O frio daquele amanhecer parecia mais c***l do que nos dias anteriores.
Você acordou antes do sol, sentindo um aperto estranho no peito — uma mistura de náusea leve, cansaço profundo e algo mais… algo que pulsava junto ao seu coração. A pequena casa rangia com o vento, e por um instante você permaneceu deitada, encarando o teto simples de madeira.
— Está tudo bem… — murmurou para si mesma, levando a mão ao ventre. — Nós vamos ficar bem.
Aquela frase se tornara um hábito. Um juramento silencioso.
Levantou-se devagar, vestiu o vestido simples de lã e envolveu-se no manto já gasto. O espelho rachado devolveu um reflexo diferente do que você conhecia: mais pálida, mais magra… mas os olhos ainda carregavam a mesma ternura que, um dia, haviam buscado os dele.
Theodor.
Você respirou fundo.
— Não pense nele.
Mas o coração não obedecia.
⸻
No castelo do Norte, o duque despertava com uma inquietação que não sabia nomear.
Theodor permaneceu sentado à beira da cama por longos minutos, os cotovelos apoiados nos joelhos, o olhar perdido no chão de pedra.
— Dois anos… — murmurou para o vazio.
Dois anos de uma presença silenciosa. De passos suaves pelos corredores. De um olhar que sempre o acompanhava, mesmo quando ele fingia não notar.
Vestiu-se com movimentos automáticos e seguiu para o salão de desjejum. Ao entrar, algo o atingiu com força inesperada.
A cadeira vazia.
Ele fechou o punho lentamente.
— Ridículo — resmungou.
Mas, quando se sentou, percebeu que o silêncio já não era confortável. Era ensurdecedor.
— Meu senhor — disse o conselheiro Heinrich, aproximando-se. — Há rumores na cidade.
Theodor ergueu o olhar, atento.
— Sobre o quê?
— Sobre a antiga duquesa.
O coração dele falhou por um breve segundo.
— O que dizem? — perguntou, tentando manter a voz firme.
— Que ela não retornou à pátria. Que permanece… escondida.
— Escondida? — ele franziu o cenho. — Por quê?
Heinrich hesitou.
— Alguns dizem que ela partiu em desgraça. Outros… que carrega uma dor que não desejava mostrar à corte.
Theodor afastou a cadeira com brusquidão.
— Isso não é da minha conta.
Mas assim que o conselheiro se retirou, ele permaneceu imóvel, encarando o fogo da lareira.
— Não é da minha conta… — repetiu, mais baixo.
E pela primeira vez, não acreditou nas próprias palavras.
⸻
Na cidade baixa, você caminhava lentamente pela rua coberta de neve fina, parando diante de uma pequena loja de tecidos. A dona, uma mulher mais velha de olhar gentil, sorriu ao vê-la.
— Você está mais pálida hoje, minha querida.
— É só o frio — respondeu, forçando um sorriso.
A mulher inclinou a cabeça, observando-a com atenção.
— Ou talvez seja cansaço demais para alguém tão jovem.
Você desviou o olhar.
— Às vezes… a vida pesa mais do que deveria.
A mulher tocou sua mão com delicadeza.
— Não carregue o mundo sozinha.
Você quase chorou.
⸻
Naquela noite, sentada perto da pequena lareira, você retirou do bolso um objeto que nunca teve coragem de abandonar: um anel simples, mas elegante — o símbolo do casamento que jamais foi amor.
— Você nunca me quis… — sussurrou. — Mas eu te amei o suficiente por nós dois.
As lágrimas caíram silenciosas.
— E ainda amo… mesmo sem querer.
A mão voltou ao ventre, agora com mais firmeza.
— Mas você nunca vai saber.
⸻
No castelo, Theodor caminhava pelos corredores escuros, como se fosse atraído por lembranças que evitara por tempo demais. Parou diante da antiga câmara que fora sua.
Abriu a porta.
O quarto estava vazio. Frio. Impessoal.
— Por que você nunca reclamou? — perguntou ao silêncio. — Por que nunca me exigiu nada?
A resposta veio apenas da memória.
A sua voz, suave.
“Enquanto eu puder ficar ao seu lado, isso basta.”
Ele fechou os olhos com força.
— Maldição…
Algo começou a ruir dentro dele.
Não era arrependimento completo. Ainda não.
Mas era o começo da falta.
E o amor… quando n****o por tempo demais, sempre encontra um caminho para voltar.
Mesmo que tarde.
Mesmo que carregando um segredo que mudaria tudo.