A dor veio antes do medo.
Você estava dobrando alguns tecidos próximos à pequena lareira quando uma pontada forte atravessou o ventre, fazendo-a prender a respiração. A mão foi imediatamente ao corpo, os dedos trêmulos.
— Calma… calma… — murmurou, apoiando-se na mesa.
O fogo crepitava baixo, como se observasse em silêncio.
Você fechou os olhos, respirando fundo, até a dor ceder. Quando abriu novamente, sentiu algo diferente. Não era apenas cansaço. Era certeza.
— Você está aqui… — sussurrou, a voz embargada. — De verdade.
Sentou-se devagar e apoiou as costas na parede. Um sorriso frágil surgiu entre lágrimas.
— Perdoe-me por te trazer ao mundo assim… longe, escondido.
Uma pausa.
— Mas eu prometo… nunca vou deixar que se sinta rejeitado.
O vento bateu na janela, forte, quase como resposta.
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No castelo do Norte, Theodor estava em pé diante do mapa da região, mas sua mente não acompanhava seus olhos. O conselheiro Heinrich falava sobre rotas comerciais, impostos e tratados — palavras que entravam por um ouvido e saíam pelo outro.
— Meu senhor? — chamou Heinrich, notando o silêncio prolongado.
Theodor piscou, voltando à realidade.
— Diga novamente.
— Perguntei se devemos reforçar a guarda na cidade baixa. Há movimentações estranhas…
— Movimentações? — o duque franziu o cenho. — De quem?
— Pessoas que não desejam ser vistas.
O coração dele bateu mais forte, sem razão aparente.
— Prepare os cavalos — disse de repente.
Heinrich arregalou os olhos.
— Perdão?
— Quero ver com meus próprios olhos.
— O senhor não costuma—
— Hoje eu costumo.
O conselheiro assentiu, ainda confuso.
Enquanto caminhava para o pátio, Theodor sentiu algo que não sentia há anos: inquietação misturada a urgência.
— Por que agora? — murmurou para si mesmo.
Mas o destino não responde perguntas. Apenas age.
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Naquela mesma tarde, você saiu para buscar água no poço comunitário. O céu estava cinza, pesado, como se a neve ameaçasse cair novamente.
— Devagar… — você sussurrou para si mesma, segurando o balde com cuidado.
Uma mulher aproximou-se — a mesma da loja de tecidos.
— Você deveria descansar mais.
— Não posso — respondeu, gentil. — Preciso trabalhar.
Ela a observou por um momento longo demais.
— Você está grávida, não está?
O mundo pareceu parar.
— Eu… — sua voz falhou.
A mulher suspirou, com um olhar mais terno do que julgador.
— Não precisa ter medo. Já vi esse olhar antes.
Você baixou a cabeça, vencida.
— Por favor… não conte a ninguém.
— Meu silêncio é seu — garantiu ela. — Mas não enfrente isso sozinha.
Você assentiu, sentindo o peso das palavras.
— O pai… — a mulher começou.
Você interrompeu.
— Ele não sabe.
Uma pausa dolorosa.
— E talvez nunca saiba.
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Os cavalos avançavam pela estrada de pedra quando Theodor sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. A cidade baixa surgiu diante dele — mais humilde, mais viva, mais real do que os salões frios do castelo.
Ele desceu do cavalo, o manto escuro balançando ao vento.
— Fique aqui — ordenou ao guarda.
Caminhou entre as pessoas como um estranho em sua própria terra. O cheiro de lenha, pão quente e ferro misturava-se no ar.
E então…
Ele parou.
Do outro lado da rua, uma figura envolta em um manto simples caminhava devagar, a mão protegendo o ventre.
O coração dele falhou.
— Não… — sussurrou.
Você virou o rosto no exato momento em que seus olhos se encontraram.
O mundo desapareceu.
O barulho. As pessoas. O frio.
Tudo.
— Você… — ele disse, sem perceber que falava em voz alta.
Você sentiu o chão sumir sob seus pés.
— Não… n******e ser… — murmurou, dando um passo para trás.
Theodor aproximou-se, atônito.
— Por que você está aqui? — perguntou, a voz quebrada pela surpresa.
Você engoliu em seco, o coração disparado.
— Eu moro aqui.
— Mora… aqui? — ele repetiu, como se a palavra doesse. — Por quê?
Você levantou o olhar, os olhos marejados.
— Porque você me libertou.
Silêncio.
— Lembra?
Ele sentiu o golpe.
— Você deveria ter voltado para sua pátria.
— Você não me perguntou o que eu queria.
As palavras ficaram suspensas entre os dois, pesadas como neve prestes a cair.
Theodor abriu a boca para dizer algo — um pedido, uma explicação, qualquer coisa.
Mas você já se afastava, o manto cobrindo o corpo… e o segredo que crescia dentro dele.
Ele ficou parado, observando-a desaparecer entre as ruas.
— Espere… — murmurou, tarde demais.
Naquele instante, ele soube.
O inverno tinha acabado de mudar.
E nada — absolutamente nada — seria como antes.