Você não conseguiu dormir naquela noite.
O reencontro ecoava em sua mente como passos em um corredor vazio. O choque nos olhos dele, a forma como sua voz falhara ao dizer seu nome… tudo isso a perseguia.
Sentada à beira da cama simples, você apoiou a mão no ventre, respirando com dificuldade.
— Ele me viu… — sussurrou. — Depois de tudo…
O bebê se moveu de leve, quase imperceptível, mas suficiente para arrancar um suspiro seu.
— Eu sei… — murmurou, com um sorriso triste. — Você sentiu também.
Levantou-se e caminhou até a janela. A neve começava a cair novamente, cobrindo a cidade com um véu branco. Igual ao Norte. Igual a ele.
— Mas ele n******e saber.
Sua voz ficou firme.
— Nunca.
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No castelo, Theodor não encontrou descanso.
Caminhava de um lado para o outro em seus aposentos, o manto jogado sobre uma cadeira, as mãos fechadas com força.
— Ela mora na cidade baixa… — disse para si mesmo, incrédulo. — Sozinha.
A lembrança da sua postura protetora, da mão no ventre, voltou com força.
— Não… — murmurou, balançando a cabeça.
Ele se virou bruscamente ao ouvir uma batida na porta.
— Entre.
Heinrich entrou, atento ao semblante do duque.
— O senhor voltou perturbado.
— Eu a vi.
O conselheiro arregalou os olhos.
— A duquesa?
— Ela não é mais duquesa — corrigiu, seco. — Mas sim. Vi.
Heinrich respirou fundo.
— Isso explica muita coisa.
— O quê? — Theodor ergueu o olhar.
— Os rumores. O fato de ela não ter partido. O silêncio…
Theodor virou-se para a janela.
— Ela parecia… diferente.
— Diferente como?
Ele hesitou.
— Mais frágil. E…
Parou.
— Como se escondesse algo.
Heinrich ficou em silêncio por um momento longo demais.
— Meu senhor… às vezes o que mais tememos enxergar é justamente o que mais importa.
Theodor fechou os olhos.
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Na manhã seguinte, você estava na pequena cozinha quando ouviu batidas firmes na porta.
O coração disparou.
— Não… — sussurrou.
As batidas se repetiram.
— Abra.
Aquela voz.
Você ficou imóvel por um segundo, depois respirou fundo e caminhou até a porta. Ao abri-la, encontrou Theodor parado ali, envolto no manto escuro, os olhos fixos nos seus como se temesse que você desaparecesse novamente.
— Você n******e estar aqui — disse, em tom baixo, olhando ao redor.
— Eu precisava falar com você.
— Não.
Você tentou fechar a porta.
Ele colocou a mão, impedindo.
— Por favor.
A palavra o traiu.
Você hesitou… e então cedeu.
Ele entrou, observando o ambiente simples, o contraste gritante com o castelo.
— Você vive assim? — perguntou, quase em choque.
— É suficiente — respondeu, firme.
— Não é.
— Não cabe a você decidir isso.
Silêncio.
Ele deu um passo à frente.
— Por que você ficou?
Você desviou o olhar.
— Porque não havia para onde ir.
— Isso não é verdade.
Você riu, sem humor.
— Você me libertou sem perguntar nada. Sem se importar.
Ele sentiu o golpe.
— Eu achei que estava fazendo o certo.
— Para quem? — você o encarou. — Para você?
Theodor abriu a boca, mas nenhuma resposta veio.
— Você sabe o quanto eu tentei? — sua voz tremeu. — O quanto esperei que você me visse?
Ele engoliu em seco.
— Eu via.
— Não. — você balançou a cabeça. — Você olhava através de mim.
Ele deu mais um passo, a voz baixa.
— Eu não sabia amar.
As palavras pairaram entre vocês.
Você sentiu as lágrimas ameaçarem cair.
— E agora?
Ele hesitou… e então respondeu com honestidade crua:
— Agora eu sinto sua falta.
O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de tudo o que não fora vivido.
Instintivamente, você levou a mão ao ventre.
Os olhos dele seguiram o movimento.
— Você está doente? — perguntou, preocupado.
Você congelou.
— Não.
— Então por que—
— Você já perguntou demais.
Ele deu um passo atrás, respeitando o limite.
— Eu não vim exigir nada.
Respirou fundo.
— Só… não queria que você pensasse que nunca importou.
Você fechou os olhos por um instante.
— Mas importei sozinha.
Ele abaixou a cabeça.
— Eu sei.
Quando ele se virou para ir embora, algo dentro de você gritou.
— Theodor…
Ele parou.
— Não volte aqui — você disse, a voz embargada. — Se voltar… vai doer mais.
Ele assentiu lentamente.
— Então que doa.
Virou-se para você.
— Porque já dói não estar aqui.
Ele saiu, deixando o ar pesado, o coração em ruínas.
Você deslizou até o chão, apoiando-se na porta.
— Perdoe-me… — sussurrou para o bebê. — Mas amá-lo ainda é perigoso.
Longe dali, Theodor caminhava pela neve com o peito em chamas.
— O que você está escondendo de mim…? — murmurou.
E o destino, silencioso, sorria.