O papel já estava um pouco amassado de tanto que ela segurava.
Era o endereço.
O começo da nova vida.
Ela parou na frente do prédio, respirou fundo e olhou mais uma vez.
— É aqui…
O coração acelerou.
E então—
— Camila?!
Ela virou rapidamente.
Os olhos brilharam na mesma hora.
— Victor!
Um sorriso verdadeiro, cheio de saudade, iluminou o rosto dela.
Ela correu até ele.
— Você já tá aqui?!
Ele abriu um sorriso… mas não era o mesmo.
— Camila… você tá aqui, minha princesa?
Ela o abraçou forte, como se todo o tempo longe tivesse desaparecido naquele instante.
— Eu disse que vinha…
Ele riu de leve, sem muita emoção.
— Eu não pensei que você ia chegar tão rápido.
Ela se afastou um pouco, ainda segurando os braços dele.
— Agora é verdade que você já se formou? Já?
— Já sim.
— Ai, que bom!
Ela o abraçou de novo, apertando.
Mas… algo estava errado.
Ela sentiu.
Quando se afastou, o olhou com mais atenção.
O terno impecável.
O cheiro de perfume caro.
O jeito… distante.
— Aconteceu alguma coisa, Victor?
Ele desviou o olhar, ajeitando o próprio terno.
— Não… é que você amarrotou meu terno.
Ela arregalou os olhos, soltando ele rápido.
— Desculpa!
O clima mudou.
Frio.
Estranho.
Ele respirou fundo.
— Então… onde estão suas coisas?
Ela levantou a mochila com um sorriso sem graça.
— Aqui.
Ele franziu a testa.
— Só isso?
— Foi só o que eu consegui trazer… eu acabei de chegar.
Ela olhou ao redor, tentando recuperar o entusiasmo.
— Onde fica a sua casa? Eu queria tomar um banho… comer alguma coisa…
Silêncio.
Pesado.
— Camila… — ele começou, passando a mão no cabelo — eu tenho que te contar uma coisa.
Ela sentiu o coração apertar.
— O quê?
Ele evitava olhar diretamente para ela.
— Você… não vai poder ficar lá em casa.
Ela piscou, confusa.
— Por quê?
— A minha casa tá em reforma… — ele disse rápido — e eu tô na casa de um amigo meu.
Ela ficou em silêncio por um segundo.
Aquilo não parecia certo.
Mas ainda assim… ela sorriu.
Porque queria acreditar.
— Ah… tá…
Ela respirou fundo.
— Tudo bem. Então eu vou procurar um apartamento, tá?
Ele assentiu, aliviado.
— Eu sei que você vai conseguir encontrar.
Então ele tirou um envelope do bolso.
— Toma.
Ela olhou, sem entender.
— O que é isso?
— Tem cinco mil reais aí.
Ela recuou na hora.
— Não precisa, Victor.
— Precisa sim — ele insistiu, colocando o envelope na mão dela. — Pra você achar um lugar… comprar alguma coisa pra comer… qualquer coisa me liga, tá?
Ela hesitou… mas acabou aceitando.
— Tudo bem…
O silêncio voltou.
Desconfortável.
Ela tentou sorrir.
E então se inclinou levemente, oferecendo o rosto para um beijo.
Mas ele recuou.
— Não… quer dizer… não precisa me beijar agora, tá?
Ela congelou.
Aquilo doeu.
Mais do que qualquer coisa.
Ela o olhou, tentando entender.
— Você tá tão diferente, Victor…
Ele forçou um sorriso.
— Só tô cansado, princesa… só isso.
Mentira.
Ela sentiu.
Mas não disse nada.
Apenas assentiu.
— Tudo bem…
Guardou o envelope na mochila.
E começou a andar.
Sozinha.
Na cidade grande.
Sem olhar para trás.
—
Do outro lado da rua…
Ele observava.
Ainda na cadeira de rodas.
Ainda em silêncio.
Mas agora… com algo novo no olhar.
Interesse.
Escuro.
Perigoso.
Ele tinha visto tudo.
Cada detalhe.
O abraço.
A frieza.
A rejeição.
A dor dela… mesmo escondida.
Um dos homens se aproximou.
— Chefe?
Ele não desviou o olhar dela nem por um segundo.
— Eu quero tudo sobre ela…
Fez uma breve pausa.
O maxilar travou.
— E sobre ele também.
O segurança assentiu imediatamente.
— Sim, senhor.
Ele continuou observando enquanto ela se afastava, pequena no meio da cidade enorme.
Vulnerável.
Sozinha.
Perfeita.
E naquele momento…
Ele tomou uma decisão.
Uma que mudaria tudo.
— Ninguém mente pra uma mulher da minha frente… e sai impune.
A voz saiu baixa.
Fria.
Letal.
A noite tinha caído.
E com ela… a verdade começava a aparecer.
Dentro do carro preto, parado em uma rua discreta, ele observava em silêncio.
Os olhos frios.
Calculistas.
Perigosos.
— Chefe… — o homem ao lado disse, olhando o tablet — já temos informações sobre ele.
Ele não desviou o olhar da casa.
— Fala.
O segurança respirou fundo.
— Nome: Victor Almeida. Recém-formado… mas já vive como alguém da alta sociedade.
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
— Interessante…
— Mas não para por aí.
O tom mudou.
Mais tenso.
Mais pesado.
— Ele não mora sozinho.
Silêncio.
O ar dentro do carro ficou mais denso.
— Continua.
— Ele vive com uma mulher… há meses.
Os dedos dele apertaram o apoio da cadeira de rodas.
Com força.
— Nome dela?
— Larissa.
Uma pausa.
E então—
— Ela está grávida, chefe.
Silêncio absoluto.
O tipo de silêncio que antecede algo perigoso.
Muito perigoso.
Os olhos dele escureceram completamente.
— Grávida… — ele repetiu, baixo.
E então voltou a olhar para a casa.
As luzes acesas.
Cortinas entreabertas.
E lá dentro…
A cena que confirmou tudo.
Victor.
Rindo.
Abraçando uma mulher.
A mão dele deslizou pela barriga dela.
Uma barriga já visível.
Proteção.
Carinho.
Mentira.
Tudo mentira.
O maxilar dele travou.
— Ele mentiu pra ela…
A voz saiu fria.
Controlada.
Mas carregada de algo pior que raiva.
Desprezo.
— Mentiu… usou… e descartou.
O segurança permaneceu em silêncio.
Porque sabia.
Aquilo não ia acabar bem.
Nunca acabava.
— E ela… — ele continuou — chegou hoje na cidade… sozinha… acreditando nele.
Fechou os olhos por um segundo.
Mas quando abriu…
Já não havia mais dúvida.
Nem hesitação.
Só decisão.
— Eu não gosto de homens assim.
O segurança engoliu seco.
— O que o senhor quer que a gente faça?
Ele inclinou levemente a cabeça.
Os olhos ainda presos naquela casa.
— Nada… ainda.
Pausa.
Lenta.
Calculada.
— Primeiro… eu quero que ela fique bem.
A voz suavizou um pouco.
Quase imperceptível.
— Quero alguém seguindo ela. Discreto. Sem que ela perceba.
— Sim, senhor.
— Ela não vai passar dificuldade nenhuma… sem saber que fui eu.
Agora o tom voltou a ser frio.
Cortante.
— E ele…
Silêncio.
Pesado.
— Eu quero que ele perca tudo.
O segurança olhou para frente.
Já entendendo.
— Tudo, chefe?
Um leve sorriso surgiu no canto dos lábios dele.
Sombrio.
— Dinheiro… status… respeito…
Os olhos brilharam de forma perigosa.
— E quando ele não tiver mais nada…
Pausa.
— Aí sim… eu vou aparecer.
Dentro da casa, Victor beijava a mulher grávida, completamente alheio ao que estava começando.
Do lado de fora…
Seu destino já estava selado.
—
Enquanto isso…
Camila caminhava pelas ruas, abraçando a própria mochila.
Cansada.
Com fome.
Mas tentando ser forte.
Sem saber…
Que naquele exato momento…
Ela já tinha chamado a atenção do homem mais perigoso — e poderoso — que poderia cruzar seu caminho.
E que, a partir de agora…
Nada na vida dela seria por acaso.