Capítulo I — O Inverno Que Nunca Terminou
Durante dois anos, você carregou o título de Duquesa do Norte como quem carrega uma coroa de gelo.
Ligada a Theodor Alaric von Rosenwald por contrato, não por amor.
Desde o primeiro dia no castelo de pedra n***a, envolto por montanhas eternamente cobertas de neve, você soube: ele jamais seria um homem fácil de alcançar. Theodor era silêncio, postura rígida, olhos frios como o aço de sua armadura. Um duque moldado pela guerra, pela perda, pela desconfiança.
E ainda assim… você tentou.
Tentou com palavras suaves durante os jantares formais.
— O inverno parece mais brando este ano — você dizia, buscando qualquer fresta.
Ele apenas assentia, os olhos fixos no cálice de vinho.
— Talvez seja impressão sua, minha senhora.
Tentou com pequenos gestos — um manto colocado sobre seus ombros quando o vento cortava os corredores, uma mão que hesitava perto da dele ao caminhar lado a lado.
Ele nunca se afastava bruscamente.
Mas nunca permitia que você atravessasse suas muralhas.
À noite, quando o castelo dormia, você chorava em silêncio, com a mão sobre o peito, perguntando-se quando aquele casamento deixaria de ser apenas um dever político.
Nunca deixou.
E então, quando o contrato chegou ao fim, ele a chamou ao salão principal.
O fogo ardia na lareira, lançando sombras longas pelas paredes de pedra. Theodor estava em pé, de costas para você.
— Está tudo resolvido — disse ele, sem rodeios. — Você está livre.
Livre.
A palavra caiu como uma lâmina.
— Livre… — você repetiu, a voz baixa. — É só isso?
Ele se virou devagar, o rosto impassível.
— Cumprimos o acordo. Não há mais nada que nos prenda.
Você esperou. Por arrependimento. Por dúvida. Por qualquer coisa.
Nada veio.
— Então… adeus, meu senhor — você disse, inclinando levemente a cabeça.
Ele apenas respondeu:
— Que os deuses a acompanhem.
E assim, como se sua presença nunca tivesse importado, você deixou o castelo.
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Na corte, espalharam que você retornara à sua pátria distante.
Mas a verdade era outra.
Você se escondeu nas periferias da cidade, longe dos olhares curiosos, longe dele. Em uma casa simples, de paredes frias, onde o vento assobiava pelas frestas e a solidão era companhia constante.
Dilacerada entre a dor e o silêncio, você aprendeu a sobreviver.
E a guardar um segredo.
Quando deixou o castelo, você não estava sozinha.
Carregava em seu ventre o filho do Duque do Norte.
Um herdeiro que ele jamais soube existir.
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Dias depois, caminhava sozinha pelas ruas silenciosas, o manto pesado cobrindo o corpo já sensível ao frio. A neve caía lentamente, tocando sua luva antes de derreter.
Seus passos eram leves… mas trêmulos.
— Agora acabou de verdade, não é? — você sussurrou para ninguém, observando a neve se desfazer contra o couro escuro da luva.
Uma mão repousou instintivamente sobre o ventre ainda discreto.
— Mas eu não estou sozinha… — murmurou, com um fio de voz.
Dentro de você, dois corações batiam.
Um deles, herdeiro do homem que a rejeitara.
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Enquanto isso, no castelo, Theodor começou a sentir o silêncio de forma diferente.
Os corredores pareciam mais frios.
As noites, mais longas.
Ele se pegava olhando para a cadeira vazia à mesa, para o lugar onde você costumava ficar em silêncio, observando-o como se ele fosse o único mundo possível.
— Por que isso me incomoda? — murmurou certa noite, fechando o punho com força.
Ele não sabia.
Ainda não.
Mas o inverno que ele acreditava dominar estava prestes a devolver tudo o que ele havia n****o.
Inclusive você.
E o filho que carregava o sangue do Norte.