A lanchonete estava em silêncio.
Depois do susto… depois do medo… agora só restava tensão.
Camila ainda tremia, mas quando olhou pra ele, a dor mudou de lugar.
— Onde você estava…? ela perguntou, a voz baixa. — Por que você não apareceu antes?
Ele respirou fundo.
— Eu tava te procurando…
Ela riu, sem humor. As lágrimas começaram a cair.
— Me procurando? Ou me testando?
Silêncio. Ele travou.
— Camila, eu—
— Você fez um teste comigo? a voz dela quebrou. — Você achou que eu ia me aproximar de você por dinheiro?
Ela deu um passo pra trás.
— Não sou eu! Eu sempre trabalhei! Sempre me virei! Eu nunca precisei de dinheiro de ninguém!
O peito subia e descia rápido.
— Você escondeu que era bilionário… e escondeu que andava…
Ele abaixou a cabeça, sem resposta.
— Obrigada por ter me salvado agora… a voz dela ficou mais baixa. — Mas eu vou me virar sozinha.
Ela virou o rosto.
— Eu prometo.
Ele avançou um passo.
— Não… espera—
— Não, Alonso! ela levantou a mão, impedindo.
— Já é demais.
Silêncio.
— Além de eu não fazer parte do seu mundo… você mentiu pra mim. Escondeu coisas importantes.
Pausa.
— Agora tudo faz sentido…
Ela passou a mão no rosto.
— Eu não questionei quando descobri que você era bilionário… não questionei! Mas agora… vendo tudo… eu tenho certeza.
Os olhos encontraram os dele.
— Você queria me testar.
Silêncio pesado.
— No fundo… você também achava que eu não era suficiente. Que eu não era digna de você. Do seu amor.
— Não! ele respondeu na hora. — Nunca foi isso!
Ela continuou, ignorando.
— Aquela mulher do restaurante… ela é sua ex, né?
Pausa.
— Vocês foram casados?
Ele assentiu.
— Fui.
— E ela te deixou depois do acidente.
— Sim.
Silêncio.
— Então você achou que qualquer outra mulher faria o mesmo… principalmente eu.
Os olhos dele brilharam.
— Não era sobre você—
— Era sim! ela interrompeu.
— Eu sou mais nova. A gente tem diferença de idade. Eu vim do nada! Claro que você ia desconfiar!
A voz falhou.
— Meu Deus…
Ela levou a mão à cabeça.
— Você olhou pra mim e viu um risco. Não uma escolha.
Aquilo atingiu ele forte.
— Me perdoa… ele disse baixo. — Eu errei. Muito.
Ela fechou os olhos.
— Eu não tenho casa aqui, Alonso… a voz saiu fraca agora. — Eu não tenho ninguém aqui.
Pausa.
— E você… você ainda esconde coisas. Você escolhe o que me contar e o que não contar.
Silêncio.
— E eu não posso viver assim.
O coração dele apertou.
— Então me deixa te ajudar—
— Não! ela recuou. — Eu não quero nada seu. Nada.
Pausa.
— Porque se eu ficar… a voz falhou. — Eu vou me perder de mim.
Silêncio pesado.
E pela primeira vez, ele não tinha resposta.
Porque ela não estava errada.
A rua estava silenciosa.
Camila saiu da lanchonete sem olhar pra trás.
Passos rápidos. O coração apertado. Mas dessa vez ela não chorou, porque já tinha chorado tudo.
— Eu não posso voltar… ela sussurrou pra si mesma. — Eu não posso…
E foi embora. Mais uma vez sozinha.
Do outro lado da cidade, a mansão parecia grande demais, vazia demais.
Alonso estava sentado no chão do quarto, a garrafa ao lado, intocada. Ele não bebia, só olhava pro nada, os olhos vermelhos.
— Eu estraguei tudo… a voz saiu baixa, quebrada.
Alex estava ali, encostado na parede, observando.
— Cara…
Silêncio.
— Eu te avisei.
Alonso nem reagiu.
— Eu disse que você ia se machucar. E pior… ia machucar ela também.
O silêncio ficou pesado.
— Você não devia ter escondido.
Alonso passou a mão no rosto.
— Eu achei que tava fazendo certo… a voz falhou. — Eu só queria alguém que me amasse de verdade.
Alex respondeu direto:
— E ela amava.
Silêncio.
Aquilo doeu mais do que qualquer coisa.
— Ela não quis nada teu… nem dinheiro… nem status… nada.
Alonso fechou os olhos.
— E mesmo assim… você tratou como se ela fosse igual às outras.
— Eu não tratei…
— Tratou sim.
A verdade veio dura.
— Você escondeu quem você era. Você escondeu que andava. Você criou uma mentira inteira.
Pausa.
— E ela acreditou em você.
O peito dele apertou.
— Ela confiou em você, Alonso.
Silêncio pesado.
— E você quebrou isso.
Alonso abaixou a cabeça, sem defesa.
— Eu perdi ela… a voz saiu quase inaudível.
Alex suspirou.
— Ainda não.
Alonso levantou o olhar.
— Mas se continuar assim… vai perder.
Silêncio.
— Porque agora não é sobre dinheiro… nem poder… é sobre provar que você merece ela.
Pausa.
— E isso… você nunca fez.
Alonso ficou em silêncio.
Mas dessa vez não era vazio.
Era decisão.
Porque pela primeira vez ele entendeu.
Amar ela não era proteger. Não era esconder.
Era ser verdadeiro.
E talvez… ainda não fosse tarde demais.