Capítulo III — Quando o Destino Começa a Chamar

777 Words
A dor veio antes do medo. Você estava dobrando alguns tecidos próximos à pequena lareira quando uma pontada forte atravessou o ventre, fazendo-a prender a respiração. A mão foi imediatamente ao corpo, os dedos trêmulos. — Calma… calma… — murmurou, apoiando-se na mesa. O fogo crepitava baixo, como se observasse em silêncio. Você fechou os olhos, respirando fundo, até a dor ceder. Quando abriu novamente, sentiu algo diferente. Não era apenas cansaço. Era certeza. — Você está aqui… — sussurrou, a voz embargada. — De verdade. Sentou-se devagar e apoiou as costas na parede. Um sorriso frágil surgiu entre lágrimas. — Perdoe-me por te trazer ao mundo assim… longe, escondido. Uma pausa. — Mas eu prometo… nunca vou deixar que se sinta rejeitado. O vento bateu na janela, forte, quase como resposta. ⸻ No castelo do Norte, Theodor estava em pé diante do mapa da região, mas sua mente não acompanhava seus olhos. O conselheiro Heinrich falava sobre rotas comerciais, impostos e tratados — palavras que entravam por um ouvido e saíam pelo outro. — Meu senhor? — chamou Heinrich, notando o silêncio prolongado. Theodor piscou, voltando à realidade. — Diga novamente. — Perguntei se devemos reforçar a guarda na cidade baixa. Há movimentações estranhas… — Movimentações? — o duque franziu o cenho. — De quem? — Pessoas que não desejam ser vistas. O coração dele bateu mais forte, sem razão aparente. — Prepare os cavalos — disse de repente. Heinrich arregalou os olhos. — Perdão? — Quero ver com meus próprios olhos. — O senhor não costuma— — Hoje eu costumo. O conselheiro assentiu, ainda confuso. Enquanto caminhava para o pátio, Theodor sentiu algo que não sentia há anos: inquietação misturada a urgência. — Por que agora? — murmurou para si mesmo. Mas o destino não responde perguntas. Apenas age. ⸻ Naquela mesma tarde, você saiu para buscar água no poço comunitário. O céu estava cinza, pesado, como se a neve ameaçasse cair novamente. — Devagar… — você sussurrou para si mesma, segurando o balde com cuidado. Uma mulher aproximou-se — a mesma da loja de tecidos. — Você deveria descansar mais. — Não posso — respondeu, gentil. — Preciso trabalhar. Ela a observou por um momento longo demais. — Você está grávida, não está? O mundo pareceu parar. — Eu… — sua voz falhou. A mulher suspirou, com um olhar mais terno do que julgador. — Não precisa ter medo. Já vi esse olhar antes. Você baixou a cabeça, vencida. — Por favor… não conte a ninguém. — Meu silêncio é seu — garantiu ela. — Mas não enfrente isso sozinha. Você assentiu, sentindo o peso das palavras. — O pai… — a mulher começou. Você interrompeu. — Ele não sabe. Uma pausa dolorosa. — E talvez nunca saiba. ⸻ Os cavalos avançavam pela estrada de pedra quando Theodor sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. A cidade baixa surgiu diante dele — mais humilde, mais viva, mais real do que os salões frios do castelo. Ele desceu do cavalo, o manto escuro balançando ao vento. — Fique aqui — ordenou ao guarda. Caminhou entre as pessoas como um estranho em sua própria terra. O cheiro de lenha, pão quente e ferro misturava-se no ar. E então… Ele parou. Do outro lado da rua, uma figura envolta em um manto simples caminhava devagar, a mão protegendo o ventre. O coração dele falhou. — Não… — sussurrou. Você virou o rosto no exato momento em que seus olhos se encontraram. O mundo desapareceu. O barulho. As pessoas. O frio. Tudo. — Você… — ele disse, sem perceber que falava em voz alta. Você sentiu o chão sumir sob seus pés. — Não… n******e ser… — murmurou, dando um passo para trás. Theodor aproximou-se, atônito. — Por que você está aqui? — perguntou, a voz quebrada pela surpresa. Você engoliu em seco, o coração disparado. — Eu moro aqui. — Mora… aqui? — ele repetiu, como se a palavra doesse. — Por quê? Você levantou o olhar, os olhos marejados. — Porque você me libertou. Silêncio. — Lembra? Ele sentiu o golpe. — Você deveria ter voltado para sua pátria. — Você não me perguntou o que eu queria. As palavras ficaram suspensas entre os dois, pesadas como neve prestes a cair. Theodor abriu a boca para dizer algo — um pedido, uma explicação, qualquer coisa. Mas você já se afastava, o manto cobrindo o corpo… e o segredo que crescia dentro dele. Ele ficou parado, observando-a desaparecer entre as ruas. — Espere… — murmurou, tarde demais. Naquele instante, ele soube. O inverno tinha acabado de mudar. E nada — absolutamente nada — seria como antes.
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