Capítulo 7 — Ordem e Desobediência

1491 Words
A manhã nasceu com o sol espalhando um dourado frio sobre os jardins da mansão. Romeu desceu as escadas com a camisa branca impecável, o relógio de aço brilhando no pulso e o semblante mais fechado do que de costume. Freud já havia informado que o carro estava pronto para levá-los à empresa, mas a cozinha revelava uma ausência incômoda. A mesa estava posta, o café servido… mas Julie não estava ali. Ele percorreu o ambiente com o olhar, como se ela fosse surgir a qualquer momento, insolente, desafiadora. Mas Freud se aproximou, cauteloso. — Senhor, a senhorita Avelar saiu cedo. Deixou instruções para os relatórios da fusão. Romeu estremeceu a mandíbula travando. — Ela foi para a empresa sem mim? Freud apenas inclinou a cabeça em confirmação. Romeu não respondeu. Deu meia-volta, caminhou até o carro e entrou, o corpo inteiro tensionado. O trajeto até a empresa foi feito em silêncio absoluto, mas o silêncio era um campo minado: cada respiração dele era pólvora, cada lembrança de Julie atravessando sozinha os corredores da empresa era um fósforo pronto a riscar. Na sala de reuniões, os diretores da Guierrez e da Ford se alinharam em torno da mesa oval. A pauta da fusão era extensa, mas a atenção se dividia entre os gráficos no telão e a presença de Julie, sentada firme, postura ereta, voz clara enquanto apresentava os dados que havia preparado. Romeu entrou sem aviso, sem pedir licença. O impacto foi imediato: os sussurros cessaram, o ar pesou. Julie ergueu os olhos e o encarou. Ele não disfarçou a fúria. — Todos saiam. Agora. — A ordem não precisou ser repetida. Em segundos, só restavam eles dois. Julie se manteve firme, ainda que seu coração acelerasse. — Você não pode me envergonhar na frente de toda a diretoria. — Eu posso tudo quando se trata de você. — A voz dele era grave, o olhar queimando. — Você saiu sozinha da mansão, Julie. Ignorou protocolos de segurança. — Protocolos ou algemas? — ela devolveu, insolente. — Você não percebe que, quanto mais me prende, mais me sinto em perigo? Ele avançou até a ponta da mesa, apoiando as mãos no tampo como se fosse esmagá-lo. — Eu já perdi pessoas. — As palavras saíram mais baixas, quebradas, como se atravessassem cicatrizes antigas. — Eu não estou pronto pra perder você. Julie piscou, abalada pelo que viu nos olhos dele. Não era apenas raiva. Era dor. Era medo. Era amor sem nome. Ela respirou fundo, mas não conseguiu sustentar o olhar. Juntou os papéis da mesa, o som das folhas soando alto demais no silêncio. — Eu não sou uma dessas pessoas que você pode guardar atrás de muros. Romeu tentou avançar mais um passo, mas ela se afastou. — Eu preciso respirar, Romeu. Preciso ser livre. — A voz dela falhou, quase um sussurro. — Se não, não sou eu. Ele fechou os olhos, a respiração descompassada, como se lutasse contra um furacão por dentro. — Julie… Mas ela não ficou para ouvir o resto. Saiu com passos firmes, o coração apertado, sentindo o peso de cada palavra não dita. Quando a porta bateu atrás dela, Romeu recuou até a mesa. O peito subia e descia, o nó da gravata parecia um laço sufocante. Ele girou a chave da sala, trancando-se por dentro. O som seco da fechadura ecoou como sentença. Sozinho, deixou-se cair na cadeira de couro. Enterrou o rosto nas mãos. O bilionário acostumado a mandar, o homem que todos temiam, estava aprisionado pelo único inimigo que não sabia derrotar: o medo de amar e perder. Do outro lado da porta, Julie encostou a testa na madeira fria. O frio da superfície atravessava a pele, tentando acalmar o calor do coração acelerado. Os olhos marejados ardiam, não de fraqueza, mas de cansaço. Pela primeira vez, a guerra entre eles não era orgulho, nem insolência. Era dor. Dor de cicatrizes que nunca fechavam, dor de um medo que nenhum dos dois sabia como curar. Ela respirou fundo e se afastou, endireitando a coluna. Não permitiria que ninguém a visse quebrada. Os saltos soaram pelo corredor, firmes demais para quem tremia por dentro. Foi então que uma voz doce, venenosa e calculada quebrou o silêncio: — Julie Avelar… a assistente que acredita que pode domar um Guierrez. Julie parou. Patrícia Ford, ex-noiva de Romeu, noivado de negócios e fachada, estava encostada no corrimão, impecável no vestido carmim que moldava seu corpo como se cada curva fosse ensaiada para sedução e veneno. O sorriso dela não chegava aos olhos, mas cortava como lâmina. — Patrícia. — Julie disse o nome como quem escarra. — Ah, que recepção calorosa — ela ironizou, descendo os degraus com passos felinos. — Sabe, eu estava lá dentro, naquela reunião, e precisei me controlar para não rir. Você acha mesmo que consegue enfrentar Romeu? Julie estreitou os olhos. — Eu não “acho”. Eu faço. — Faz? — Patrícia riu, baixo, debochada. — Então por que saiu com os olhos marejados? Romeu nunca foi de fraquejar, mas com você… ele se tranca, perde o controle. Isso não é poder, querida. É fraqueza. Julie sentiu o estômago revirar. As palavras eram veneno, mas carregavam uma sombra de verdade que doía. Patrícia se aproximou mais, quase invadindo o espaço dela, os saltos ecoando no mármore como tiros. — Você não faz ideia do que ele esconde. Nem do quanto essa obsessão por você pode destruí-lo… e destruir você junto. — E você sabe? — Julie retrucou, a voz firme, ainda que a alma vacilasse. Patrícia inclinou o rosto, tão perto que Julie pôde sentir o forte perfume de jasmim. — Sei o suficiente para estar onde sempre estive: um passo à frente. Julie segurou o queixo dela com os olhos, desafiando o veneno com insolência. — Continue um passo à frente, Patrícia. Só não esqueça que até borboletas sabem queimar asas de predadores. Por um segundo, o silêncio foi absoluto. Então Patrícia riu, um riso fino e carregado de promessas. — Veremos, Julie. Veremos. Ela virou-se e se afastou, deixando para trás o perfume adocicado e o eco da ameaça. Julie respirou fundo, ajeitou os ombros e seguiu pelo corredor. Não sabia se a maior batalha estava atrás daquela porta trancada onde Romeu se escondia, ou diante dela, na figura de Patrícia Ford. Talvez nós dois. Ao virar o corredor, Julie encontrou Freud parado, sério, segurando um celular. Ele a fitou com expressão grave. — Senhorita Avelar… a polícia ligou. Antônio Boaz pode não estar tão longe quanto imaginávamos. Julie respirava fundo diante da porta do escritório. O barulho abafado lá dentro denunciava que Romeu não estava apenas trancado: estava em guerra consigo mesmo. A maçaneta gelada parecia pulsar contra sua palma, como se o metal guardasse a mesma fúria que queimava nele. Sem pensar duas vezes, empurrou a porta. Romeu estava de pé, os olhos escuros, a gravata já solta, o casaco jogado no sofá. A mesa de vidro tinha marcas da mão dele, e um porta-canetas quebrado denunciava a explosão silenciosa que ele tentava conter. — O que você está fazendo? — Julie perguntou, firme. — Tentando não perder o controle — ele respondeu, a voz baixa, grave. — Mas parece que com você isso é impossível. Ela cruzou os braços, insolente, embora o coração martelava. — Você se trancou aqui como se o mundo fosse desaparecer se me mantivesse fora. — Eu te quero longe do perigo. — Ele se aproximou, olhando faiscando. — Não percebe? Antônio está solto. Patrícia está jogando. E você insiste em se expor. — E você insiste em me prender. — Julie elevou o tom, a respiração acelerada. — Acha mesmo que pode controlar tudo? Pode me controlar? Romeu parou a um passo dela. O calor do corpo dele invadiu o espaço, a voz saiu mais baixa, crua: — Eu só não quero te perder. Julie respirou fundo. As palavras dele a atravessaram como uma confissão. Mas, em vez de recuar, ela se aproximou ainda mais, erguendo o queixo. — Então escuta bem, Romeu Guierrez. — Os olhos dela brilharam com firmeza. — Volte naquela sala de reuniões e seja o CEO que eu conheço. Não o homem que se tranca para fugir do próprio medo. Ele a fitou, surpreso pelo tom. Julie continuou, a voz embargada, mas firme: — Eu aceito a sua proteção. Mas só se você aceitar que eu sou livre para escolher ficar. Por um instante, o silêncio foi absoluto. Romeu não piscava, apenas a olhava como se tivesse acabado de ouvir a frase que esperava há anos. A máscara de aço dele vacilou e Julie viu, por trás dela, o homem. O que carregava cicatrizes, perdas, e um coração ainda disposto a bater mais forte por alguém. Ele respirou fundo, devagar, como se cada palavra dela tivesse encontrado abrigo dentro dele. — Julie… — murmurou, e o nome dela soou como promessa.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD