Sozinha no mundo

532 Words
A noite já tinha tomado conta da cidade. As luzes dos prédios brilhavam… mas, para ela, tudo parecia escuro. Camila parou em frente a um hotel simples. Nada luxuoso. Nada parecido com os lugares que ela imaginava quando pensava em recomeçar. Mas era o que ela tinha. E, naquele momento… era suficiente. Ela entrou, apertando a mochila contra o corpo. — Boa noite… — disse baixo. Minutos depois, já estava no quarto. Pequeno. Silencioso. Frio. Ela fechou a porta devagar… como se estivesse tentando não fazer barulho nem na própria vida. Caminhou até a cama. E sentou. O silêncio pesou. O cansaço veio de uma vez. E então… Ela sussurrou, quase quebrando: — Vitor… por que você me deixou sozinha? Os olhos encheram de lágrimas. Mas ela não chorou. Ela não queria chorar. Não ali. Não por ele. O celular começou a tocar. Ela olhou a tela. “Mãe”. O coração apertou. Ela atendeu. — Oi, mãe… Do outro lado, a voz veio rápida. Nervosa. Cobrada. — Camila! Onde você está?! Ela fechou os olhos por um segundo. — Eu fui embora, mãe… Silêncio. E então— — Camila, você era pra casar! Aquelas palavras caíram como um peso. — Um homem ia pagar quinhentos mil pra casar com você! Camila apertou o celular com força. A raiva começou a subir. — Eu não vou casar com ele, mãe! A voz dela falhou… mas continuou firme. — Ele já enterrou quatro mulheres! Silêncio do outro lado. — Eu não vou casar com um homem daquele… com um monstro daquele! A respiração da mãe ficou pesada. — Você precisa, Camila! A gente precisa desse dinheiro! Seu irmão precisa estudar! Lágrimas finalmente escorreram pelo rosto dela. — E eu, mãe? A voz saiu baixa. Machucada. — Eu não importo? Silêncio. A resposta nunca veio. Porque, no fundo… Ela já sabia. Camila passou a mão no rosto, limpando as lágrimas. E então disse, com uma força que nem sabia que ainda tinha: — Vocês não vão me encontrar. Pausa. — Não vão. E desligou. O quarto voltou ao silêncio. Mas agora… um silêncio mais pesado. Mais solitário. Ela deixou o celular cair ao lado. Olhou para o teto por alguns segundos. E então abraçou a si mesma, como se fosse a única proteção que restava. — Eu queria você aqui, Vitor… A voz saiu fraca. Quase um sussurro. Mas dessa vez… Não era só saudade. Era dor. — Do outro lado da cidade… Dentro de uma cobertura luxuosa… Ele observava. As informações já estavam todas na mesa. Fotos. Relatórios. Histórico. E agora… Ele sabia tudo. Sobre o passado dela. Sobre a família. Sobre o homem com quem queriam obrigá-la a casar. O maxilar dele travou. — Vendendo a própria filha… A voz saiu baixa. Fria. Perigosa. Ele se levantou. Sem apoio. Sem cadeira. Caminhou lentamente até a janela. Perfeito. Firme. Provando que nunca esteve tão vulnerável quanto todos pensavam. Olhou a cidade lá embaixo. — Ela não vai voltar pra aquele inferno. Virou-se. Os olhos escuros, decididos. — A partir de agora… Pausa. — Ela é minha responsabilidade. E naquele momento… Sem que ela soubesse… A vida de Camila acabava de mudar completamente.
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