Episódio 6: O jogo começa

1430 Words
Heitor Veigas Entro na empresa cedo. Sempre cedo. O terno alinhado, a gravata impecável, a postura que fazia qualquer um se encolher só de me ver passar. Minha presença sempre foi uma arma. E eu aprendi a usá-la como ninguém. Mas, naquele dia, algo me incomodou. Caminhei pelo corredor amplo, iluminado pelo mármore polido, e quando passei pela recepção, percebi a ausência de Antonela. A cadeira dela estava vazia. Franzo o cenho. Ela não tinha o direito de sumir assim. Não comigo. Sem pensar duas vezes, entro no meu escritório, jogo a pasta sobre a mesa e pego o telefone. — Me passa o número da Antonela — ordeno, seco, para o setor de RH. Do outro lado, a funcionária engasga um "sim, senhor" e corre para me atender. Segundos depois, o número aparece no meu celular. Eu ligo. O toque demora, mas ela atende. A voz dela vem baixa, cansada, frágil. — Alô? — Por que não veio trabalhar hoje? — disparo, a voz grave e autoritária. Do outro lado, ela suspira, como se pesasse cada palavra antes de me responder. — Me desculpa... era pra eu ter avisado. Estou no hospital com o meu filho. Ele já fez a cirurgia. Por um instante, meu maxilar trava. Eu já sabia da história, mas ouvir da boca dela me causa uma pontada incômoda. — E como ele está? — pergunto, a voz mais baixa do que eu gostaria. — Bem... graças a Deus, bem. — ela respira fundo, e acrescenta, em tom hesitante — Obrigada... pelo dinheiro. Um sorriso de canto surge nos meus lábios. Não de bondade, nunca. Eu não era homem de caridade. — Não me agradeça. Até porque você ainda não me pagou. Ela fica em silêncio por alguns segundos, e então solta: — Eu te odeio. Rio baixo, um riso carregado de sarcasmo, quase um rosnado. — Mas vai me amar assim que me tiver dentro de você, querida. — Seu... — ela solta, indignada, mas se corta no meio da frase. O clique do desligar ecoa no meu ouvido. Abaixei o celular devagar, deixando a risada escapar mais uma vez. A doce Antonela podia tentar resistir, mas eu sabia — ela já estava no meu jogo. E ninguém nunca vence de mim. O telefone vibra em cima da mesa de mogno italiano, interrompendo minha concentração nos relatórios. O nome que aparece na tela é de Marcelo Ferraz, meu sócio em uma das holdings de investimento. — Fala, Marcelo — atendo com impaciência, reclinando na poltrona de couro. — Heitor, precisamos de você em Nova York. Há um investidor internacional interessado em ampliar o aporte na nossa joint venture de tecnologia. Mas ele só fecha negócio se você estiver presente. Passo a mão pelo queixo, deixando escapar um meio sorriso. Adoro quando o mundo lembra que sem mim, nada anda. — Que dia? — pergunto, direto. — Amanhã. O board já agendou. Querem sua presença na sede da Madison Avenue. Me levanto, indo até a parede de vidro que dá vista para a cidade. O Rio de Janeiro se estende diante de mim, os prédios altos iluminados contrastando com o mar e o relevo. Tudo parece pequeno lá de cima, engolido pelo meu império. A sensação de domínio sempre me alimenta. — Prepare o jato. — minha voz sai fria, firme. — Se o investidor quer Heitor Veiga, ele vai ter Heitor Veiga. Mas já deixe claro: eu não aceito termos impostos. Ou ele se curva, ou não entra. — Entendido — Marcelo responde, com aquele tom submisso que me diverte. — Ótimo. — desligo sem me despedir, jogando o celular sobre a mesa. Abro a agenda digital e passo os olhos pela semana. Reuniões com acionistas, contratos a assinar, fusões a consolidar. Uma vida inteira marcada por decisões que valem milhões. E, ainda assim, meu pensamento insiste em voltar para aquela mulher teimosa que atendeu minha ligação mais cedo. Antonela. Odiando-me, mas aceitando meu dinheiro. Me repelindo, mas ainda no meu jogo. E eu sei: no final, todo mundo se curva. Fecho a agenda, já decidido. Nova York será apenas mais um campo de batalha. Negócios, poder, sexo... no final, tudo gira em torno de quem tem o controle. E eu sempre tenho. **** A pista particular do aeroporto da Barra da Tijuca já me esperava. O jato estava pronto, reluzindo sob as luzes noturnas, a equipe em posição, todos alinhados como peças de um tabuleiro que eu comandava. Subi a escada devagar, sentindo cada olhar que me seguia. Não havia reverência maior do que o silêncio de quem sabe estar diante de um homem que pode comprar e destruir qualquer um deles com uma única ligação. Dentro, o ambiente era impecável: couro claro, tapetes importados, madeira polida. O aroma de uísque caro misturado ao leve perfume das comissárias que aguardavam instruções. — Sirva meu Macallan. Puro. — ordenei, soltando o blazer no banco e afrouxando a gravata. O copo foi entregue em segundos. Dei o primeiro gole enquanto o jato começava a se mover na pista. O sabor amargo queimou minha garganta e aqueceu meu peito. O combustível perfeito para o predador em mim. Encostei-me na poltrona, a cidade maravilhosa ficando cada vez menor pela janela. As luzes do Rio piscavam, o mar refletia os últimos resquícios da lua, e em minutos eu já estava acima das nuvens. Mas mesmo com o mundo inteiro ao meu alcance, era ela que ocupava meus pensamentos. Antonela Ribas. O jeito que a voz dela tremeu ao telefone. O ódio cuspido quando disse "eu te odeio". O desespero estampado no rosto quando me pediu dinheiro. Sorri sozinho, girando o copo de uísque entre os dedos. — Você ainda vai se render, senhorita Ribas. — murmurei no vazio da cabine. — E quando render... vai implorar por mais. Fechei os olhos, deixando a fantasia tomar conta. Antonela despida, jogada sob meus lençóis. A boca contida transformando-se em gemidos, o corpo dela cedendo sob minhas mãos, a santa quebrando e virando apenas mulher. O jato seguia rumo a Nova York, cortando o céu escuro. E eu, Heitor Veiga, já sabia: quando voltasse... seria a hora de cobrar o que era meu. O jato já cortava as nuvens quando apertei o botão discreto na lateral do assento. Segundos depois, uma das aeromoças se aproximou. Morena, corpo escultural, lábios pintados de vermelho. Ela sorria nervosa, mas com desejo evidente. — Senhor Veiga, precisa de algo? Ergui o olhar devagar, deixei o copo de uísque de lado e me levantei, ficando diante dela. Eu não precisava pedir. Nunca precisei. — Preciso, sim. — minha voz saiu baixa, grave, carregada de ordem. — De você. O rubor subiu pelo rosto dela. Mas não hesitou. Nenhuma hesitava. Agarrei-a pela cintura e a empurrei contra a parede revestida de couro. Minha boca tomou a dela num beijo bruto, faminto. Ela gemeu, e esse foi o sinal de rendição que eu precisava. Em segundos, coloco a camisinha, a saia justa estava erguida, a calcinha puxada para o lado, e eu a penetrei ali mesmo, no corredor estreito da cabine de luxo. Forte, possessivo, sem aviso. O som abafado dos gemidos dela se misturava ao ronco dos motores. — Senhor... Heitor... — ela sussurrava, arfando, arranhando meus ombros. Mas minha mente não estava nela. Cada estocada, cada gemido, cada movimento... tudo era uma projeção. Eu não via a aeromoça. Eu via Antonela. Via sua boca se entreabrindo, seus olhos se fechando de prazer e raiva, seu corpo se contorcendo sob mim. A santa quebrando, cedendo. Minha vitória. Gozei com força, prendendo a aeromoça pelos quadris, um rosnado baixo escapando da minha garganta. O corpo dela tremeu, rendido, ofegante, mas eu já não estava ali. O prazer se dissolveu tão rápido quanto veio, deixando apenas o gosto metálico do tédio na boca e a lembrança de que nada era suficiente. Tirei a camisinha, joguei no lixo, ajustei a calça, recoloquei a gravata no lugar e voltei para minha poltrona com a mesma indiferença de quem fecha um negócio irrelevante. Mais um corpo usado. Mais um momento apagado. E ainda assim, a fome permanecia. Eu aprendi cedo que o mundo não tem piedade de homens que amam. Amor é fraqueza, e fraqueza é um convite para ser destruído. Então eu moldei meu coração em ferro, transformei desejo em domínio. Não faço amor, não ofereço carinho. Eu tomo, eu marco, eu possuo. Porque é assim que se vence. Servi outro uísque, olhando pela janela. E sorri sozinho. Porque eu sabia que nenhuma mulher seria suficiente até que fosse ela. Antonela Ribas.
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