Guerra declarada

942 Words
Alguns dias depois… O apartamento estava silencioso. Silencioso demais. O quarto… Arrumado. Sem roupas espalhadas. Sem o perfume dela no ar. Sem ela. Camila tinha ido embora. Em silêncio. Sem se despedir. Levou apenas a mochila. A mesma com que chegou. E deixou tudo para trás. As roupas que ele comprou. Os sapatos. Os presentes. E, sobre a cama… Um cheque. Cem mil. Com a assinatura da mãe dele. E uma carta. Alonso entrou no quarto. Chamando por ela. — Camila? Silêncio. O coração dele apertou. — Camila… Mais baixo dessa vez. Nada. Foi quando ele viu. A carta. As mãos dele tremeram levemente ao pegar. E ele leu. "Me perdoa fazer isso com você… Eu te amo… mas eu não posso te envergonhar… Nem atrapalhar a sua vida… Eu não quis levar nada, porque não sou interesseira… Esse dinheiro é da sua mãe… Ela me pediu pra sair da sua vida… Disse que eu não faço parte do seu mundo… E ela tá certa… Eu vou te levar no meu coração… Beijos… Camila." Silêncio. Pesado. A respiração dele falhou. — Não… A voz saiu baixa. Incrédula. Ele amassou levemente a carta. — Não… Os olhos escureceram. Dessa vez… Não tinha controle. Ele se levantou. De verdade. Sem pensar. Sem fingir. — NÃO! O grito ecoou pelo quarto. Os funcionários do lado de fora congelaram. Porque nunca… tinham visto aquilo. Ele em pé. E destruído. — Como ela foi embora?! A voz veio furiosa. Alex entrou correndo. — Chefe— — EU QUERO SABER COMO ELA FOI EMBORA! O olhar dele era perigoso. — AGORA! O silêncio tomou conta. Porque naquele momento… Não era só dor. Era raiva. E decisão. Ele pegou o telefone. — Acha ela. A voz saiu baixa. Fria. Mortal. — Onde quer que ela esteja… Pausa. — Tragam ela de volta. Porque ele podia perder tudo. Menos ela. O carro parou bruscamente em frente à mansão. Antes mesmo do motor desligar… A porta já foi aberta. Alonso desceu. Andando. Sem esconder. Sem fingir. Os seguranças da casa congelaram. — Senhor… Alonso… Ele não respondeu. Passos firmes. Rápidos. A porta se abriu com força. — ONDE ESTÃO MEUS PAIS? Os funcionários se entreolharam. — No quarto, senhor… Ele não esperou mais nada. Subiu as escadas. Cada passo carregado de raiva. E então— Abriu a porta sem bater. Os dois estavam na cama. Assistindo televisão. A mãe virou o rosto primeiro. — Alonso… E então viu. — Você… tá andando? Ele fechou a porta com força. — QUEM VOCÊ PENSA QUE É? Silêncio. — Pra dizer que a Camila não está à minha altura? — Pra dar cem mil pra ela sumir da minha vida? A mãe se levantou. — Ela te contou? — Aquela caipira— — NÃO FALA DELA! A voz dele explodiu. — Ela é a mulher que eu amo! — E a mulher que eu escolhi pra casar! — PRA ESTAR COMIGO! O pai se levantou também. — Alonso, olha o jeito que você fala— — COMO VOCÊ TEVE CORAGEM, MÃE?! — COMO?! Ela tentou se justificar. — Você viu o jantar— — EU VI! — EU VI VOCÊS HUMILHANDO ELA! O pai interveio: — Ela não sabia nem usar talher! Perguntando pra funcionário! — Isso não é vergonha?! — CALA A BOCA! O silêncio caiu pesado. — NÃO É VERGONHA! — Vergonha foi o que vocês fizeram! — Vocês nunca montam aquela mesa daquele jeito! — Fizeram aquilo pra humilhar ela! A mãe cruzou os braços. — Ela passou m*l porque não tem costume— — ELA É ALÉRGICA! — E não sabia! Silêncio. — Claro que não sabia! — Uma mulher que nunca teve acesso a isso! — Como ia saber que era alérgica a lagosta?! A respiração dele estava pesada. Ele tirou o cheque do bolso. Olhou. E rasgou. Devagar. Em vários pedaços. — Isso aqui? — Pra vocês pode ser dinheiro. — Pra ela… — Foi humilhação. Os pedaços caíram no chão. O olhar dele escureceu. — Se eu não achar a minha mulher… Pausa. — Ou se alguma coisa acontecer com ela… A voz ficou baixa. Perigosa. — Eu destruo o império de vocês. O pai avançou um passo. — Você não pode fazer isso! Alonso riu. Frio. — Claro que posso. — Eu tenho o meu próprio império. — E eu acabo com o de vocês sem nem sujar as mãos. Silêncio. Pesado. — Vocês vão parar na sarjeta. — Pra aprender a valorizar quem não tem nada… — Mas tem caráter. O pai ainda tentou: — E essa história de você estar andando?! — Você enganou a gente?! Alonso soltou um riso sem humor. — Poucos meses depois do acidente… eu já andava. Silêncio absoluto. — Eu só quis ver… — Que tipo de família eu tinha. Pausa. — E que tipo de mulher ficaria ao meu lado. Os olhos dele queimaram. — Aquela mulher perfeita que vocês escolheram? — Me traiu. — Me abandonou. — E foi pra outro. Pausa. — Já a Camila… A voz suavizou… por um segundo. — Nunca me pediu nada. — Nunca quis nada meu. — Foi embora com a mochila dela. — Com as roupas que ela mesma comprou. — Deixou tudo. — TUDO. O olhar voltou a endurecer. — E vocês ainda têm coragem de chamar ela de interesseira? Silêncio. Pesado. Irreversível. Ele caminhou até a porta. Parou por um segundo. Sem olhar pra trás. — Eu espero… — Que nada de r**m tenha acontecido com ela. E saiu. Batendo a porta com força. E naquele momento… Não era mais só um filho. Era um homem em guerra.
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