Mentiras e destino

1189 Words
O papel já estava um pouco amassado de tanto que ela segurava. Era o endereço. O começo da nova vida. Ela parou na frente do prédio, respirou fundo e olhou mais uma vez. — É aqui… O coração acelerou. E então— — Camila?! Ela virou rapidamente. Os olhos brilharam na mesma hora. — Victor! Um sorriso verdadeiro, cheio de saudade, iluminou o rosto dela. Ela correu até ele. — Você já tá aqui?! Ele abriu um sorriso… mas não era o mesmo. — Camila… você tá aqui, minha princesa? Ela o abraçou forte, como se todo o tempo longe tivesse desaparecido naquele instante. — Eu disse que vinha… Ele riu de leve, sem muita emoção. — Eu não pensei que você ia chegar tão rápido. Ela se afastou um pouco, ainda segurando os braços dele. — Agora é verdade que você já se formou? Já? — Já sim. — Ai, que bom! Ela o abraçou de novo, apertando. Mas… algo estava errado. Ela sentiu. Quando se afastou, o olhou com mais atenção. O terno impecável. O cheiro de perfume caro. O jeito… distante. — Aconteceu alguma coisa, Victor? Ele desviou o olhar, ajeitando o próprio terno. — Não… é que você amarrotou meu terno. Ela arregalou os olhos, soltando ele rápido. — Desculpa! O clima mudou. Frio. Estranho. Ele respirou fundo. — Então… onde estão suas coisas? Ela levantou a mochila com um sorriso sem graça. — Aqui. Ele franziu a testa. — Só isso? — Foi só o que eu consegui trazer… eu acabei de chegar. Ela olhou ao redor, tentando recuperar o entusiasmo. — Onde fica a sua casa? Eu queria tomar um banho… comer alguma coisa… Silêncio. Pesado. — Camila… — ele começou, passando a mão no cabelo — eu tenho que te contar uma coisa. Ela sentiu o coração apertar. — O quê? Ele evitava olhar diretamente para ela. — Você… não vai poder ficar lá em casa. Ela piscou, confusa. — Por quê? — A minha casa tá em reforma… — ele disse rápido — e eu tô na casa de um amigo meu. Ela ficou em silêncio por um segundo. Aquilo não parecia certo. Mas ainda assim… ela sorriu. Porque queria acreditar. — Ah… tá… Ela respirou fundo. — Tudo bem. Então eu vou procurar um apartamento, tá? Ele assentiu, aliviado. — Eu sei que você vai conseguir encontrar. Então ele tirou um envelope do bolso. — Toma. Ela olhou, sem entender. — O que é isso? — Tem cinco mil reais aí. Ela recuou na hora. — Não precisa, Victor. — Precisa sim — ele insistiu, colocando o envelope na mão dela. — Pra você achar um lugar… comprar alguma coisa pra comer… qualquer coisa me liga, tá? Ela hesitou… mas acabou aceitando. — Tudo bem… O silêncio voltou. Desconfortável. Ela tentou sorrir. E então se inclinou levemente, oferecendo o rosto para um beijo. Mas ele recuou. — Não… quer dizer… não precisa me beijar agora, tá? Ela congelou. Aquilo doeu. Mais do que qualquer coisa. Ela o olhou, tentando entender. — Você tá tão diferente, Victor… Ele forçou um sorriso. — Só tô cansado, princesa… só isso. Mentira. Ela sentiu. Mas não disse nada. Apenas assentiu. — Tudo bem… Guardou o envelope na mochila. E começou a andar. Sozinha. Na cidade grande. Sem olhar para trás. — Do outro lado da rua… Ele observava. Ainda na cadeira de rodas. Ainda em silêncio. Mas agora… com algo novo no olhar. Interesse. Escuro. Perigoso. Ele tinha visto tudo. Cada detalhe. O abraço. A frieza. A rejeição. A dor dela… mesmo escondida. Um dos homens se aproximou. — Chefe? Ele não desviou o olhar dela nem por um segundo. — Eu quero tudo sobre ela… Fez uma breve pausa. O maxilar travou. — E sobre ele também. O segurança assentiu imediatamente. — Sim, senhor. Ele continuou observando enquanto ela se afastava, pequena no meio da cidade enorme. Vulnerável. Sozinha. Perfeita. E naquele momento… Ele tomou uma decisão. Uma que mudaria tudo. — Ninguém mente pra uma mulher da minha frente… e sai impune. A voz saiu baixa. Fria. Letal. A noite tinha caído. E com ela… a verdade começava a aparecer. Dentro do carro preto, parado em uma rua discreta, ele observava em silêncio. Os olhos frios. Calculistas. Perigosos. — Chefe… — o homem ao lado disse, olhando o tablet — já temos informações sobre ele. Ele não desviou o olhar da casa. — Fala. O segurança respirou fundo. — Nome: Victor Almeida. Recém-formado… mas já vive como alguém da alta sociedade. Ele arqueou levemente a sobrancelha. — Interessante… — Mas não para por aí. O tom mudou. Mais tenso. Mais pesado. — Ele não mora sozinho. Silêncio. O ar dentro do carro ficou mais denso. — Continua. — Ele vive com uma mulher… há meses. Os dedos dele apertaram o apoio da cadeira de rodas. Com força. — Nome dela? — Larissa. Uma pausa. E então— — Ela está grávida, chefe. Silêncio absoluto. O tipo de silêncio que antecede algo perigoso. Muito perigoso. Os olhos dele escureceram completamente. — Grávida… — ele repetiu, baixo. E então voltou a olhar para a casa. As luzes acesas. Cortinas entreabertas. E lá dentro… A cena que confirmou tudo. Victor. Rindo. Abraçando uma mulher. A mão dele deslizou pela barriga dela. Uma barriga já visível. Proteção. Carinho. Mentira. Tudo mentira. O maxilar dele travou. — Ele mentiu pra ela… A voz saiu fria. Controlada. Mas carregada de algo pior que raiva. Desprezo. — Mentiu… usou… e descartou. O segurança permaneceu em silêncio. Porque sabia. Aquilo não ia acabar bem. Nunca acabava. — E ela… — ele continuou — chegou hoje na cidade… sozinha… acreditando nele. Fechou os olhos por um segundo. Mas quando abriu… Já não havia mais dúvida. Nem hesitação. Só decisão. — Eu não gosto de homens assim. O segurança engoliu seco. — O que o senhor quer que a gente faça? Ele inclinou levemente a cabeça. Os olhos ainda presos naquela casa. — Nada… ainda. Pausa. Lenta. Calculada. — Primeiro… eu quero que ela fique bem. A voz suavizou um pouco. Quase imperceptível. — Quero alguém seguindo ela. Discreto. Sem que ela perceba. — Sim, senhor. — Ela não vai passar dificuldade nenhuma… sem saber que fui eu. Agora o tom voltou a ser frio. Cortante. — E ele… Silêncio. Pesado. — Eu quero que ele perca tudo. O segurança olhou para frente. Já entendendo. — Tudo, chefe? Um leve sorriso surgiu no canto dos lábios dele. Sombrio. — Dinheiro… status… respeito… Os olhos brilharam de forma perigosa. — E quando ele não tiver mais nada… Pausa. — Aí sim… eu vou aparecer. Dentro da casa, Victor beijava a mulher grávida, completamente alheio ao que estava começando. Do lado de fora… Seu destino já estava selado. — Enquanto isso… Camila caminhava pelas ruas, abraçando a própria mochila. Cansada. Com fome. Mas tentando ser forte. Sem saber… Que naquele exato momento… Ela já tinha chamado a atenção do homem mais perigoso — e poderoso — que poderia cruzar seu caminho. E que, a partir de agora… Nada na vida dela seria por acaso.
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