Capítulo IV — O Que o Coração Não Consegue Calar

817 Words
Você não conseguiu dormir naquela noite. O reencontro ecoava em sua mente como passos em um corredor vazio. O choque nos olhos dele, a forma como sua voz falhara ao dizer seu nome… tudo isso a perseguia. Sentada à beira da cama simples, você apoiou a mão no ventre, respirando com dificuldade. — Ele me viu… — sussurrou. — Depois de tudo… O bebê se moveu de leve, quase imperceptível, mas suficiente para arrancar um suspiro seu. — Eu sei… — murmurou, com um sorriso triste. — Você sentiu também. Levantou-se e caminhou até a janela. A neve começava a cair novamente, cobrindo a cidade com um véu branco. Igual ao Norte. Igual a ele. — Mas ele n******e saber. Sua voz ficou firme. — Nunca. ⸻ No castelo, Theodor não encontrou descanso. Caminhava de um lado para o outro em seus aposentos, o manto jogado sobre uma cadeira, as mãos fechadas com força. — Ela mora na cidade baixa… — disse para si mesmo, incrédulo. — Sozinha. A lembrança da sua postura protetora, da mão no ventre, voltou com força. — Não… — murmurou, balançando a cabeça. Ele se virou bruscamente ao ouvir uma batida na porta. — Entre. Heinrich entrou, atento ao semblante do duque. — O senhor voltou perturbado. — Eu a vi. O conselheiro arregalou os olhos. — A duquesa? — Ela não é mais duquesa — corrigiu, seco. — Mas sim. Vi. Heinrich respirou fundo. — Isso explica muita coisa. — O quê? — Theodor ergueu o olhar. — Os rumores. O fato de ela não ter partido. O silêncio… Theodor virou-se para a janela. — Ela parecia… diferente. — Diferente como? Ele hesitou. — Mais frágil. E… Parou. — Como se escondesse algo. Heinrich ficou em silêncio por um momento longo demais. — Meu senhor… às vezes o que mais tememos enxergar é justamente o que mais importa. Theodor fechou os olhos. ⸻ Na manhã seguinte, você estava na pequena cozinha quando ouviu batidas firmes na porta. O coração disparou. — Não… — sussurrou. As batidas se repetiram. — Abra. Aquela voz. Você ficou imóvel por um segundo, depois respirou fundo e caminhou até a porta. Ao abri-la, encontrou Theodor parado ali, envolto no manto escuro, os olhos fixos nos seus como se temesse que você desaparecesse novamente. — Você n******e estar aqui — disse, em tom baixo, olhando ao redor. — Eu precisava falar com você. — Não. Você tentou fechar a porta. Ele colocou a mão, impedindo. — Por favor. A palavra o traiu. Você hesitou… e então cedeu. Ele entrou, observando o ambiente simples, o contraste gritante com o castelo. — Você vive assim? — perguntou, quase em choque. — É suficiente — respondeu, firme. — Não é. — Não cabe a você decidir isso. Silêncio. Ele deu um passo à frente. — Por que você ficou? Você desviou o olhar. — Porque não havia para onde ir. — Isso não é verdade. Você riu, sem humor. — Você me libertou sem perguntar nada. Sem se importar. Ele sentiu o golpe. — Eu achei que estava fazendo o certo. — Para quem? — você o encarou. — Para você? Theodor abriu a boca, mas nenhuma resposta veio. — Você sabe o quanto eu tentei? — sua voz tremeu. — O quanto esperei que você me visse? Ele engoliu em seco. — Eu via. — Não. — você balançou a cabeça. — Você olhava através de mim. Ele deu mais um passo, a voz baixa. — Eu não sabia amar. As palavras pairaram entre vocês. Você sentiu as lágrimas ameaçarem cair. — E agora? Ele hesitou… e então respondeu com honestidade crua: — Agora eu sinto sua falta. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de tudo o que não fora vivido. Instintivamente, você levou a mão ao ventre. Os olhos dele seguiram o movimento. — Você está doente? — perguntou, preocupado. Você congelou. — Não. — Então por que— — Você já perguntou demais. Ele deu um passo atrás, respeitando o limite. — Eu não vim exigir nada. Respirou fundo. — Só… não queria que você pensasse que nunca importou. Você fechou os olhos por um instante. — Mas importei sozinha. Ele abaixou a cabeça. — Eu sei. Quando ele se virou para ir embora, algo dentro de você gritou. — Theodor… Ele parou. — Não volte aqui — você disse, a voz embargada. — Se voltar… vai doer mais. Ele assentiu lentamente. — Então que doa. Virou-se para você. — Porque já dói não estar aqui. Ele saiu, deixando o ar pesado, o coração em ruínas. Você deslizou até o chão, apoiando-se na porta. — Perdoe-me… — sussurrou para o bebê. — Mas amá-lo ainda é perigoso. Longe dali, Theodor caminhava pela neve com o peito em chamas. — O que você está escondendo de mim…? — murmurou. E o destino, silencioso, sorria.
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