Capítulo 3 - Ele está aqui

2301 Words
[...] o sol não purificou o céu de teus suspiros, gemidos repercutem ainda em meus velhos ouvidos, olha aqui sobre tua face aparece uma marca de uma lágrima antiga, que ainda não foi limpa [...] – Willian Shakeaspeare ♥ Ela lembrará dos seus sonhos aquela noite, de quando um anjo aparecia para salvá-la das surras. Lembrou de como seus olhos eram vívidos como duas chamas lascivas e cortantes. Ele sangrava muito e assim mesmo a segurou no colo com todo zelo possível. Como pode sonhar com alguém que ainda nem se quer conhecia? Nada ao seu redor cheirava a romantismo, pelo contrário cigarro, álcool e poeira fazia parte de sua colônia diária. Contudo o cheiro de alfazemas cingia o nariz toda vez que a imagem dele visitava em sonho. Uma criança, que guardará dentro do coração o maior dos sentimentos. Tudo isso havia ficado no passado, os dias seguiam, surras acabaram, o medo e as lágrimas se foram. Mas por que a imagem dele martelava sua cabeça nas horas ruins, nas horas boas, e nas horas em que suspirava atoa? Aurora prensa os dedos trêmulos na bailarina pendurada em seu pescoço num fino colar de ouro. Toda vez que os nervos estavam a flor da pele, sua mão seguia para o mesmo rumo, segurava objeto como se a vida dependesse daquilo, ainda que inconscientemente esse era seu TIC constante. O presente lhe entorpece até hoje. Se levarmos em consideração o fato de que a pessoa a qual o deu, nem se importou de entregar pessoalmente, ainda bem pois se fincasse a fundo no escuro de seus olhos encontraria as promessas apaixonadas que estava disposta a fazer sem pedir nada em troca. A companhia de ballet Feistry, veio da Noruega buscando a nova bailarina modelo. A candidata teria que ser boa o suficiente para apresentar seus clássicos, carregar seu nome ganhar o salário com vários dígitos, e como cortesia viajar para cada metrópole de inúmeros países dançando. Seus pais a apoiaram quando contou a eles sua segunda maior paixão ser uma bailarina reconhecida, ter seu próprio estúdio e através da dança ajudar outras crianças, crianças sem perspectivas como fora um dia. Afinal quantas não precisavam ser libertadas pela dança? Ou qualquer outra arte. A sua primeira paixão não contava a – quase – ninguém, porque estava enterrada bem no fundo do seu peito. Junto com o rosto dourado decorado na mente, os olhos verdes que os cílios grandes guardavam em segurança, a pequena covinha na bochecha direita conforme entortava a boca, os fios loiros jogados para os mais variados lados numa bagunça que a remexia por dentro. – Aurora Gianini Telles. Seu nome ecoava pelo salão, a acordando da corrente pensativa, agora caberia a ela usar tudo que aprendeu. Nos últimos anos treinava até a pele do pé rasgar e ainda não parecia o suficiente. Ela queria despertar o mesmo fascínio que sentia pela dança com seus movimentos graciosos, e ao mesmo tempo demonstrar o quanto a dança pode agredir, completar e motivar um ser humano. Começou com um simples Tendu, sua perna direita pendeu para o lado, a esquerda esticada o máximo que os músculos permitiam para trás e rapidamente para frente do corpo. Arrastava a perna na direção da outra com graça e elegância, seus braços acompanhavam a suave a batida num ritmo perfeito. Primeiro levantou o calcanhar, e depois a planta dos pés, com maestria se alinhou na ponta de um só pé. E brindou a todas com sua performance pra lá de memorável. Fechou os olhos e sonhou com o dia em que da plateia ele estaria a observando, com seus olhos cor de esmeralda a dividir sua alegria. Rodopiava o corpo com a faceta feliz, na mesma constância da música dedilhada a piano lhe propusera. Mas quando o som começou a ficar pesado a tristeza veio como máscara e possuiu seus olhos escuros. De tantos os motivos a quais ela tinha para interpretar o papel cheio de dor, o que assolou foi o fato de que os seus sonhos nunca se realizariam. Seu amor estava pra lá de platônico, e toda sua fúria por não o ter transformou seu Jeté no mais perfeitos que os avaliadores avistaram até aquele momento. Lançou seu corpo no alto com ambas as pernas esticadas para os lados opostos, seus braços ficaram em formato de concha envolta da cabeça, e ela soltou gotas salgadas dos olhos totalmente absolta em suas emoções e na forma como a dança as despertavam. Finalizou a apresentação cumprimentando os jurados com uma alegria injetada. E os quatro ficaram sobre seus pés para aplaudirem o domínio que tinha sobre o corpo. – Obrigada – disse por fim controlando sua respiração pesada. No fim do corredor conseguiu ver que tinha mais pessoas a assistindo, teve v*****e de correr imediatamente para aqueles abraços e mergulhar no fascínio dos olhares orgulhosos na arquibancada. Aurora não podia reclamar da vida, ela ganhou tudo que lhe foi tirado em dobro. Sua mãe adotiva Layla parecia a mulher mais bela que já tinha visto desde a primeira notada. Seus cabelos negros corriam soltos emoldurando o rosto bonito, uma cicatriz começava envolta do queixo e terminava no fim da sua bochecha direita só a tornavam mais gloriosa, e cheia de vitória. Sua mãe era uma sobrevivente, como ela. Thor Telles ocupou com maestria seu papel, chamá-lo de pai foi a coisa mais natural do universo. Mesmo com toda a aversão que tinha a homens o seu colo parecia o melhor conforto a cada tombo que ganhava. A pequena Thalia batia palmas no colo dele e deu a entender que estava realmente orgulhosa. Vestida com um collant rosa escuro com tule nas bordas formando a sainha rodada, até mesmo de sapatilhas brilhantes a mãe enfeitou. Sentia tanto amor por essa família que chegava a doer. Quando o pai a colocou no chão a menina correu até o palco. Layla seguia seus passos desconexos, mas não a proibiu de subir as escadas de madeiras até erguer os braços para Aurora, que sorriu ao aconchegar Thalia junto a si, recebendo beijos melados e grudentos efeito de algum pirulito o qual marcava sua boquinha com corante vermelho. – Voxê parece uma prinxesa, prinxesa que dança – os olhinhos cintilavam devida a grande emoção. a síndrome de Down quase a matou sem o devido cuidado. E hoje vive como uma criança saudável graças ao amor dos Telles. Se lembra exatamente do dia em que correu para os braços da mulher, e implorou por socorro. As donas do orfanato iriam sacrificar a pequena irmã, pois não tinham serventia, seria um gasto a mais já que ninguém adotaria uma "criança deformada" segundo elas, que nem se quer pode trabalhar por seu pão. Foram dias horrendos os quais tentou trabalhar vinte e quatro horas por um pouco de piedade a pequena. Enfim, o passado foi enterrado, e hoje as duas vivem como verdadeiras princesas. – Obrigada meu sorvetinho – esfregaram a ponta do nariz de uma contra a de outra, num beijo de esquimó. Descendo as arquibancadas para trás da cortina, Thor tem os braços abertos para um abraço aconchegante. – Parabéns minha filha, você encheu nossos olhos e nossos corações – deposita um beijo na testa da menina que tem um sorriso imenso no rosto. Thalia oferece os braços para o pai que a recebe de bom grado. – Oh meu Deus minha Luz você estava maravilhosa. – Layla aperta a filha nos braços como se pudesse guardar aquele momento dentro de si para sempre. – Amo você meu amor, amo você. É uma pena que vamos ter de perder para Londres, Inglaterra, França. Não tenho dúvidas de que você foi a escolhida. – Ah mamãe, obrigada. Seus amigos Arthur, Sabrina e Amanda a roubaram dos braços da mãe prendendo-a num abraço quadrupolo, despejaram palavras do vocabulário secreto, tanto carinho que Aurora m*l podia absorver. Só conseguiu se soltar do quarteto arrebatador quando encontrou Roberto Telles e Ana Vicente, seus padrinhos também vieram. O significado disso tudo a fazia transpirar alegremente. ♥ – Aurora não vale quebrar tudo hoje, queremos pegar alguns carinhas também. – Sabrina sorri quando consegue deixar a amiga corada. Hoje Aurora completa a maior idade, sua festa será apenas na próxima semana em grande estilo e com metade da cidade sendo convidada. Coisas de sua avó paterna, Carmem Telles quer uma debutante perfeita em um vestido lindo e um sapato de cristal. Suas amigas deram corda e sua mãe preparou com afinco a festa, claro logo após ao seu consentimento, Layla Telles não era do tipo extravagante que gostava de esfregar o dinheiro da família na cara da sociedade, mas não se importava em realizar para filha um sonho de princesa, caso fosse sua v*****e. – Como se a Luz ficasse com alguém – Amanda dá de ombros, quando todas a repreendem com um olhar a ruiva se defende – qual é gente, todo mundo sabe da verdade. – Amiga só pra te informar o Caleb me perguntou três vezes se você vai estar lá – Arthur diz empolgado. – E o que você falou? – Amanda quem responde ansiosa, o sentimento da garota por Caleb Tompson é silencioso, um afeto reprimido porque todos sabiam a quem realmente o garoto desejava, quase como uma obsessão. – Falei que ela iria, e talvez que ele pudesse nos buscar. – Ai Tutu você é demais, vou adorar chegar numa boate com o campeão da nossa escola – Sabrina bate palminhas. – Essa noite tem que entrar pra história garotas – Aurora por estar agitada com dejavus constantes, tentou encerrar o assunto. Mas a empolgação era clara. – Lembrando que o marco existencial foi rompido, não seremos mais as nerds, e sim as calouras... menos você amiga, que decidiu abrir mão da faculdade, pra ser uma bailarina. – De qualquer forma, vou continuar estudando, se duvidar até mais... isso me deixa aflita, só de pensar e ficar longe de vocês. – Não se preocupa Luz, vai dar tudo certo – Sabrina tinha confiança e impotência em sua voz, sabia que não falharia todo o seu plano de beber até cair, sorriu com a promessa da primeira ressaca grupal. – Essa vai ser nossa primeira noite numa balada, a noite das meninas sempre foi regada a pizza e livros, não que não tenham sido maravilhosas, só que... coisas novas estão por vim, e eu quero muito tudo isso sabe? – Se acalme Sabrina, é só uma festa. – Mas no fundo do seu peito tudo que esperava é que a partir daquele dia as coisas mudassem. – Amiga poderia nos ensinar alguns passos de dança? – Claro – Aurora ri, seu corpo estava distante, mais na mente tudo que imaginava era se o seu d****o singular estaria naquela boate. A imprensa afirma que ele está na cidade, e tudo que ela mais quer é encontrar com o par de olhos verdes que nunca abandonaram seus sonhos de adolescente. Ao som de Eli Iwasa os cinco amigos se divertem imitando os passos sensuais de Aurora Telles, se havia uma coisa na qual ela era boa e ninguém podia negar era a forma como seu corpo balançava encontrando o ritmo de qualquer música. Um prefácio dentro do destino, seu corpo queria encontrar o elo, o imã, o que estava atraindo a semanas para ir aquela boate das quais nunca frequentariam. Quando conseguiu convencer seu pai a deixar ir sabia que tudo parecia uma profecia, já que Thor Telles cuidava de suas meninas como se fossem pérolas mais valiosas no universo. E quando o homem deixou a filha na frente da boate, seu coração parecia ser esmagado. As amigas estavam eufóricas e ele preocupado. Aurora era bonita demais para sua própria sorte. – Tchau tio – o pessoal se despediu em uníssono saindo do carro. – Filha me dá um minuto? – Claro papai, o que é? – Trouxe isso pra você – o pai entrega a embalagem prateada pequena a qual caberia perfeitamente em sua bolsa de mão. – Um spray de pimenta? Papai, fala sério. – Se for preciso use. Deixei meu número na discagem rápida. – Ah papai, eu te amo, e o que poderia dar errado é só uma festa? – Os monstros estão à solta, e meu cordeirinho está entrando aí dentro quase como uma oferenda. – Papai – Aurora cai numa gargalhada e deposita um beijo na bochecha do homem– eu já sou grandinha, vai ficar tudo bem! O fato de Aurora ter demorado para resolver sair a festas sempre deu esperança ao coração de um pai ciumento e preocupado. Thor não era um tirano e proibiria a filha de ter uma vida, apenas se preocupava com sua menina, por mais forte que ela parecia seu coração já fora triturado demais para uma criança pequena. – Tudo bem pequena Luz, se divirta. E foi assim que a sensação da noite desceu do carro importado, havia pessoas na frente da boate bebendo em rodinhas, formando a fila para entrar, encostadas em seus carros. Mas todos os olhos foram para os saltos negros e subiram para a pele exposta alva, um vestido preto tomara que caia brilhante desenhava seu corpo como de uma deusa nórdica. Layla Gianini caprichará na hora de maquiar a filha deixando os olhos negros bem-marcados, combinando com exatidão aos cabelos loiros soltos em cachos. E o primeiro passo para sua ruína tinha sido dado ali. Se Aurora tivesse o dom de prever tudo o que aquela noite a despertaria, teria voltado correndo para o carro do pai que ainda estava lá a sua espera. E quase como um presságio ela podia sentir. O seu objeto de d****o dos últimos anos estava ali. E ela não mediria esforços para tocar o mundo dele com o dela. ♥
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