Julie desceu as escadas em silêncio, pés leves sobre o tapete espesso que abafava qualquer som. Estava de pijama, calça de algodão clara, uma blusa solta que deslizava no corpo sem esforço. O cabelo preso de forma descuidada deixava algumas mechas rebeldes caírem sobre o rosto. E o perfume de sabonete recém-usado a envolvia como um segredo íntimo, fresco, quase inocente.
Ela não sabia ou fingia não saber; o quanto aquela simplicidade a tornava ainda mais arrebatadora. Romeu, parado junto à ilha de mármore da cozinha, percebeu antes mesmo que ela surgisse no vão da porta. Seu corpo inteiro reagiu antes da mente.
Havia preparado o jantar com as próprias mãos, algo que raramente fazia. Dois filés mignon suculentos, o cheiro amanteigado dominando o ambiente, acompanhados de purê de batata macio e um vinho tinto já respirando na taça. O contraste entre a brutalidade do dia e aquele gesto simples o desnorteava e irritava.
— Você cozinha? — ela perguntou, surpresa, arqueando as sobrancelhas.
— Quando preciso — respondeu, seco, girando a faca de corte antes de pousá-la na tábua.
— E hoje, precisei.
Julie caminhou até a mesa, olhando os detalhes. Toalha branca, pratos alinhados, velas discretas que ele havia mandado acender. Tudo organizado como um campo de batalha disfarçado de cena doméstica.
— Nunca pensei que o bilionário Romeu Guierrez descesse do trono para acender o fogão — provocou, sentando-se.
— Nunca pensei que a insolente Julie Avelar desceria as escadas de pijama para jantar comigo — ele devolveu, servindo o vinho.
Os olhares se cruzaram, o ar carregado de eletricidade. Julie levou a taça aos lábios, sorvendo devagar, consciente de que Romeu a observava. O vinho desceu quente, e junto dele um desafio não dito.
— Você está me vigiando até na forma como bebo vinho? — ela ironizou.
— Estou vigiando tudo o que pode me distrair — ele retrucou. — E, no caso, você.
Julie sentiu o corpo aquecer, mas não deixou transparecer. Cortou um pedaço do filé, provou e arqueou o canto da boca.
— Está ótimo. — Pausa. — Para quem cozinha “quando precisa”.
Romeu inclinou-se sobre a mesa, o olhar fixo, voz baixa como trovão contido.
— Você ainda não entendeu, Julie? Eu sempre faço o necessário. E, quando se trata de você, eu vou além.
Ela pousou o garfo, firme.
— E eu já disse: não quero sua proteção como algema.
— E eu já disse: não é algema se você escolher ficar. — Ele se aproximou mais, rompendo a distância segura entre eles.
— Mas você insiste em me testar.
— Porque você insiste em me dominar.
O silêncio após a frase foi um campo minado. Ambos respiravam rápido, cada palavra anterior vibrando como pólvora prestes a acender.
Julie levantou-se, os olhos faiscando.
— Eu não sou uma das suas aquisições, Romeu. Eu não vou assinar contrato com o corpo e pagar com a alma.
Ele também se ergueu, imponente, atravessando a pequena distância até quase colar o corpo ao dela. O calor dele a envolveu, os olhos queimando em intensidade.
— Você não precisa assinar nada. Eu já te marquei sem tinta.
Julie engoliu seco. A borboleta tatuada no pulso latejou como se fosse uma confirmação.
Por um segundo, nenhum dos dois respirou. O som da vela estalando foi o único ruído. Até que Romeu ergueu a mão, lentamente, prendendo uma mecha solta atrás da orelha dela. O toque não foi brusco, mas carregado de promessas.
— Um copo de vinho, um desafio… — murmurou.
— Você sabe que esse jogo só termina de uma forma.
Julie mordeu o lábio, o corpo reagindo em um turbilhão que ela não queria admitir.
— E se eu disser que não?
— Então eu vou esperar até que você diga sim. — A voz dele soou grave, sincera, perigosa.
— Mas até lá, eu vou continuar te lembrando que o fogo já começou a nos queimar por dentro.
Os olhos dela incendiaram. O corpo, em contradição, pediu o que a boca negava. A mesa entre eles parecia pequena demais para conter o que crescia no ar.
Julie virou-se bruscamente, mas o movimento fez a taça dela cair, derramando vinho tinto no tapete branco como sangue fresco. Romeu a segurou pelo braço antes que ela se afastasse. O olhar deles se colidiu, e nenhum dos dois sabia se a próxima palavra seria confissão… ou rendição.
O copo tombado riscou o tapete de branco com um vermelho lento. O vinho correu como se tivesse todo o tempo do mundo; nós, não. Romeu segurou meu braço antes que eu recuasse. Não foi força. Foi freio.
O silêncio se instalou entre nós.
— Julie… — a voz dele tinha arestas e cuidado.
Eu respirei o cheiro do tinto, do filé quente, do sabonete ainda em mim e do vetiver nele. O cheiro das coisas que existem antes da decisão. Meus dedos contrariam o instinto e não puxei o braço. Fiquei.
— Solta — pedi, baixo.
Ele soltou. Mas não foi embora.
Nosso olhar ficou. O dele, firme, escuro, como se atravessasse camadas até achar a que doía. O meu, insolente como escudo, tremendo por dentro como corda esticada demais. Um passo a menos e seríamos tocados. Uma palavra a mais e seríamos fogo.
— Você está tremendo — ele disse.
— Não — respondi.
— Estou lembrando. É diferente.
— Do quê?
— Do que o mundo faz quando alguém confunde proteção com posse.
Os olhos dele estreitaram um milímetro. Não de raiva; de reconhecimento. A mão subiu um palmo, parou no ar, indecisa como uma pergunta. Eu não recuei. Ele não avançou. Ficamos com a distância exata de um quase.
A vela estalou. O vinho no tapete fez lago.
— Julie,... — ele falou meu nome como quem abre um cofre
—... eu não encosto sem você querer.
E então aconteceu o que não aconteceu: o corpo se inclinou um nada, a respiração se encontrou no meio, a pele avisou que sabia o caminho. O beijo esperou na boca dos dois e escolheu não nascer. Nasceu por dentro.
Eu o imaginei. O gosto do vinho dele, o calor do lábio, a pressão segura que não prende, a pausa que pergunta, a resposta que diz sim sem medo. Eu o vi sem ver: minha mão no punho da camisa, a asa no meu pulso encostando no risco escuro do pulso dele. Tinta com tinta. Cicatriz com cicatriz.
Meu coração mordeu o próprio ritmo. O dele respondeu no mesmo compasso.
— A coragem dela me excita — li nos olhos dele como num texto aberto.
— O olhar dele me incendeia — confessei para dentro, onde ninguém pode invadir.
A mão dele desceu um centímetro, desviou um centímetro, e parou a dois fios do meu rosto. Eu podia contar as partículas do ar. A pele puxou o mundo para perto.
— Se eu te beijar agora... — ele sussurrou, sem tocar.
—...você vai achar que te calei.
— E, se eu te beijar agora ...— respondi, igual de perto
— ...você vai achar que eu cedi.
— Então não.
— Então não.
Foi um pacto. O mais íntimo dos pactos: recusar o corpo para que a alma entenda. Ficamos ali, respirando o mesmo espaço, até que o quase se transformou em coisa inteira, invisível e violenta. Como se tivéssemos nos beijado no único lugar onde ninguém pode interromper: onde a gente guarda o que é nosso.
Ele fechou os olhos um segundo, como quem salva uma lembrança. Eu fechei também. Quando abrimos, estávamos a um passo de distância. Não me pergunte como. O corpo sabe obedecer à palavra que ainda não foi dita.
Romeu pegou o guardanapo, abaixou, pressionou o vinho no tapete. Gesto simples, caseiro, íntimo de um jeito que doeu mais do que qualquer carícia.
— Eu mando trocar — disse, sem se erguer.
— Eu lavo — respondi, sem mexer.
Ninguém cedeu. E, no meio disso, algo cedeu em nós: o medo de nomear o que estava nascendo.
Ele se endireitou, respirou devagar.
— Julie, hoje eu não te encosto — prometeu.
— Mas não vou fingir que não quero.
— Eu sei — admiti.
— E não vou fingir que não quero também.
A verdade ficou na mesa, entre os pratos e a vela. Limpa. Perigosa. Nossa.
Ele apontou com um gesto de cabeça para o corredor.
— Deixa eu te levar até o quarto.
— Sem mandar.
— Sem mandar.
Caminhamos lado a lado, a casa nos observando pelas molduras. A mansão parecia respirar mais baixo, como se aprovasse o pacto. No corredor de cima, a penumbra era de hotel caro; no chão, a passada dele fazia um som que o meu corpo já reconhecia. Paramos na porta do quarto. A divisória entre os dois; aquela porta discreta, parecia maior do que antes.
— Lembra do combinado? — ele disse.
— Qual?
— Essa porta só abre se você quiser atravessar.
— E, se eu atravessar?
— Eu vou estar te esperando.
O rubor que não me visitou me encontrou. Baixei os olhos um segundo, como quem concede a graça de parecer tímida. Quando ergui, ele parecia satisfeito e aflito ao mesmo tempo. É assim quando alguém aprende a domar a fome sem matar.
— Boa noite, Julie.
— Boa noite, Romeu.
Ele se afastou. Eu entrei. A porta fechou atrás de mim com o clique indiscreto de um segredo novo. Encostei as costas na madeira. Por instinto ou loucura, estendi a mão até a divisória e depositei a palma ali, aberta.
Do outro lado, milésimos depois, senti um calor responder. A palma dele. Nenhum de nós viu. Mas ambos soubemos. Foi o toque que não foi. A carícia que não nasce no corpo e mesmo assim marca pele.
A borboleta arde no meu pulso. Do outro lado da madeira, ouvi o suspiro dele. Ou imaginei. Tanto faz. Às vezes, imaginar é o jeito mais seguro de viver.
Afastei a mão. Ele também. O corredor retomou seu silêncio. A casa, sua vigília.
Deitei. O teto era largo e branco, perfeito para projetar cenas. Fechei os olhos e beijei Romeu sem tocar. Senti-o fazer o mesmo, do outro lado da porta, com a boca que respeita e a vontade que promete. O beijo aconteceu onde ninguém alcança: dentro.
Antes do sono vir, o rádio de Freud arranhou o corredor em volume baixo, distante, profissional:
— Perímetro leste, limpo. Câmeras sem novidade.
Sorri no escuro. Não pelo “limpo”, mas porque, pela primeira vez em anos, descansei com um perigo que não me feriu: o perigo de querer.
E, ainda assim, na moldura da janela, algo piscou. Um brilho mínimo, metálico, rápido, como se uma asa se escondesse atrás da cortina. Talvez fosse reflexo. Talvez não.