Episódio 5: O preço do sim

1173 Words
Antonela Ribas Eu disse sim. As palavras ainda ecoavam na minha cabeça como um veneno. Sim. Eu aceitei. Meus passos ecoavam pelo corredor da empresa quando deixei a sala dele, mas por dentro eu só sentia vergonha. Cada olhar dos funcionários parecia um julgamento, mesmo que ninguém soubesse. Mesmo que fosse apenas eu e ele naquela sala, a marca da humilhação estava cravada em mim. A raiva queimava junto com o nojo. Eu o odeio. Odeio aquele homem arrogante, frio, mulherengo, que se acha dono do mundo. Sim, ele é lindo — seria impossível negar. Forte, alto, traços marcantes, olhos claros que parecem perfurar qualquer defesa. O cabelo um pouco grande, sempre bagunçado de um jeito que parece estudado. Um pecado de homem. Mas não para mim. Se vou me deitar com ele, não é por desejo. Nunca. É pelo meu filho. Um sacrifício. Uma cruz que eu carrego para salvar a vida do Lucas. As lágrimas caíram no caminho de volta para o hospital, borrando a maquiagem que tentei manter intacta. O volante tremia nas minhas mãos, e minha garganta ardia de tanto segurar o choro. Josy me esperava na entrada. — Conseguiu? — ela perguntou, ansiosa, os olhos cheios de esperança. Assenti, tentando sorrir, mesmo que fosse impossível. — Consegui. — respondi baixo, a voz rouca. Ela me abraçou com força. — Graças a Deus, amiga. Eu sabia que você daria um jeito. Não. Ela não sabia. Ninguém sabia. E ninguém jamais poderia saber o preço que eu aceitei pagar. Dentro do hospital, a movimentação começou rápido. Médicos, enfermeiros, papéis, autorizações. Tudo corria como se a vida do meu filho fosse apenas mais um procedimento entre tantos. Mas para mim, era o mundo inteiro. Assinei os papéis com as mãos trêmulas. Vi quando prepararam Lucas, quando ajustaram os aparelhos. Ele estava frágil, tão pequeno naquela cama enorme. Toquei seu rosto, acariciei seus cabelos e sussurrei no ouvido dele: — Mamãe está aqui, meu amor. Vai dar tudo certo. Mas por dentro, a minha mente não se calava. O sim. O maldito sim. Eu tinha me vendido. Entregado minha dignidade, minha alma, a um homem que só queria me usar. Fechei os olhos e deixei mais lágrimas caírem. Eu odiava Heitor Veiga com cada parte do meu ser. E odiava ainda mais o fato de que, apesar de todo o ódio, o momento em que disse "sim" ainda queimava dentro de mim como uma cicatriz que jamais iria desaparecer. Enquanto os médicos organizavam a cirurgia, enquanto Josy segurava minha mão tentando me dar força, tudo o que eu conseguia pensar era que, em breve, teria que cumprir minha parte. E cada vez que esse pensamento voltava, eu sentia como se estivesse descendo mais fundo no inferno. (***) As horas mais longas da minha vida. Andava de um lado para o outro no corredor, sem conseguir me sentar. Cada passo ecoava no chão frio do hospital como um castigo. Minhas mãos suavam, meu coração estava acelerado demais, e a única coisa que eu conseguia pensar era: "Por favor, Deus, não tire meu filho também. Eu não sobreviveria." Josy tentava me segurar pelos ombros, mas eu me soltava. A aflição me consumia. — Vai dar tudo certo, amiga. — ela repetia, como um mantra. — Vai dar certo. Eu queria acreditar. Mas o medo me sufocava. Quando a porta da sala de cirurgia finalmente se abriu, corri antes mesmo do médico dar dois passos. — Doutor! — minha voz saiu em desespero. — E o meu filho? Como ele está? Ele retirou a máscara, cansado, mas com um sorriso leve. — A cirurgia foi um sucesso. Seu filho está bem. O chão desapareceu sob meus pés. Senti as pernas falharem, e as lágrimas jorraram de uma vez, quentes, incontroláveis. Caí no choro, soluçando como uma criança. Josy correu para me segurar, me abraçando com força. — Eu disse que ia dar certo. — ela sussurrou contra meu cabelo. — Ele vai ficar bem, Antonela. Chorei no ombro dela, sentindo o alívio tomar conta do meu corpo. Era como se eu tivesse tirado um peso impossível das costas. Meu filho estava vivo. Ele tinha uma chance. — Depois, vamos sair para comemorar. — Josy disse de repente, com aquele tom animado que só ela tinha. — Vamos a uma festa, beber, dançar... você precisa disso. Afastei-me um pouco, limpando as lágrimas, chocada com a ideia. — Josy, não é hora de pensar em festa. Ela segurou minhas mãos, firme. — É sim, amiga. Você precisa. Desde que o Ricardo morreu, você se trancou no seu mundo. Você não está vivendo, Antonela. Senti o peito doer com aquelas palavras. Respirei fundo, tentando encontrar forças. — Eu vivo, Josy. — Vive só para o seu filho. — ela rebateu, com ternura, mas firme. — E você é linda, tem a vida inteira pela frente. Ainda pode encontrar um amor. Sacudi a cabeça, engolindo seco, a voz embargada: — Eu não quero outro amor. O único que tive... está morto. O silêncio caiu entre nós. Josy suspirou, me abraçando de novo. Mas dentro de mim, a ferida se abriu mais uma vez. Ricardo. Meu único amor. E agora, para salvar o fruto desse amor, eu estava prestes a me entregar ao homem que eu mais odiava. **** Entrei na UTI com o coração disparado. O som dos aparelhos me envolveu, aquele bip constante que denunciava a fragilidade da vida. Meu menino estava lá, tão pequeno naquela cama grande demais para ele. Um tubo no braço, curativos, fios, máquinas. Mas respirava. Ele respirava. Me aproximei devagar, o rosto molhado de lágrimas, e acariciei sua mão gelada. — Meu amor... — minha voz saiu num sussurro, quebrada. — Você é tão forte... mamãe está aqui, sempre vai estar aqui. Apertei levemente os dedos dele, mesmo que ele não pudesse me responder. O coração parecia querer se partir em mil pedaços, de alívio e dor ao mesmo tempo. Sentei-me ao lado da cama, passando a mão pelos fios do cabelo dele. Meu pequeno guerreiro. Minha razão de existir. E foi aí que a lembrança voltou como um soco no estômago. O sim. Meu sim. Para salvar meu filho, eu me vendi. Eu me joguei nos braços do homem que mais odeio neste mundo. Heitor Veiga. O d***o mascarado de CEO. Engoli em seco, sentindo a náusea subir. Eu o odeio. Odeio seus olhos claros que me atravessam como lâminas, odeio aquele cabelo bagunçado que parece feito para tentação, odeio o corpo forte, a presença sufocante. Odeio cada detalhe dele. E, mesmo assim, em breve estarei na cama dele. Não por desejo. Não por vontade. Mas porque escolhi o sacrifício. — É por você, Lucas... — sussurrei, deixando mais lágrimas caírem sobre a coberta. — Só por você. Beijei a testa do meu filho e fechei os olhos, tentando gravar aquele momento. Ele estava vivo. Isso era tudo que importava. Mas, no fundo, eu já sabia: o preço do milagre estava marcado no meu corpo. E em breve, eu teria que pagá-lo.
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