Os dias continuavam difíceis…
Mas Camila estava tentando.
Tentando se manter de pé.
Tentando não pensar demais.
Tentando não sentir demais.
Além da lanchonete, ela conseguiu um trabalho extra.
Faxina.
Não era fácil.
Mas era honesto.
E ela precisava.
Naquela manhã, ela chegou ao endereço com o uniforme simples, cabelo preso e um leve nervosismo.
A casa era linda.
Grande.
Elegante.
Muito além de tudo que ela já tinha vivido.
Ela respirou fundo antes de tocar a campainha.
A porta se abriu.
E uma mulher apareceu.
Linda.
Bem vestida.
Com um sorriso gentil… e uma barriga já bem evidente.
Grávida.
— Você deve ser a moça da limpeza — a mulher disse, com uma voz doce.
— Sou eu sim… — Camila respondeu, sorrindo educadamente.
— Pode entrar.
Camila entrou, olhando ao redor discretamente.
Tudo ali era perfeito.
Organizado.
Luxuoso.
Mas aconchegante.
— Pode ficar à vontade — a mulher disse. — Meu nome é Larissa.
— Prazer… Camila.
Larissa sorriu.
— Você é muito bonita.
Camila ficou sem graça.
— Obrigada…
O olhar dela caiu para a barriga da mulher.
— E… sua barriga também tá linda.
Larissa sorriu, acariciando o ventre.
— Obrigada… já tá grandinha, né?
— Tá sim… muito linda.
Por um momento…
Tudo parecia leve.
Simples.
Humano.
Sem segredos.
Sem mentiras.
Sem dor.
—
Camila passou o dia inteiro limpando.
Cada canto.
Cada detalhe.
Cansando o corpo… tentando calar a mente.
Larissa foi gentil o tempo todo.
Ofereceu água.
Perguntou se ela estava bem.
Conversou.
Tratou como gente.
Algo raro.
—
Quando terminou, já estava exausta.
Os braços doíam.
As pernas pesavam.
Mas ela ainda sorriu ao receber o pagamento.
— Muito obrigada — disse.
— Eu que agradeço — Larissa respondeu. — Volta quando quiser, viu?
— Volto sim…
E saiu.
Sem imaginar.
Sem desconfiar.
Sem saber…
Que aquela casa… não era qualquer casa.
—
Quando chegou ao quarto do hotel…
Ela praticamente caiu na cama.
O corpo inteiro doía.
Mas, de alguma forma…
O coração estava mais leve.
—
Os dias passaram.
E, aos poucos…
Victor começou a aparecer mais.
Ia até o hotel.
Ficava com ela.
Assistiam filmes.
Dividiam risadas.
Trocavam beijos.
Às vezes ele a levava para sair.
Nada muito luxuoso.
Mas, para ela…
Era especial.
Era suficiente.
Era o que ela sempre sonhou.
—
E assim…
Na mente de Camila…
Tudo começou a parecer certo.
Como se as coisas estivessem finalmente entrando nos trilhos.
Como se o amor estivesse voltando.
Como se aquela dor… tivesse sido só um começo difícil.
—
Mas o que ela não sabia…
Era que, em algum lugar daquela cidade…
Duas vidas completamente diferentes dela…
Já estavam ligadas ao seu destino.
Uma…
Baseada em mentira.
Outra…
Pronta para virar sua vida de cabeça para baixo.
—
E enquanto ela sorria…
Vivendo uma felicidade construída sobre ilusões…
O tempo…
Silencioso…
Se aproximava do momento em que tudo iria desmoronar.
longe dali o escritório estava em silêncio.
Luxuoso.
Impecável.
Frio.
Ele estava sentado… aparentemente relaxado.
Mas seus olhos diziam outra coisa.
Sobre a mesa, uma pasta.
Dentro dela…
A vida inteira de Victor.
Ele abriu devagar.
Folheando sem pressa.
Como um homem que já sabia o final da história… mas ainda assim queria apreciar cada detalhe da queda.
— Interessante… — murmurou.
Emprego recente.
Crescimento rápido demais.
Contatos suspeitos.
Mentiras.
Muitas mentiras.
Ele encostou na cadeira.
— Um oportunista…
Um dos homens se aproximou.
— Chefe… já levantamos tudo. Ele não é tão limpo quanto parece.
Um leve sorriso surgiu.
Sombrio.
— Melhor ainda.
Ele fechou a pasta.
— Vamos começar devagar.
O homem assentiu.
— Como o senhor quer fazer?
Ele se levantou.
Dessa vez… sem a cadeira.
Andando firme.
Seguro.
Mostrando quem ele realmente era… quando ninguém estava vendo.
— Primeiro… o trabalho dele.
Parou diante da janela, olhando a cidade lá embaixo.
— Eu quero que ele comece a ter problemas.
— Que tipo de problemas?
— Aqueles que ninguém consegue provar… mas todo mundo sente.
—
No dia seguinte…
Victor chegou ao escritório.
Confiante.
Como sempre.
Mas algo estava errado.
— Senhor Victor… — a secretária disse, nervosa — o senhor foi chamado na sala da diretoria.
Ele franziu a testa.
— Agora?
— Sim.
Ele entrou.
E, em poucos minutos…
O mundo começou a mudar.
— Houve uma inconsistência em alguns relatórios…
— Isso é impossível — ele rebateu.
— Estamos investigando.
Olhares desconfiados.
Sussurros.
Clima pesado.
—
Dias depois…
Cartões bloqueados.
Pagamentos atrasados.
Negócios cancelados.
Telefonemas ignorados.
Portas fechando.
Uma a uma.
—
— O que tá acontecendo?! — Victor gritou, jogando o celular na mesa.
Do outro lado da linha, ninguém tinha resposta.
Porque ninguém sabia.
Ou fingia não saber.
—
Do outro lado da cidade…
Ele assistia tudo.
Com calma.
Com precisão.
— E isso é só o começo… — disse, girando lentamente um copo de bebida.
O segurança ao lado ficou em silêncio.
— Chefe… e a mulher?
Os olhos dele escureceram levemente.
— Não encostem nela.
Pausa.
— Nem na criança.
Frio.
Direto.
— Isso aqui é entre mim… e ele.
—
Enquanto isso…
Camila estava sentada no pequeno quarto.
Sorrindo.
Mandando mensagem.
“Tô com saudade…”
“Quando você vem me ver?”
Ela acreditava…
Que tudo estava bem.
Que a vida estava melhorando.
Que o homem que ela amava… estava apenas ocupado.
—
Mas não estava.
Ele estava caindo.
Sem saber por quê.
Sem saber quem.
Sem saber quando ia parar.
—
E, pela primeira vez…
Victor sentiu medo.
—
Na cobertura…
Ele observava a cidade mais uma vez.
Imponente.
Intocável.
— Ninguém machuca o que eu escolho proteger…
A voz saiu baixa.
Quase um sussurro.
Mas carregada de poder.
— E sai impune.
Um leve sorriso surgiu.
Frio.
Controlado.
Perigoso.
E assim…
Sem que ninguém percebesse…
A guerra tinha começado.