A noite já tinha tomado conta da cidade.
As luzes dos prédios brilhavam… mas, para ela, tudo parecia escuro.
Camila parou em frente a um hotel simples.
Nada luxuoso.
Nada parecido com os lugares que ela imaginava quando pensava em recomeçar.
Mas era o que ela tinha.
E, naquele momento… era suficiente.
Ela entrou, apertando a mochila contra o corpo.
— Boa noite… — disse baixo.
Minutos depois, já estava no quarto.
Pequeno.
Silencioso.
Frio.
Ela fechou a porta devagar… como se estivesse tentando não fazer barulho nem na própria vida.
Caminhou até a cama.
E sentou.
O silêncio pesou.
O cansaço veio de uma vez.
E então…
Ela sussurrou, quase quebrando:
— Vitor… por que você me deixou sozinha?
Os olhos encheram de lágrimas.
Mas ela não chorou.
Ela não queria chorar.
Não ali.
Não por ele.
O celular começou a tocar.
Ela olhou a tela.
“Mãe”.
O coração apertou.
Ela atendeu.
— Oi, mãe…
Do outro lado, a voz veio rápida. Nervosa. Cobrada.
— Camila! Onde você está?!
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Eu fui embora, mãe…
Silêncio.
E então—
— Camila, você era pra casar!
Aquelas palavras caíram como um peso.
— Um homem ia pagar quinhentos mil pra casar com você!
Camila apertou o celular com força.
A raiva começou a subir.
— Eu não vou casar com ele, mãe!
A voz dela falhou… mas continuou firme.
— Ele já enterrou quatro mulheres!
Silêncio do outro lado.
— Eu não vou casar com um homem daquele… com um monstro daquele!
A respiração da mãe ficou pesada.
— Você precisa, Camila! A gente precisa desse dinheiro! Seu irmão precisa estudar!
Lágrimas finalmente escorreram pelo rosto dela.
— E eu, mãe?
A voz saiu baixa.
Machucada.
— Eu não importo?
Silêncio.
A resposta nunca veio.
Porque, no fundo…
Ela já sabia.
Camila passou a mão no rosto, limpando as lágrimas.
E então disse, com uma força que nem sabia que ainda tinha:
— Vocês não vão me encontrar.
Pausa.
— Não vão.
E desligou.
O quarto voltou ao silêncio.
Mas agora… um silêncio mais pesado.
Mais solitário.
Ela deixou o celular cair ao lado.
Olhou para o teto por alguns segundos.
E então abraçou a si mesma, como se fosse a única proteção que restava.
— Eu queria você aqui, Vitor…
A voz saiu fraca.
Quase um sussurro.
Mas dessa vez…
Não era só saudade.
Era dor.
—
Do outro lado da cidade…
Dentro de uma cobertura luxuosa…
Ele observava.
As informações já estavam todas na mesa.
Fotos.
Relatórios.
Histórico.
E agora…
Ele sabia tudo.
Sobre o passado dela.
Sobre a família.
Sobre o homem com quem queriam obrigá-la a casar.
O maxilar dele travou.
— Vendendo a própria filha…
A voz saiu baixa.
Fria.
Perigosa.
Ele se levantou.
Sem apoio.
Sem cadeira.
Caminhou lentamente até a janela.
Perfeito.
Firme.
Provando que nunca esteve tão vulnerável quanto todos pensavam.
Olhou a cidade lá embaixo.
— Ela não vai voltar pra aquele inferno.
Virou-se.
Os olhos escuros, decididos.
— A partir de agora…
Pausa.
— Ela é minha responsabilidade.
E naquele momento…
Sem que ela soubesse…
A vida de Camila acabava de mudar completamente.