Alguns dias depois…
O apartamento estava silencioso.
Silencioso demais.
O quarto…
Arrumado.
Sem roupas espalhadas.
Sem o perfume dela no ar.
Sem ela.
Camila tinha ido embora.
Em silêncio.
Sem se despedir.
Levou apenas a mochila.
A mesma com que chegou.
E deixou tudo para trás.
As roupas que ele comprou.
Os sapatos.
Os presentes.
E, sobre a cama…
Um cheque.
Cem mil.
Com a assinatura da mãe dele.
E uma carta.
Alonso entrou no quarto.
Chamando por ela.
— Camila?
Silêncio.
O coração dele apertou.
— Camila…
Mais baixo dessa vez.
Nada.
Foi quando ele viu.
A carta.
As mãos dele tremeram levemente ao pegar.
E ele leu.
"Me perdoa fazer isso com você…
Eu te amo… mas eu não posso te envergonhar…
Nem atrapalhar a sua vida…
Eu não quis levar nada, porque não sou interesseira…
Esse dinheiro é da sua mãe…
Ela me pediu pra sair da sua vida…
Disse que eu não faço parte do seu mundo…
E ela tá certa…
Eu vou te levar no meu coração…
Beijos… Camila."
Silêncio.
Pesado.
A respiração dele falhou.
— Não…
A voz saiu baixa.
Incrédula.
Ele amassou levemente a carta.
— Não…
Os olhos escureceram.
Dessa vez…
Não tinha controle.
Ele se levantou.
De verdade.
Sem pensar.
Sem fingir.
— NÃO!
O grito ecoou pelo quarto.
Os funcionários do lado de fora congelaram.
Porque nunca…
tinham visto aquilo.
Ele em pé.
E destruído.
— Como ela foi embora?!
A voz veio furiosa.
Alex entrou correndo.
— Chefe—
— EU QUERO SABER COMO ELA FOI EMBORA!
O olhar dele era perigoso.
— AGORA!
O silêncio tomou conta.
Porque naquele momento…
Não era só dor.
Era raiva.
E decisão.
Ele pegou o telefone.
— Acha ela.
A voz saiu baixa.
Fria.
Mortal.
— Onde quer que ela esteja…
Pausa.
— Tragam ela de volta.
Porque ele podia perder tudo.
Menos ela.
O carro parou bruscamente em frente à mansão.
Antes mesmo do motor desligar…
A porta já foi aberta.
Alonso desceu.
Andando.
Sem esconder.
Sem fingir.
Os seguranças da casa congelaram.
— Senhor… Alonso…
Ele não respondeu.
Passos firmes.
Rápidos.
A porta se abriu com força.
— ONDE ESTÃO MEUS PAIS?
Os funcionários se entreolharam.
— No quarto, senhor…
Ele não esperou mais nada.
Subiu as escadas.
Cada passo carregado de raiva.
E então—
Abriu a porta sem bater.
Os dois estavam na cama.
Assistindo televisão.
A mãe virou o rosto primeiro.
— Alonso…
E então viu.
— Você… tá andando?
Ele fechou a porta com força.
— QUEM VOCÊ PENSA QUE É?
Silêncio.
— Pra dizer que a Camila não está à minha altura?
— Pra dar cem mil pra ela sumir da minha vida?
A mãe se levantou.
— Ela te contou?
— Aquela caipira—
— NÃO FALA DELA!
A voz dele explodiu.
— Ela é a mulher que eu amo!
— E a mulher que eu escolhi pra casar!
— PRA ESTAR COMIGO!
O pai se levantou também.
— Alonso, olha o jeito que você fala—
— COMO VOCÊ TEVE CORAGEM, MÃE?!
— COMO?!
Ela tentou se justificar.
— Você viu o jantar—
— EU VI!
— EU VI VOCÊS HUMILHANDO ELA!
O pai interveio:
— Ela não sabia nem usar talher! Perguntando pra funcionário!
— Isso não é vergonha?!
— CALA A BOCA!
O silêncio caiu pesado.
— NÃO É VERGONHA!
— Vergonha foi o que vocês fizeram!
— Vocês nunca montam aquela mesa daquele jeito!
— Fizeram aquilo pra humilhar ela!
A mãe cruzou os braços.
— Ela passou m*l porque não tem costume—
— ELA É ALÉRGICA!
— E não sabia!
Silêncio.
— Claro que não sabia!
— Uma mulher que nunca teve acesso a isso!
— Como ia saber que era alérgica a lagosta?!
A respiração dele estava pesada.
Ele tirou o cheque do bolso.
Olhou.
E rasgou.
Devagar.
Em vários pedaços.
— Isso aqui?
— Pra vocês pode ser dinheiro.
— Pra ela…
— Foi humilhação.
Os pedaços caíram no chão.
O olhar dele escureceu.
— Se eu não achar a minha mulher…
Pausa.
— Ou se alguma coisa acontecer com ela…
A voz ficou baixa.
Perigosa.
— Eu destruo o império de vocês.
O pai avançou um passo.
— Você não pode fazer isso!
Alonso riu.
Frio.
— Claro que posso.
— Eu tenho o meu próprio império.
— E eu acabo com o de vocês sem nem sujar as mãos.
Silêncio.
Pesado.
— Vocês vão parar na sarjeta.
— Pra aprender a valorizar quem não tem nada…
— Mas tem caráter.
O pai ainda tentou:
— E essa história de você estar andando?!
— Você enganou a gente?!
Alonso soltou um riso sem humor.
— Poucos meses depois do acidente… eu já andava.
Silêncio absoluto.
— Eu só quis ver…
— Que tipo de família eu tinha.
Pausa.
— E que tipo de mulher ficaria ao meu lado.
Os olhos dele queimaram.
— Aquela mulher perfeita que vocês escolheram?
— Me traiu.
— Me abandonou.
— E foi pra outro.
Pausa.
— Já a Camila…
A voz suavizou… por um segundo.
— Nunca me pediu nada.
— Nunca quis nada meu.
— Foi embora com a mochila dela.
— Com as roupas que ela mesma comprou.
— Deixou tudo.
— TUDO.
O olhar voltou a endurecer.
— E vocês ainda têm coragem de chamar ela de interesseira?
Silêncio.
Pesado.
Irreversível.
Ele caminhou até a porta.
Parou por um segundo.
Sem olhar pra trás.
— Eu espero…
— Que nada de r**m tenha acontecido com ela.
E saiu.
Batendo a porta com força.
E naquele momento…
Não era mais só um filho.
Era um homem em guerra.