopro que era quase um beijo. — Só sei te querer aqui.
Ele entrelaçou os dedos aos dela; primeiro contato de mãos, simples e devastador e a guiou para a porta lateral que dava acesso ao núcleo de segurança. Antes de sair, parou, voltou o rosto, e o quase-beijo que pairava sobre os dois desde a primeira provocação encontrou um caminho novo: não nos lábios, mas no pulso tatuado. Romeu pousou a boca sobre a borboleta com um respeito que era mais indecente do que qualquer urgência. Um selo. Um voto.
Julie fechou os olhos um instante. Quente pode ser promessa também.
— Agora — ele disse, já ferro outra vez. — Vamos caçar quem acende luzes frias.
A porta do núcleo abriu com o toque de Roma. Na parede de monitores, Freud ampliava uma imagem captada minutos antes: um reflexo de metal na carroceria de um carro parado a duas quadras; uma pequena lâmina em forma de asa presa ao limpador. E, no vidro, um recorte colado de dentro para fora. As letras, em branco: “Estou vendo.”