Heitor Veigas
Entro na empresa cedo. Sempre cedo.
O terno alinhado, a gravata impecável, a postura que fazia qualquer um se encolher só de me ver passar. Minha presença sempre foi uma arma. E eu aprendi a usá-la como ninguém.
Mas, naquele dia, algo me incomodou. Caminhei pelo corredor amplo, iluminado pelo mármore polido, e quando passei pela recepção, percebi a ausência de Antonela. A cadeira dela estava vazia.
Franzo o cenho. Ela não tinha o direito de sumir assim. Não comigo.
Sem pensar duas vezes, entro no meu escritório, jogo a pasta sobre a mesa e pego o telefone.
— Me passa o número da Antonela — ordeno, seco, para o setor de RH.
Do outro lado, a funcionária engasga um "sim, senhor" e corre para me atender.
Segundos depois, o número aparece no meu celular.
Eu ligo.
O toque demora, mas ela atende. A voz dela vem baixa, cansada, frágil.
— Alô?
— Por que não veio trabalhar hoje? — disparo, a voz grave e autoritária.
Do outro lado, ela suspira, como se pesasse cada palavra antes de me responder.
— Me desculpa... era pra eu ter avisado. Estou no hospital com o meu filho. Ele já fez a cirurgia.
Por um instante, meu maxilar trava. Eu já sabia da história, mas ouvir da boca dela me causa uma pontada incômoda.
— E como ele está? — pergunto, a voz mais baixa do que eu gostaria.
— Bem... graças a Deus, bem. — ela respira fundo, e acrescenta, em tom hesitante — Obrigada... pelo dinheiro.
Um sorriso de canto surge nos meus lábios. Não de bondade, nunca. Eu não era homem de caridade.
— Não me agradeça. Até porque você ainda não me pagou.
Ela fica em silêncio por alguns segundos, e então solta:
— Eu te odeio.
Rio baixo, um riso carregado de sarcasmo, quase um rosnado.
— Mas vai me amar assim que me tiver dentro de você, querida.
— Seu... — ela solta, indignada, mas se corta no meio da frase.
O clique do desligar ecoa no meu ouvido.
Abaixei o celular devagar, deixando a risada escapar mais uma vez. A doce Antonela podia tentar resistir, mas eu sabia — ela já estava no meu jogo.
E ninguém nunca vence de mim.
O telefone vibra em cima da mesa de mogno italiano, interrompendo minha concentração nos relatórios. O nome que aparece na tela é de Marcelo Ferraz, meu sócio em uma das holdings de investimento.
— Fala, Marcelo — atendo com impaciência, reclinando na poltrona de couro.
— Heitor, precisamos de você em Nova York. Há um investidor internacional interessado em ampliar o aporte na nossa joint venture de tecnologia. Mas ele só fecha negócio se você estiver presente.
Passo a mão pelo queixo, deixando escapar um meio sorriso. Adoro quando o mundo lembra que sem mim, nada anda.
— Que dia? — pergunto, direto.
— Amanhã. O board já agendou. Querem sua presença na sede da Madison Avenue.
Me levanto, indo até a parede de vidro que dá vista para a cidade. O Rio de Janeiro se estende diante de mim, os prédios altos iluminados contrastando com o mar e o relevo. Tudo parece pequeno lá de cima, engolido pelo meu império. A sensação de domínio sempre me alimenta.
— Prepare o jato. — minha voz sai fria, firme. — Se o investidor quer Heitor Veiga, ele vai ter Heitor Veiga. Mas já deixe claro: eu não aceito termos impostos. Ou ele se curva, ou não entra.
— Entendido — Marcelo responde, com aquele tom submisso que me diverte.
— Ótimo. — desligo sem me despedir, jogando o celular sobre a mesa.
Abro a agenda digital e passo os olhos pela semana. Reuniões com acionistas, contratos a assinar, fusões a consolidar. Uma vida inteira marcada por decisões que valem milhões. E, ainda assim, meu pensamento insiste em voltar para aquela mulher teimosa que atendeu minha ligação mais cedo.
Antonela.
Odiando-me, mas aceitando meu dinheiro. Me repelindo, mas ainda no meu jogo. E eu sei: no final, todo mundo se curva.
Fecho a agenda, já decidido. Nova York será apenas mais um campo de batalha. Negócios, poder, sexo... no final, tudo gira em torno de quem tem o controle. E eu sempre tenho.
****
A pista particular do aeroporto da Barra da Tijuca já me esperava. O jato estava pronto, reluzindo sob as luzes noturnas, a equipe em posição, todos alinhados como peças de um tabuleiro que eu comandava.
Subi a escada devagar, sentindo cada olhar que me seguia. Não havia reverência maior do que o silêncio de quem sabe estar diante de um homem que pode comprar e destruir qualquer um deles com uma única ligação.
Dentro, o ambiente era impecável: couro claro, tapetes importados, madeira polida. O aroma de uísque caro misturado ao leve perfume das comissárias que aguardavam instruções.
— Sirva meu Macallan. Puro. — ordenei, soltando o blazer no banco e afrouxando a gravata.
O copo foi entregue em segundos. Dei o primeiro gole enquanto o jato começava a se mover na pista. O sabor amargo queimou minha garganta e aqueceu meu peito. O combustível perfeito para o predador em mim.
Encostei-me na poltrona, a cidade maravilhosa ficando cada vez menor pela janela. As luzes do Rio piscavam, o mar refletia os últimos resquícios da lua, e em minutos eu já estava acima das nuvens.
Mas mesmo com o mundo inteiro ao meu alcance, era ela que ocupava meus pensamentos.
Antonela Ribas.
O jeito que a voz dela tremeu ao telefone. O ódio cuspido quando disse "eu te odeio". O desespero estampado no rosto quando me pediu dinheiro.
Sorri sozinho, girando o copo de uísque entre os dedos.
— Você ainda vai se render, senhorita Ribas. — murmurei no vazio da cabine. — E quando render... vai implorar por mais.
Fechei os olhos, deixando a fantasia tomar conta.
Antonela despida, jogada sob meus lençóis. A boca contida transformando-se em gemidos, o corpo dela cedendo sob minhas mãos, a santa quebrando e virando apenas mulher.
O jato seguia rumo a Nova York, cortando o céu escuro.
E eu, Heitor Veiga, já sabia: quando voltasse... seria a hora de cobrar o que era meu.
O jato já cortava as nuvens quando apertei o botão discreto na lateral do assento. Segundos depois, uma das aeromoças se aproximou. Morena, corpo escultural, lábios pintados de vermelho. Ela sorria nervosa, mas com desejo evidente.
— Senhor Veiga, precisa de algo?
Ergui o olhar devagar, deixei o copo de uísque de lado e me levantei, ficando diante dela. Eu não precisava pedir. Nunca precisei.
— Preciso, sim. — minha voz saiu baixa, grave, carregada de ordem. — De você.
O rubor subiu pelo rosto dela. Mas não hesitou. Nenhuma hesitava.
Agarrei-a pela cintura e a empurrei contra a parede revestida de couro. Minha boca tomou a dela num beijo bruto, faminto. Ela gemeu, e esse foi o sinal de rendição que eu precisava.
Em segundos, coloco a camisinha, a saia justa estava erguida, a calcinha puxada para o lado, e eu a penetrei ali mesmo, no corredor estreito da cabine de luxo. Forte, possessivo, sem aviso. O som abafado dos gemidos dela se misturava ao ronco dos motores.
— Senhor... Heitor... — ela sussurrava, arfando, arranhando meus ombros.
Mas minha mente não estava nela.
Cada estocada, cada gemido, cada movimento... tudo era uma projeção. Eu não via a aeromoça. Eu via Antonela.
Via sua boca se entreabrindo, seus olhos se fechando de prazer e raiva, seu corpo se contorcendo sob mim.
A santa quebrando, cedendo.
Minha vitória.
Gozei com força, prendendo a aeromoça pelos quadris, um rosnado baixo escapando da minha garganta. O corpo dela tremeu, rendido, ofegante, mas eu já não estava ali. O prazer se dissolveu tão rápido quanto veio, deixando apenas o gosto metálico do tédio na boca e a lembrança de que nada era suficiente. Tirei a camisinha, joguei no lixo, ajustei a calça, recoloquei a gravata no lugar e voltei para minha poltrona com a mesma indiferença de quem fecha um negócio irrelevante.
Mais um corpo usado. Mais um momento apagado.
E ainda assim, a fome permanecia.
Eu aprendi cedo que o mundo não tem piedade de homens que amam. Amor é fraqueza, e fraqueza é um convite para ser destruído. Então eu moldei meu coração em ferro, transformei desejo em domínio. Não faço amor, não ofereço carinho. Eu tomo, eu marco, eu possuo. Porque é assim que se vence.
Servi outro uísque, olhando pela janela.
E sorri sozinho.
Porque eu sabia que nenhuma mulher seria suficiente até que fosse ela.
Antonela Ribas.