Antonela Ribas
O quarto frio da UTI infantil parecia sugar cada parte de mim. O bip constante das máquinas, o cheiro ácido de álcool hospitalar e o som abafado dos passos do corpo clínico eram o cenário que me lembrava a cada segundo onde eu estava: ao lado do meu filho, lutando para que ele respirasse, para que ele tivesse uma vida.
Meus olhos ardiam, mas não pelas luzes. Era pela raiva.
Tremia, e não apenas por causa do frio cortante do ar-condicionado. Tremia de impotência.
"Odeio depender dele. Odeio ter pedido o dinheiro. Odeio ainda mais como minha pele ardeu só de ouvir aquela voz maldita no telefone."
Passei a mão pelo rosto, tentando me recompor. Mas a verdade é que cada palavra de Heitor ainda latejava dentro da minha cabeça como um veneno. Ele me provocava, me ameaçava, me arrastava para a beira de um abismo que eu não queria atravessar. E, no entanto, eu estava presa.
Virei o rosto e olhei para o leito ao lado.
Lucas dormia, tão pequeno, tão frágil, com tubos e fios prendendo sua vida àquelas máquinas. Cada vez que seu peito subia e descia devagar, eu sentia uma pontada no meu coração — medo, esperança e amor misturados em um nó impossível de desfazer.
Acariciei o rosto dele com delicadeza, os dedos deslizando pela pele quente. Ele era a minha âncora. A razão de eu ter engolido o orgulho e aceitado a humilhação de pedir dinheiro a um homem como Heitor Veiga. Eu faria qualquer coisa pelo meu filho. Qualquer coisa.
O tempo passava lento. A noite caiu, o hospital foi se esvaziando, e ainda assim eu permanecia ali, imóvel, observando cada detalhe do sono dele como se isso pudesse protegê-lo.
Foi quando a vibração discreta do meu celular cortou o silêncio.
O coração disparou. Olhei para a tela com receio, quase rezando para ser qualquer coisa, menos ele.
Mas era.
Heitor Veiga.
Abri a mensagem com mãos trêmulas.
"Estou em Nova York. Quando eu voltar, vamos conversar sobre o que você me deve, querida."
A respiração me falhou. Apertei o celular contra o peito, tentando sufocar o pânico que se espalhava pelas minhas veias. Ele não falava de dinheiro. Eu sabia. Eu sempre soube.
Quinhentos mil ou quinhentos reais, pouco importava. Heitor não emprestava, não ajudava, não oferecia nada sem cobrar um preço. E o preço que ele queria... era o meu corpo.
Fechei os olhos com força, lutando para afastar a onda de desespero. Não queria. Deus, eu não queria. A ideia de me deitar com ele me nauseava, me enchia de repulsa e de medo. Mas como fugir? Ele havia pago os duzentos mil que salvaram Lucas.
Engoli seco, tentando não chorar. Olhei de novo para o meu filho, para aquela criança que era minha vida inteira, e senti o peso esmagador da prisão em que eu mesma havia me colocado.
Por ele, eu suportaria tudo. Até mesmo a sombra de Heitor Veiga.
Mas, naquele instante, sozinha no escuro do hospital, eu me dei conta da verdade mais c***l: meu corpo já não me pertencia mais. Era a moeda que eu tinha entregue ao d***o.
(***)
Dois dias depois da cirurgia, o hospital parecia finalmente menos sufocante. O som dos aparelhos já não me torturava tanto, porque agora eles não prendiam meu filho a uma linha tênue de vida. O médico entrou com um sorriso discreto, carregando a prancheta nas mãos, e eu senti meu coração parar por um segundo antes que ele falasse:
— Dona Antonela, o Lucas está de alta hoje. Ele reagiu muito bem ao procedimento.
As palavras ecoaram como música. Meu peito se encheu de ar pela primeira vez em semanas, e um sorriso brotou em meu rosto antes que eu pudesse me conter. Olhei para Lucas, sentado na cama com aquele jeitinho franzino, mas os olhos brilhando de expectativa.
— Vai poder ir para casa, meu amor. — falei, acariciando o cabelo dele.
— Sério, mãe? — a voz dele saiu trêmula de alegria.
— Sério, campeão. — confirmei, e ele abriu um sorriso largo, daquele que sempre me desmontava.
Saímos juntos do hospital, e assim que cruzamos a porta de vidro, fomos surpreendidos. Josy estava lá, a melhor amiga que a vida me deu, com um sorriso radiante e os braços carregados de sacolas coloridas.
— Olha só quem está de volta! — ela exclamou, quase correndo até nós. — Lucas, meu guerreiro favorito!
Ele riu, envergonhado, mas aceitou os presentes. Carros de brinquedo, jogos, uma caixa de chocolate.
— Obrigado, tia Josy! — disse, abraçando-a com força.
Eu apenas observei a cena, o coração transbordando de gratidão. Não era só sobre presentes; era sobre o carinho, o cuidado que ela tinha por nós.
A viagem de volta para casa foi silenciosa, mas cheia de pequenos gestos: Lucas olhando pela janela, sorrindo, como se estivesse descobrindo o mundo outra vez; eu segurando sua mão com força, como se nunca mais fosse soltar.
Chegamos ao nosso apartamento simples. O quarto dele já estava arrumado do jeito que eu havia deixado antes da internação: lençóis limpos, travesseiros fofos, os bonequinhos de super-heróis alinhados na prateleira. Coloquei-o deitado com cuidado, ajeitando o travesseiro sob sua cabeça.
— Está confortável, filho?
— Muito, mãe. É bom estar em casa. — ele respondeu, já se aconchegando como se nunca tivesse saído dali.
Beijei sua testa e saí devagar, deixando a porta entreaberta.
Na cozinha, comecei a preparar algo simples para ele comer — arroz, frango desfiado, caldo leve. Enquanto cortava os temperos, Josy se encostou no balcão, observando-me com aquele olhar que já adivinhava meus pensamentos.
— Vamos comemorar, amiga. Você merece. Uma noite pra você respirar, se divertir. — ela disse, batendo levemente na bancada. — Tem uma festa hoje, vai ser incrível.
Suspirei, balançando a cabeça.
— Não, Josy. Não mesmo. — respondi firme, mexendo a panela. — Minha comemoração é ter o Lucas em casa, no quarto dele, respirando bem. Eu não consigo pensar em festa agora.
— Mas, Antonela... — ela começou, insistente.
— Não. — cortei de vez, olhando-a com firmeza. — Por favor, não toca nesse assunto.
Ela ergueu as mãos em rendição, percebendo o peso da minha decisão.
— Tudo bem... tudo bem. — murmurou, ainda com aquele olhar preocupado. — Eu só queria te ver sorrir de verdade outra vez.
Sorri de canto, cansada, mas sincera.
— Eu vou sorrir, Josy. — respondi, olhando para a porta entreaberta do quarto. — Por ele, sempre vou sorrir.
Enquanto mexia a panela e ouvia a respiração tranquila do meu filho ao fundo, soube que aquela era a minha festa: a vida de Lucas, a esperança que eu jamais deixaria apagar.